Por que ler os clássicos

A seguinte entrevista saiu em O Estado do Maranhão no último dia 16 de janeiro, com o fim de divulgar o curso que darei sobre Os Lusíadas pelo Instituto Valor e Verdade no próximo dia 03 de fevereiro. A conversa acabou por ser uma pequena suma de minha visão sobre a importância e os benefícios da leitura dos grandes clássicos literários. 

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SÃO LUÍS- Um ávido leitor e estudioso de literatura, filosofia e cultura, o pesquisador Ricardo Santos de Carvalho debruça-se atualmente sobre a obra literária mais importante da língua portuguesa – Os Lusíadas, de Camões. A partir do universo simbólico do épico português, ele ministrará no dia 20 o curso “Mitologia e História em Os Lusíadas”.

Em entrevista, Ricardo de Carvalho, que é professor de História, formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), comenta a importância de se ler a poesia épica nos tempos atuais. Afirma que “a poesia exige uma entrega amorosa. A leitura de um épico ajuda a reeducar sua atenção, sua capacidade de fazer conexões entre realidades diferentes, a organizar o pensamento, sendo, no fim das contas, um jeito formidável de treinar a inteligência ao mesmo tempo em que se deleita”.

O estudioso explica que a leitura das grandes obras-primas da literatura mundial pode ser suficiente para renovar a nossa capacidade de entender o mundo e a vida. Particularmente, Os Lusíadas é uma obra que diz muito de nossa essência como um povo nascido através do contato da cultura e da língua portuguesa.

Você tem pesquisado sobre grandes obras que fundaram a história do pensamento humano, como o Épico de Gilgamesh e outras. Por que ler um clássico como Os Lusíadas nos dias de hoje?

São vários motivos, e o prazer não é o menos importante entre eles. Contudo, as grandes obras da história ocidental – cultura que tem suas raízes no Oriente, em obras como o Antigo Testamento, o Gilgamesh ou o Livro dos Mortos egípcio – trazem testemunhos poderosos sobre o modo como homens de vários tempos e etnias lidaram com desafios perenes. Que desafios são esses? Saber se portar diante da violência e da injustiça, dos humores da natureza, do mistério obscuro do sexo, do medo e do fascínio pela morte. Os grandes autores como Sófocles, Cervantes, Jane Austen e Kafka tiveram muito a dizer sobre estes e outros aspectos da vida, mas Camões nos revelou esta sabedoria a partir de nossa língua, o que acabou e acaba influenciando como nós, brasileiros e portugueses, damos expressão aos nossos sentimentos. E, como dizem os evangélicos, a palavra tem poder. Se nós não temos consciência do que queremos dizer quando nós dizemos algo, geramos um clima de confusão entre as pessoas, pois usamos o poder da palavra de modo deficiente. Voltar ao Camões tem quase o sentido de purificar a língua pública de toda linguagem de propaganda, seja ideológica, comercial ou pseudo-religiosa, com que somos bombardeados todos os dias, o que acaba por destruir nossa capacidade de falar a verdade e de denunciar a mentira.

O educador Mortimer Adler afirma que os épicos fazem sempre grandes exigências de atenção, envolvimento e imaginação. Quais são as dificuldades de compreender esta grande obra de Camões?

Além das dificuldades óbvias de contexto cultural e da distância entre as nossas épocas que, com um pouco de empenho, são superadas pelas notas que costumeiramente acompanham até mesmo as edições mais populares do épico, há um esforço de imaginação que deve ser dispensado na leitura. Lendo tanto Os Lusíadas, O Paraíso Perdido, de Milton, ou O Fausto, de Goethe, o nosso repertório cultural aumenta. O conhecimento de três ou quatro épicos da cultura ocidental enriquece a compreensão de tudo o mais que se lê, se assiste ou se ouve. Além do mais, falou-se muito durante anos do impacto da TV sobre o hábito da leitura. Hoje, o problema é bem pior, graças aos efeitos negativos que redes sociais e smartphones provocam na capacidade de atenção e compreensão das pessoas. Boa poesia, dizia o poeta anglo-americano Ezra Pound, é linguagem carregada de máximo sentido. Uma estrofe de Os Lusíadas pode falar às vezes de três coisas ao mesmo tempo. Por isso, não se pode ler boa poesia como se ouve música, com o ouvido focado apenas pela metade, dividindo atenção com outras tarefas. A poesia exige uma entrega amorosa. A leitura de um épico ajuda a reeducar sua atenção, sua capacidade de fazer conexões entre realidades diferentes, a organizar o pensamento, sendo, no fim das contas, um jeito formidável de treinar a inteligência ao mesmo tempo em que se deleita. E assim acaba por se combater os efeitos dispersivos das novas tecnologias de comunicação.

