A batalha do Deus-menino contra o espírito do tempo.

O combate conjunto dos protestantes e dos neo-ateístas ao Natal, utilizando argumentos idênticos sobre os resquícios de elementos pagãos nas festas natalinas, só tem um efeito: a destronização de Jesus, o Deus menino, em favor do culto a Mamon, o deus-dinheiro.

Do que me faz lembrar aquela cena do especial natalino do Charles Brown. É tanto um episódio anti-materialista quanto uma singela e poderosa obra de apologética cristã, e sem deixar de divertir, sua principal função. Em 1965, às vésperas do lançamento do episódio, houve temor entre os produtores da emissora de que a referência ao nascimento de Jesus provocasse a ira dos profissionais do ressentimento.  Charles Schulz, o criador da tira e redator do especial, defendeu que o desenho não provocaria essa celeuma. E o episódio foi ao ar com a cena clássica: em resposta ao apelo angustiado de Charles Brown, Quem por aqui poderia me explicar o significado do Natal?, o amigo Linus van Pelt apenas recita a narrativa evangélica da aparição do anjo aos pastores e o anúncio do nascimento do Filho de Deus, presente no livro de São Lucas. Falar de Jesus em um especial de Natal: que ofensivo, que opressor, que desrespeito! Se alguém reclamou, os resmungos foram abafados pela comoção corrida de costa à costa, pelos prêmios – entre eles o Emmy – e pelas constantes reprises nas décadas seguintes.

O desenho ainda consegue comover um mundo descristianizado como o nosso, graças à crítica à falta de sentido que há em uma vida levada somente por valores materiais. A onipresença do Papai Noel, esse porco capitalista, incomoda a muitos, ateus e agnósticos inclusive, por roubar esse sentido. Tenta-se, inutilmente, revitalizar a festa com um chamado aos valores simbolizados pela Sagrada Família: fidelidade, união, esperança, mas com o pudor asséptico de não se referir ao casal e ao bebê, aqueles que justificam esses valores. Sem a referência fundamental à Maria e a José, aos pastores e aos santos reis magos, e ao menino Deus que escapou da morte pelas mãos do Estado, a dessacralização da data também tem o fim de retirar Jesus do centro da sociedade.

Deposto Deus, quem ocupa o lugar vago? Não o homem, como queriam os iluministas e os positivistas ao criarem o calendário civil como forma de eliminar a influência cristã: quem se entroniza é o deus capital, Mamon, vestido de roupas vermelhas, barba de algodão e um saco vermelho chacoalhante de logomarcas.

Junte-se à usurpação do Papai Noel os ataques dos neo-ateístas às raízes pagãs da festa, assimilados pelos evangélicos, e o trabalho está completo. Estes, coitados, não percebem que, rejeitando a data por motivo das fontes romanas, descristianizam a experiência comunal do tempo, tornando a mensagem do Evangelho mais difícil de ser compreendida. Rejeitam tudo o que pode ser considerado como “religião”, como se o culto, o rito e a doutrina fossem sempre manifestações de farisaísmo. Eles desnudam-se de qualquer carga simbólica que possa tornar mais sensível aos homens as realidades sobrenaturais como a Graça, a Justiça e a Misericórdia divinas, a ação dos anjos e dos demônios . Tal equívoco ocorre porque, desconhecendo o que significa o que é o paganismo e o que é idolatria, já não sabem mais o que é o cristianismo.

O Verbo divino dá sentido a todas as coisas naturais e a Encarnação restitui o que no homem foi perdido com o pecado original. Por isso, todos os elementos de uma sociedade pagã são necessariamente convertidos pelo fato capital da presença de Deus entre os homens, elevados a um sentido maior que os das contendas de deuses invejosos, lascivos e incontinentes das mitologias egípcia, babilônica e greco-romana. A cristianização libertou o homem das forças da natureza simbolizadas naqueles deuses. Como diz Chesterton em seu livrinho sobre o São Francisco, comentando esse processo de despaganização que a Igreja Católica empreendeu nos primeiros treze séculos:

A purificação do paganismo finalmente se completara. Porque a própria água havia sido lavada. O próprio fogo havia sido purificado pelo fogo. A água deixara de ser aquela em que se atiravam os escravos para alimentar os peixes. O fogo não era mais aquele que servia para sacrificar crianças ao deus fenício Moloc. As flores já não tinham o cheiro das guirlandas colhidas no jardim do deus erótico Príapo; as estrelas deixaram de ser sinais de frieza distante dos deus, frios como os fogos frios. Eram, todos eles, como coisas que acabaram de ser feitas e aguardavam novos nomes daquele que viria nomeá-las. Nem o universo nem a terra conservavam agora o antigo significado sinistro do mundo. Eles esperavam uma nova reconciliação com o homem, mas podiam ser reconciliados. O homem expulsara de si o último vestígio de culto à natureza, e podia assim voltar a ela.