Os Lusíadas é uma obra cheia de simbolismos. Qual o papel da mitologia na obra-prima de Camões?

A mitologia, ou os usos que Camões faz de mitos greco-romanos para contar uma história real (a jornada inédita dos navegadores portugueses para dar a volta na África e chegar à Índia) é um dos tópicos mais discutidos em mais de quatro séculos de estudos críticos sobre o livro. Sem negar que a fantasia tinha, para os renascentistas, a função de convenção literária, isto é, era valorizada como recurso à imitação de modelos clássicos, creio em outros sentidos possíveis. A escolha do conflito entre a deusa do amor Vênus e Baco, esse a recordar muito a figura medieval do Diabo, para representar no plano divino o que ocorria no plano da História, isto é, a demanda dos cristãos portugueses para converter muçulmanos e hindus. Essa escolha fala sobre dramas ainda persistentes. Dramas não apenas políticos, mas espirituais, emotivos, culturais. Os simbolismos são como luzes, ou melhor, como chaves para ajudar a compreender esses dramas. Eles não encerram o sentido final de nada, mas são ferramentas fundamentais para um pensamento dialético que queira desvendar a realidade humana.

Quanto à nossa história como nação e povo em formação. Quais lições podemos tirar do épico de Camões?

Não digo lições, pois embora o poeta busque instruir algo a todo momento, seja sobre o labor poético, ou sobre a natureza humana, ou utilizando uma voz dramática, como a do Velho do Restelo, para vaticinar sobre as ações humanas, o aprendizado que se pode ter é em outro nível. O maior historiador das religiões no século passado, o romeno Mircea Eliade, chegou a dizer que Camões foi o primeiro ser humano a transformar a experiência do homem com o Oceano profundo (não com o mar próximo, perceba) em realidade espiritual. Aqui, espiritualidade significa criar, ou recriar, via rito ou mito, uma ligação transcendente entre o ser do homem e o ser das coisas. O que Os Lusíadas pode nos ensinar, enquanto nação, é a restaurar o sentido espiritual, hoje perdido por muitos motivos, entre o ser do indivíduo e o sentido da própria vida e da própria morte, entre o homem e a comunidade, entre a cultura, a história e a eternidade. Sem essas ligações, somos indivíduos soltos no nada, sem algo que nos ligue ao próximo ou à própria vida. Somos alienados de tudo o que nos fundamenta o existir. Por isso, vemos por aí tanto ódio, egoísmo e depressão. Porque nos foi roubado o sentido transcendente do que nos orienta a viver, seja como pessoas, seja como povo.

O curso que você ministrará será um momento pedagógico raro em São Luís. Há outros cursos que você planeja desenvolver?

Pelo Instituto Valor e Verdade, pretendemos seguir pelas obras de nomes basilares do pensamento luso-brasileiro, sempre nesse objetivo de unir cultura e formação humana. Penso em algo sobre Ariano Suassuna, por seu empreendimento por tentar erguer, no solo da cultura regional, uma obra que dialogue com valores universais. Ou continuar um trabalho já iniciado no ano anterior, no Encontro Conservador da UFMA, de divulgar a crítica civilizacional feita pelo filósofo Mario Ferreira dos Santos, tão urgente por ser posta em discussão. Além do mais, volto logo com a série escrita, que tenho postado em meu blog e no site do Instituto Valor e Verdade, sobre os grandes livros. Como dizia o Didi Mocó, aguarde e confie.

MAIS

O curso, promovido pelo Instituto Valor e Verdade (IVV), ocorrerá na sede do Instituto de Estudos Superiores do Maranhão (IESMA), que fica na Rua do Rancho, Centro, das 8h às 12h. As inscrições estão abertas e podem ser feitas pela internet. Mais informações podem ser encontradas no site http://institutovaloreverdade.org ou para (98) 98138-0717.

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A batalha do Deus-menino contra o espírito do tempo.

O combate conjunto dos protestantes e dos neo-ateístas ao Natal, utilizando argumentos idênticos sobre os resquícios de elementos pagãos nas festas natalinas, só tem um efeito: a destronização de Jesus, o Deus menino, em favor do culto a Mamon, o deus-dinheiro.

Do que me faz lembrar aquela cena do especial natalino do Charles Brown. É tanto um episódio anti-materialista quanto uma singela e poderosa obra de apologética cristã, e sem deixar de divertir, sua principal função. Em 1965, às vésperas do lançamento do episódio, houve temor entre os produtores da emissora de que a referência ao nascimento de Jesus provocasse a ira dos profissionais do ressentimento.  Charles Schulz, o criador da tira e redator do especial, defendeu que o desenho não provocaria essa celeuma. E o episódio foi ao ar com a cena clássica: em resposta ao apelo angustiado de Charles Brown, Quem por aqui poderia me explicar o significado do Natal?, o amigo Linus van Pelt apenas recita a narrativa evangélica da aparição do anjo aos pastores e o anúncio do nascimento do Filho de Deus, presente no livro de São Lucas. Falar de Jesus em um especial de Natal: que ofensivo, que opressor, que desrespeito! Se alguém reclamou, os resmungos foram abafados pela comoção corrida de costa à costa, pelos prêmios – entre eles o Emmy – e pelas constantes reprises nas décadas seguintes.

O desenho ainda consegue comover um mundo descristianizado como o nosso, graças à crítica à falta de sentido que há em uma vida levada somente por valores materiais. A onipresença do Papai Noel, esse porco capitalista, incomoda a muitos, ateus e agnósticos inclusive, por roubar esse sentido. Tenta-se, inutilmente, revitalizar a festa com um chamado aos valores simbolizados pela Sagrada Família: fidelidade, união, esperança, mas com o pudor asséptico de não se referir ao casal e ao bebê, aqueles que justificam esses valores. Sem a referência fundamental à Maria e a José, aos pastores e aos santos reis magos, e ao menino Deus que escapou da morte pelas mãos do Estado, a dessacralização da data também tem o fim de retirar Jesus do centro da sociedade.

Deposto Deus, quem ocupa o lugar vago? Não o homem, como queriam os iluministas e os positivistas ao criarem o calendário civil como forma de eliminar a influência cristã: quem se entroniza é o deus capital, Mamon, vestido de roupas vermelhas, barba de algodão e um saco vermelho chacoalhante de logomarcas.

Junte-se à usurpação do Papai Noel os ataques dos neo-ateístas às raízes pagãs da festa, assimilados pelos evangélicos, e o trabalho está completo. Estes, coitados, não percebem que, rejeitando a data por motivo das fontes romanas, descristianizam a experiência comunal do tempo, tornando a mensagem do Evangelho mais difícil de ser compreendida. Rejeitam tudo o que pode ser considerado como “religião”, como se o culto, o rito e a doutrina fossem sempre manifestações de farisaísmo. Eles desnudam-se de qualquer carga simbólica que possa tornar mais sensível aos homens as realidades sobrenaturais como a Graça, a Justiça e a Misericórdia divinas, a ação dos anjos e dos demônios . Tal equívoco ocorre porque, desconhecendo o que significa o que é o paganismo e o que é idolatria, já não sabem mais o que é o cristianismo.

O Verbo divino dá sentido a todas as coisas naturais e a Encarnação restitui o que no homem foi perdido com o pecado original. Por isso, todos os elementos de uma sociedade pagã são necessariamente convertidos pelo fato capital da presença de Deus entre os homens, elevados a um sentido maior que os das contendas de deuses invejosos, lascivos e incontinentes das mitologias egípcia, babilônica e greco-romana. A cristianização libertou o homem das forças da natureza simbolizadas naqueles deuses. Como diz Chesterton em seu livrinho sobre o São Francisco, comentando esse processo de despaganização que a Igreja Católica empreendeu nos primeiros treze séculos:

A purificação do paganismo finalmente se completara. Porque a própria água havia sido lavada. O próprio fogo havia sido purificado pelo fogo. A água deixara de ser aquela em que se atiravam os escravos para alimentar os peixes. O fogo não era mais aquele que servia para sacrificar crianças ao deus fenício Moloc. As flores já não tinham o cheiro das guirlandas colhidas no jardim do deus erótico Príapo; as estrelas deixaram de ser sinais de frieza distante dos deus, frios como os fogos frios. Eram, todos eles, como coisas que acabaram de ser feitas e aguardavam novos nomes daquele que viria nomeá-las. Nem o universo nem a terra conservavam agora o antigo significado sinistro do mundo. Eles esperavam uma nova reconciliação com o homem, mas podiam ser reconciliados. O homem expulsara de si o último vestígio de culto à natureza, e podia assim voltar a ela.

O positivismo, que reabilitou a idéia iluminista do calendário civil para promover o culto do homem pelo homem, iniciou esse projeto consciente de dessacralização do tempo. O ano inchou-se de motivos para criar campanhas publicitárias e monetizar o máximo possível o amor materno e o filial, a paixão dos namorados, trocando a cruz por chocolate e a missa do Galo por crédito parcelado. A moda do positivismo passou, mas Papai Noel continua mais gordo que nunca.

À medida que se foi perdendo o senso sagrado dos domingos das missas, da quaresma e outras datas católicas, o mundo foi-se repaganizando, agora pelo culto do dinheiro, do mercado e do consumismo com suas modas que retiram do homem a sua auto-identificação pelos valores perenes, construindo em seu lugar identidade por modas ocas e superficiais que duram uma estação apenas.

quatro animais

Por revoltar-se contra os ritos, em outro equívoco de assimilação do discurso ateísta contra a religião, crêem ter o Cristo autêntico em uma presença apenas subjetiva, reforçando o coro anticristão de que o culto devido a Deus é assunto de foro íntimo, e não uma mensagem a ser vivida em comunidade. É a confusão entre fé, uma virtude sobrenatural, e crença, uma adesão subjetiva a um universo de idéias. Mas os poderes do mundo estão aí, e a função que a Igreja tem de combater os senhores do mundo, que é purificando de seus deuses e elevando a experiência sacralizada para um sentido maior que o das forças da natureza, libertando o homem de seu jugo, não é exercido. E, uma vez que se expulsa Cristo da vida, são os vendilhões que tomam seu lugar. Os esforços dos evangélicos concorrem, portanto, não só para uma descatolicização do mundo, mas para a completa capitalização dos sentimentos humanos. Expulsando-se o transcendente da cultura e da polícia, resta a pura vontade de poder, que em nosso tempo é o poder econômico.

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*E por falar em moda, lembro da moda do ateísmo, que já possui a sua indústria própria, como as séries de divulgação cientificista do History Channel. É estranho que hoje os jovens expliquem sua conversão ao ateísmo graças ao conhecimento das semelhanças entre as mitologias antigas e os Evangelhos, como se provassem que o catolicismo fosse uma empresa plagiária e tão falsa quanto a descida de Orfeu ao Hades, a busca de Gilgamesh pela imortalidade ou o resgate de Prometeu por Hércules. Em um movimento contrário, um C. S. Lewis pôde converter-se ao cristianismo depois de estudar mitologia e religião comparada e conhecer essas relações mais profundamente que os neo-ateístas que bradam escandalosamente as semelhanças como se fossem evidências da inexistência histórica de Jesus. Essas semelhanças já eram notadas nos primeiros séculos do cristianismo, e notadas principalmente pelos próprios padres e apologetas. Ao contrário destes, os ateístas de hoje não compreendem que toda a Criação e a cultura humana ansiavam pela Encarnação de Deus para restaurá-las, e esse anseio é onipresente nos mitos universais: a Mãe virgem, a árvore sagrada, a era de ouro antes da queda dos homens, o dilúvio. Seria estranho, isso sim, que essa espera não estivesse traduzida nos símbolos das diversas nações, aparecendo aqui e ali nos quatro cantos do mundo de forma incompleta, como sementes do Logos, para serem reveladas plenamente na Vida e Paixão de Cristo.