O positivismo, que reabilitou a idéia iluminista do calendário civil para promover o culto do homem pelo homem, iniciou esse projeto consciente de dessacralização do tempo. O ano inchou-se de motivos para criar campanhas publicitárias e monetizar o máximo possível o amor materno e o filial, a paixão dos namorados, trocando a cruz por chocolate e a missa do Galo por crédito parcelado. A moda do positivismo passou, mas Papai Noel continua mais gordo que nunca.

À medida que se foi perdendo o senso sagrado dos domingos das missas, da quaresma e outras datas católicas, o mundo foi-se repaganizando, agora pelo culto do dinheiro, do mercado e do consumismo com suas modas que retiram do homem a sua auto-identificação pelos valores perenes, construindo em seu lugar identidade por modas ocas e superficiais que duram uma estação apenas.

quatro animais

Por revoltar-se contra os ritos, em outro equívoco de assimilação do discurso ateísta contra a religião, crêem ter o Cristo autêntico em uma presença apenas subjetiva, reforçando o coro anticristão de que o culto devido a Deus é assunto de foro íntimo, e não uma mensagem a ser vivida em comunidade. É a confusão entre fé, uma virtude sobrenatural, e crença, uma adesão subjetiva a um universo de idéias. Mas os poderes do mundo estão aí, e a função que a Igreja tem de combater os senhores do mundo, que é purificando de seus deuses e elevando a experiência sacralizada para um sentido maior que o das forças da natureza, libertando o homem de seu jugo, não é exercido. E, uma vez que se expulsa Cristo da vida, são os vendilhões que tomam seu lugar. Os esforços dos evangélicos concorrem, portanto, não só para uma descatolicização do mundo, mas para a completa capitalização dos sentimentos humanos. Expulsando-se o transcendente da cultura e da polícia, resta a pura vontade de poder, que em nosso tempo é o poder econômico.

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*E por falar em moda, lembro da moda do ateísmo, que já possui a sua indústria própria, como as séries de divulgação cientificista do History Channel. É estranho que hoje os jovens expliquem sua conversão ao ateísmo graças ao conhecimento das semelhanças entre as mitologias antigas e os Evangelhos, como se provassem que o catolicismo fosse uma empresa plagiária e tão falsa quanto a descida de Orfeu ao Hades, a busca de Gilgamesh pela imortalidade ou o resgate de Prometeu por Hércules. Em um movimento contrário, um C. S. Lewis pôde converter-se ao cristianismo depois de estudar mitologia e religião comparada e conhecer essas relações mais profundamente que os neo-ateístas que bradam escandalosamente as semelhanças como se fossem evidências da inexistência histórica de Jesus. Essas semelhanças já eram notadas nos primeiros séculos do cristianismo, e notadas principalmente pelos próprios padres e apologetas. Ao contrário destes, os ateístas de hoje não compreendem que toda a Criação e a cultura humana ansiavam pela Encarnação de Deus para restaurá-las, e esse anseio é onipresente nos mitos universais: a Mãe virgem, a árvore sagrada, a era de ouro antes da queda dos homens, o dilúvio. Seria estranho, isso sim, que essa espera não estivesse traduzida nos símbolos das diversas nações, aparecendo aqui e ali nos quatro cantos do mundo de forma incompleta, como sementes do Logos, para serem reveladas plenamente na Vida e Paixão de Cristo.