E o mais estranho ainda é que os evangélicos mais judaizantes não se incomodem com os elementos egípcios, babilônicos e persas no Antigo Testamento. Tenho um certo fascínio pelo simbolismo dos quatro animais da visão do primeiro capítulo do livro de Ezequiel: o boi, o homem, a águia e o leão, que reaparecem no Apocalipse como anjos do Senhor. Dante Alighieri, seguindo a Tradição, põe no Paradiso um ser com as quatro cabeças. A tradição católica irá interpretar os quatro animais como símbolos dos quatro evangelistas, tornando-os presença iconográfica até hoje em vários templos. Na visão de Ezequiel,  profeta que vivera no contexto do domínio da Babilônia sobre Israel, acima dos quatro animais apareceu um homem sentado em um trono – o Messias judaico que agora era anunciado para todas as nações, e não apenas para os judeus. Acontece que, no século XIX, foi encontrada nas ruínas da Babilônia uma estela¹ em que se figuravam quatro deuses assírios: Marduc, Nabu, Nergal e Ninurta. Os quatro tinham, respectivamente, as formas de um touro, um ser humano, um leão, e uma águia, os três primeiros igualmente alados como a ave, e cada um dirigia-se para um ponto cardeal diferente – um símbolo de imanência, de domínio da presença divina sobre todas as direções espaciais. Assim, a visão de Ezequiel, em que o verdadeiro Deus estava por sobre as quatro divindades, assinalando a submissão dos poderes imperiais e naturais pagãos sob o Messias, reaparece no Apocalipse, purificados, é também um símbolo de transcendência: o verdadeiro Deus existia para além das manifestações espaço-temporais das divindades das nações – e esse conhecimento de que Deus está para além de todo ser foi uma das grandes conquistas metafísicas da humanidade.  O significado pagão dos animais ficou oculto durante estes séculos todos, mas um judeu contemporâneo de Ezequiel, vivendo sob o jugo babilônico, poderia compreender perfeitamente o alcance do simbolismo, rodeado que estava por imagens destes deuses.

¹CERAM, C. W. Deuses, túmulos e sábios, o romance da arqueologia. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1955, p. 222.

Invenção romanesca do mar

INVENÇÃO ROMANESCA DO MAR

O mar não era mais que uma idéia triste
enquanto não se permitia tormenta,
quando era só um mole sono de nereidas,
baloiço de barco à vela à deriva
do lento coagular-se do luar.

No fazer-se tormenta, no entanto,
o mar não se fez boa idéia, e nem
má. No furor da eclâmpsia, pariu-se,
além de todo valor que seja do bem ou do mal,
purificado que foi pelo sal
e pelas gotas sanguinosas do luar.

Domínio sublunar (como diziam os antigos
cujos cadáveres babujam nos ritos
que repetimos sonolentos, sem nos darmos
conta dO que impede a lua de cair,
dO que mantém firme o pulso do mar).

Somente quando, pelo sal, sentimos seu gosto,
quando, pelo azul, despimos seu manto,
e quando, na espuma, rompemos seu hímen
e fecundamos, com náufragos, seus campos
foi só então que enfim deixou de ser idéia

e, à nossa imagem e semelhança, fez-se mar.

Mini-curso sobre Mitologia e História em Os Lusíadas

21762390_145622856042648_2335569989953656435_oPor muitas coisas é que Os Lusíadas é o ponto central da cultura lusófona. Por ser a liga entre o imaginário greco-romano humanista e a herança medieval católica que nos moldou a sensibilidade e a inteligência. Porque Camões deu-nos a linguagem para falar sobre o amor, a fé e a coragem, e denunciar a malícia, a inveja e o medo. Porque, segundo o teórico das religiões comparadas Mircea Eliade, Camões transformou o oceano, pela primeira vez na história, em patrimônio espiritual da humanidade.

No mini-curso Mitologia e História em Os Lusíadas, falaremos sobre o modo genial com que o poeta expressou a tensão entre o eixo horizontal da existência humana (através das crônicas sobre a história de Portugal, desde a Batalha de Ouriques até as Grandes Navegações) e o eixo vertical (o anseio de vencer a morte através da fama, simbolizado pela disputa entre Vênus, deusa do Amor em seu sentido mais alto, o Amor que dá unidade e harmonia ao universo, e Baco, deus dos instintos da luxúria e da gula, vícios que provocam a dispersão e a fragmentação da psiquê humana).

É, assim, um curso sobre origens e fins de nossa cultura. É sobre como a alta cultura pode nos ajudar a nos reconhecermos como humanos dignos de nosso lugar na estrutura da realidade.

(Ilustração de Lima de Freitas)

A Escola de Filosofia, do Instituto Valor e Verdade, realizará, em outubro, o minicurso Mitologia e História em Os Lusíadas. Com 4 horas de duração, o curso está com inscrições abertas pelo valor R$ 30,00. As aulas serão conduzidas pelo professor e pesquisador Ricardo de Carvalho, colaborador do Instituto Valor e Verdade. Para se inscrever, envie uma mensagem por Whatsapp para: (98) 98138 0717. A data e o local do curso serão definidos após a formação da turma.

Estréia no Instituto Valor e Verdade

IMG-20170912-WA0041.jpgGraças a um gentil convite do grande André Lisboa, juntei-me a ele e ao Michael Lima como professor membro do Instituto Valor e Verdade, uma iniciativa que tem procurado trazer discussões filosóficas de alto nível em eventos aqui em São Luis. No site do instituto publicamos séries semanais sobre alguns dos grandes temas do pensamento humano. Eu cá, desde a última sexta, comecei a Reconquista do Imaginário, realizando um desejo antigo de manter uma coluna sobre as principais obras artísticas, religiosas, filosóficas e afins, dentro do espírito da Grande Conversação (sobre a qual ainda falarei na série).

 

Entrevista no podcast Carcarás

13718680_1127040257366652_6521980694768393274_nNa última quinta, dia 03, tive a honra de participar do podcast dos Carcarás – Juventude Conservadora da UFMA, para, a partir do documentário O Jardim das Aflições, do Josias Teófilo, conversar um pouco com Michael Max Amorim sobre a filosofia de Olavo de Carvalho, principalmente sobre os elementos que julgo mais essenciais em sua obra — pelo menos, aqueles que mais ressoaram aqui dentro. Abaixo, links das duas partes:

Listen to “O Jardim das Aflições e a Reconquista da Realidade – Ricardo de Carvalho.” on Spreaker.

Listen to “O Jardim das Aflições e a Reconquista da Realidade – Parte 2” on Spreaker.https://widget.spreaker.com/widgets.js

O Jardim das Aflições e a realidade reconquistada

Saudações, amigos. Retomo este blog como parte de um projeto que será revelado nos próximos meses. Mantenho os pequenos ensaios publicados anteriormente, mas digo desde já que o que vem, embora permaneça no mesmo universo cultural, terá outro direcionamento.

Como marco desta nova fase, inicio uma coluna semanal, um híbrido de crônica, ensaio e comentário. Espero que apreciem.

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É difícil falar de forma impessoal sobre o belo documentário O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, apenas pontuando observações estéticas. O filme exerceu uma função apaziguadora sobre mim, e é disso que desejo falar. Deixo aos críticos de cinema a opinião sobre as qualidades de O Jardim, embora eu aponte uma ou outra escolha feliz do diretor, o suficiente, creio, para fazer jus ao seu artesanato.

Por isso que devo dizer de alguns pequenos choques naquela noite de estréia no Cine Praia Grande, conhecido reduto da esquerda cultural maranhense. Só o fato de um filme sobre o filósofo Olavo de Carvalho conseguir lotar aquela sala já era digno de algum espanto. Os outros choques foram reverberações das cenas, impressões que deram forma a memórias e idéias meio esquecidas por aqui dentro. E, do lado de fora, os choques se deram pelo contraste da música de Sibelius, que Teófilo pôs em uma das cenas e que continuou pairando na imaginação, o contraste de sua música com aquele bar pelo qual passamos, em que universitários ouviam pseudo-funk paulista.

(Um contraste tanto mais vivo desde que há pouco mais de um ano ocorrera uma festa bizonha, o I Encontro da Juventude Porra-Loka, criado para afrontar o I Encontro da Juventude Conservadora da UFMA, aquela acontecendo paralela a esta. Disse Olavo à época: “Enquanto os Carcarás discutiam a alta cultura brasileira, a esquerda da UFMA fazia uma festinha bárbara regada a álcool e drogas, que terminou em assassinato de um jovem estudante — um símbolo perfeito do conflito cultural brasileiro de hoje”.)