E o mais estranho ainda é que os evangélicos mais judaizantes não se incomodem com os elementos egípcios, babilônicos e persas no Antigo Testamento. Tenho um certo fascínio pelo simbolismo dos quatro animais da visão do primeiro capítulo do livro de Ezequiel: o boi, o homem, a águia e o leão, que reaparecem no Apocalipse como anjos do Senhor. Dante Alighieri, seguindo a Tradição, põe no Paradiso um ser com as quatro cabeças. A tradição católica irá interpretar os quatro animais como símbolos dos quatro evangelistas, tornando-os presença iconográfica até hoje em vários templos. Na visão de Ezequiel,  profeta que vivera no contexto do domínio da Babilônia sobre Israel, acima dos quatro animais apareceu um homem sentado em um trono – o Messias judaico que agora era anunciado para todas as nações, e não apenas para os judeus. Acontece que, no século XIX, foi encontrada nas ruínas da Babilônia uma estela¹ em que se figuravam quatro deuses assírios: Marduc, Nabu, Nergal e Ninurta. Os quatro tinham, respectivamente, as formas de um touro, um ser humano, um leão, e uma águia, os três primeiros igualmente alados como a ave, e cada um dirigia-se para um ponto cardeal diferente – um símbolo de imanência, de domínio da presença divina sobre todas as direções espaciais. Assim, a visão de Ezequiel, em que o verdadeiro Deus estava por sobre as quatro divindades, assinalando a submissão dos poderes imperiais e naturais pagãos sob o Messias, reaparece no Apocalipse, purificados, é também um símbolo de transcendência: o verdadeiro Deus existia para além das manifestações espaço-temporais das divindades das nações – e esse conhecimento de que Deus está para além de todo ser foi uma das grandes conquistas metafísicas da humanidade.  O significado pagão dos animais ficou oculto durante estes séculos todos, mas um judeu contemporâneo de Ezequiel, vivendo sob o jugo babilônico, poderia compreender perfeitamente o alcance do simbolismo, rodeado que estava por imagens destes deuses.

¹CERAM, C. W. Deuses, túmulos e sábios, o romance da arqueologia. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1955, p. 222.

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Invenção romanesca do mar

INVENÇÃO ROMANESCA DO MAR

O mar não era mais que uma idéia triste
enquanto não se permitia tormenta,
quando era só um mole sono de nereidas,
baloiço de barco à vela à deriva
do lento coagular-se do luar.

No fazer-se tormenta, no entanto,
o mar não se fez boa idéia, e nem
má. No furor da eclâmpsia, pariu-se,
além de todo valor que seja do bem ou do mal,
purificado que foi pelo sal
e pelas gotas sanguinosas do luar.

Domínio sublunar (como diziam os antigos
cujos cadáveres babujam nos ritos
que repetimos sonolentos, sem nos darmos
conta dO que impede a lua de cair,
dO que mantém firme o pulso do mar).

Somente quando, pelo sal, sentimos seu gosto,
quando, pelo azul, despimos seu manto,
e quando, na espuma, rompemos seu hímen
e fecundamos, com náufragos, seus campos
foi só então que enfim deixou de ser idéia

e, à nossa imagem e semelhança, fez-se mar.

Mini-curso sobre Mitologia e História em Os Lusíadas

21762390_145622856042648_2335569989953656435_oPor muitas coisas é que Os Lusíadas é o ponto central da cultura lusófona. Por ser a liga entre o imaginário greco-romano humanista e a herança medieval católica que nos moldou a sensibilidade e a inteligência. Porque Camões deu-nos a linguagem para falar sobre o amor, a fé e a coragem, e denunciar a malícia, a inveja e o medo. Porque, segundo o teórico das religiões comparadas Mircea Eliade, Camões transformou o oceano, pela primeira vez na história, em patrimônio espiritual da humanidade.

No mini-curso Mitologia e História em Os Lusíadas, falaremos sobre o modo genial com que o poeta expressou a tensão entre o eixo horizontal da existência humana (através das crônicas sobre a história de Portugal, desde a Batalha de Ouriques até as Grandes Navegações) e o eixo vertical (o anseio de vencer a morte através da fama, simbolizado pela disputa entre Vênus, deusa do Amor em seu sentido mais alto, o Amor que dá unidade e harmonia ao universo, e Baco, deus dos instintos da luxúria e da gula, vícios que provocam a dispersão e a fragmentação da psiquê humana).

É, assim, um curso sobre origens e fins de nossa cultura. É sobre como a alta cultura pode nos ajudar a nos reconhecermos como humanos dignos de nosso lugar na estrutura da realidade.

(Ilustração de Lima de Freitas)

A Escola de Filosofia, do Instituto Valor e Verdade, realizará, em outubro, o minicurso Mitologia e História em Os Lusíadas. Com 4 horas de duração, o curso está com inscrições abertas pelo valor R$ 30,00. As aulas serão conduzidas pelo professor e pesquisador Ricardo de Carvalho, colaborador do Instituto Valor e Verdade. Para se inscrever, envie uma mensagem por Whatsapp para: (98) 98138 0717. A data e o local do curso serão definidos após a formação da turma.