Não só o Sibelius, como também os recortes do filme de Eisenstein, o trecho de Ortega y Gasset recitado por Roberto Mallet, ou os takes da natureza em Virgínia, EUA, morada atual de Olavo de Carvalho. Tudo me remetia a um dos textos de Olavo que mais me impactaram: aquele sobre a apeirokalia. No artigo, Olavo denunciava o mal que a falta de uma educação do belo causa na alma de qualquer indivíduo. Porque o belo, quando é expressão do verdadeiro e forma sensível da bondade, tem o poder de nos ressituar na própria estrutura do real. A alma a que falta essa formação pode ser presa de inúmeros males, como a escravidão da consciência pelas ideologias que imperam no dia.

Os efeitos dessa escravidão nos eram mostrados depois do filme, andando pelas ruas sujas do Reviver.

E mostrados no filme também: a minha seqüência predileta é aquela em que, soando sobre uma tomada aérea acima da catedral de Brasília, a voz em off do filósofo discorre sobre o processo da modernidade em que a política vai crescendo e engolfando os outros campos de ação humana, de tal modo que esferas, como a do religioso ou do artístico, não conseguem ser concebidas pelo homem a não ser pela linguagem da política, perdendo, portanto, suas essências. Daí a sacada de mostrar o templo desenhado pelo ateu comunista Oscar Niemeyer, um prédio erguido para impedir qualquer ajuda sensível ao cristão na comunhão com o transcendente.

Pois cada elemento do projeto de Niemeyer foi pensado para esse objetivo: desde a arte profana de Di Cavalcanti nas paredes internas até as linhas externas, que iniciam um movimento ascendente para, no meio do caminho, desviar-se do ponto em que deveriam se unir, como se fossem almas desistindo de se encontrar no Céu em Deus. Uma anti-igreja, cuja arquitetura corta o elo entre o homem e os fundamentos de sua existência.

Vendo essa cena eu não pude deixar de lembrar daquele ensaio de Ortega y Gasset sobre arte, quando descreve o poder que uma obra, quando procura expressar a verdade da existência, tem sobre o indivíduo. Chega a ser engraçado o incômodo que o filósofo espanhol, ele mesmo agnóstico, teve ao entrar numa catedral gótica. Ele sentiu-se como que puxado violentamente contra a vontade para o alto, devido ao modo como as colunas foram dispostas por aqueles anônimos pedreiros de mais de mil anos atrás.

Pois a escolha da casa de Olavo nos EUA, no meio da natureza, busca fim análogo, como nos revela o filme: a necessária e constante posse da realidade, que a vida na cidade impede, ou no mínimo prejudica. A sua filosofia questiona a culpa que as idéias têm sobre essa perda de senso do real, por um lado, enquanto que por outro se aprofunda nos mistérios que, quando meditados, nos põem novamente em posse de nossa consciência.

E a conversa de Josias com Olavo dá conta destas veredas fulgurantes de sua filosofia: a morte como ponto de partida da especulação metafísica, a superioridade quantitativa e qualitativa da vida da alma sobre o conjunto da história humana, o porquê do sofrimento. O Pai-Nosso, captado pelo cineasta antes de um momento banal e cotidiano como é o almoço em família, guarda em si um sentido superior, ao ilustrar que as inquirições de Olavo nesses campos não são apartadas da vida, como ocorre entre o cultivadores das correntes filosóficas em voga na academia. Os versos do Pai-Nosso resumem num símbolo todos esses mistérios que fundam seu filosofar, ao mesmo tempo em que abrem uma conexão direta com a fonte deles. O ato de oração transfigura uma necessidade fisiológica, comum a animais, elevando-a num gesto de comunhão que é também abertura metafísica, tornando-a propriamente humana.

Por isso o apaziguamento que senti. Fui aluno do seu Curso Online de Filosofia, mas passei por um tempo de briga interna com ele, por desacordo com algumas de suas posturas. O doc pôs diante de mim tudo aquilo que ganhei por ter lhe ouvido durante tanto tempo, e vi que foi muito. E posso enfim dizer novamente, com gratidão renovada: Olavo tem razão.