Estréia no Instituto Valor e Verdade

IMG-20170912-WA0041.jpgGraças a um gentil convite do grande André Lisboa, juntei-me a ele e ao Michael Lima como professor membro do Instituto Valor e Verdade, uma iniciativa que tem procurado trazer discussões filosóficas de alto nível em eventos aqui em São Luis. No site do instituto publicamos séries semanais sobre alguns dos grandes temas do pensamento humano. Eu cá, desde a última sexta, comecei a Reconquista do Imaginário, realizando um desejo antigo de manter uma coluna sobre as principais obras artísticas, religiosas, filosóficas e afins, dentro do espírito da Grande Conversação (sobre a qual ainda falarei na série).

 

Entrevista no podcast Carcarás

13718680_1127040257366652_6521980694768393274_nNa última quinta, dia 03, tive a honra de participar do podcast dos Carcarás – Juventude Conservadora da UFMA, para, a partir do documentário O Jardim das Aflições, do Josias Teófilo, conversar um pouco com Michael Max Amorim sobre a filosofia de Olavo de Carvalho, principalmente sobre os elementos que julgo mais essenciais em sua obra — pelo menos, aqueles que mais ressoaram aqui dentro. Abaixo, links das duas partes:

Listen to “O Jardim das Aflições e a Reconquista da Realidade – Ricardo de Carvalho.” on Spreaker.

Listen to “O Jardim das Aflições e a Reconquista da Realidade – Parte 2” on Spreaker.https://widget.spreaker.com/widgets.js

O Jardim das Aflições e a realidade reconquistada

Saudações, amigos. Retomo este blog como parte de um projeto que será revelado nos próximos meses. Mantenho os pequenos ensaios publicados anteriormente, mas digo desde já que o que vem, embora permaneça no mesmo universo cultural, terá outro direcionamento.

Como marco desta nova fase, inicio uma coluna semanal, um híbrido de crônica, ensaio e comentário. Espero que apreciem.

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É difícil falar de forma impessoal sobre o belo documentário O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, apenas pontuando observações estéticas. O filme exerceu uma função apaziguadora sobre mim, e é disso que desejo falar. Deixo aos críticos de cinema a opinião sobre as qualidades de O Jardim, embora eu aponte uma ou outra escolha feliz do diretor, o suficiente, creio, para fazer jus ao seu artesanato.

Por isso que devo dizer de alguns pequenos choques naquela noite de estréia no Cine Praia Grande, conhecido reduto da esquerda cultural maranhense. Só o fato de um filme sobre o filósofo Olavo de Carvalho conseguir lotar aquela sala já era digno de algum espanto. Os outros choques foram reverberações das cenas, impressões que deram forma a memórias e idéias meio esquecidas por aqui dentro. E, do lado de fora, os choques se deram pelo contraste da música de Sibelius, que Teófilo pôs em uma das cenas e que continuou pairando na imaginação, o contraste de sua música com aquele bar pelo qual passamos, em que universitários ouviam pseudo-funk paulista.

(Um contraste tanto mais vivo desde que há pouco mais de um ano ocorrera uma festa bizonha, o I Encontro da Juventude Porra-Loka, criado para afrontar o I Encontro da Juventude Conservadora da UFMA, aquela acontecendo paralela a esta. Disse Olavo à época: “Enquanto os Carcarás discutiam a alta cultura brasileira, a esquerda da UFMA fazia uma festinha bárbara regada a álcool e drogas, que terminou em assassinato de um jovem estudante — um símbolo perfeito do conflito cultural brasileiro de hoje”.)

Não só o Sibelius, como também os recortes do filme de Eisenstein, o trecho de Ortega y Gasset recitado por Roberto Mallet, ou os takes da natureza em Virgínia, EUA, morada atual de Olavo de Carvalho. Tudo me remetia a um dos textos de Olavo que mais me impactaram: aquele sobre a apeirokalia. No artigo, Olavo denunciava o mal que a falta de uma educação do belo causa na alma de qualquer indivíduo. Porque o belo, quando é expressão do verdadeiro e forma sensível da bondade, tem o poder de nos ressituar na própria estrutura do real. A alma a que falta essa formação pode ser presa de inúmeros males, como a escravidão da consciência pelas ideologias que imperam no dia.

Os efeitos dessa escravidão nos eram mostrados depois do filme, andando pelas ruas sujas do Reviver.

E mostrados no filme também: a minha seqüência predileta é aquela em que, soando sobre uma tomada aérea acima da catedral de Brasília, a voz em off do filósofo discorre sobre o processo da modernidade em que a política vai crescendo e engolfando os outros campos de ação humana, de tal modo que esferas, como a do religioso ou do artístico, não conseguem ser concebidas pelo homem a não ser pela linguagem da política, perdendo, portanto, suas essências. Daí a sacada de mostrar o templo desenhado pelo ateu comunista Oscar Niemeyer, um prédio erguido para impedir qualquer ajuda sensível ao cristão na comunhão com o transcendente.

Pois cada elemento do projeto de Niemeyer foi pensado para esse objetivo: desde a arte profana de Di Cavalcanti nas paredes internas até as linhas externas, que iniciam um movimento ascendente para, no meio do caminho, desviar-se do ponto em que deveriam se unir, como se fossem almas desistindo de se encontrar no Céu em Deus. Uma anti-igreja, cuja arquitetura corta o elo entre o homem e os fundamentos de sua existência.

Vendo essa cena eu não pude deixar de lembrar daquele ensaio de Ortega y Gasset sobre arte, quando descreve o poder que uma obra, quando procura expressar a verdade da existência, tem sobre o indivíduo. Chega a ser engraçado o incômodo que o filósofo espanhol, ele mesmo agnóstico, teve ao entrar numa catedral gótica. Ele sentiu-se como que puxado violentamente contra a vontade para o alto, devido ao modo como as colunas foram dispostas por aqueles anônimos pedreiros de mais de mil anos atrás.

Pois a escolha da casa de Olavo nos EUA, no meio da natureza, busca fim análogo, como nos revela o filme: a necessária e constante posse da realidade, que a vida na cidade impede, ou no mínimo prejudica. A sua filosofia questiona a culpa que as idéias têm sobre essa perda de senso do real, por um lado, enquanto que por outro se aprofunda nos mistérios que, quando meditados, nos põem novamente em posse de nossa consciência.

E a conversa de Josias com Olavo dá conta destas veredas fulgurantes de sua filosofia: a morte como ponto de partida da especulação metafísica, a superioridade quantitativa e qualitativa da vida da alma sobre o conjunto da história humana, o porquê do sofrimento. O Pai-Nosso, captado pelo cineasta antes de um momento banal e cotidiano como é o almoço em família, guarda em si um sentido superior, ao ilustrar que as inquirições de Olavo nesses campos não são apartadas da vida, como ocorre entre o cultivadores das correntes filosóficas em voga na academia. Os versos do Pai-Nosso resumem num símbolo todos esses mistérios que fundam seu filosofar, ao mesmo tempo em que abrem uma conexão direta com a fonte deles. O ato de oração transfigura uma necessidade fisiológica, comum a animais, elevando-a num gesto de comunhão que é também abertura metafísica, tornando-a propriamente humana.

Por isso o apaziguamento que senti. Fui aluno do seu Curso Online de Filosofia, mas passei por um tempo de briga interna com ele, por desacordo com algumas de suas posturas. O doc pôs diante de mim tudo aquilo que ganhei por ter lhe ouvido durante tanto tempo, e vi que foi muito. E posso enfim dizer novamente, com gratidão renovada: Olavo tem razão.

Bem são rios estas águas

Fechando aqui um ciclo que se iniciou com O Degredado, continuou com o Alefbetário e veio dar cá neste Da Reconquista. Ao contrário dos outros blogs, deixarei este no ar; se me incomoda uma coisa aqui e outra ali, há algo que valha. No mais, vou perdendo a vergonha do que ficou no tempo, e gostando da idéia do registro na rede.

Logo volto, porém, e linkarei aqui o novo sítio, de um possível projeto sobre Artes Liberais. Aguarde e confie.

 

 

 

Quando não há política

E só cresce a desconfiança de que o antagonismo político do país, polarizado na disputa PT x PSDB, é em verdade a exteriorização de um embate paulista em sua origem e essência: é o filho de mentalidade pequeno-burguesa brigando com o irmão, cuja revolta adolescente toma as características do modismo do dia: eco-ambientalismo, teoria do gênero, cicloativismo, meu-corpo-minhas-regras, etc.

É uma briga de família. A princípio, não pertence a quem é de fora. Por alguma razão, é mimetizada pelos jovens de outros Estados.

Quando reparei nesse nó, passei a manter aquela postura expressa por um dito daqui do Maranhão: “Eles, que são brancos, que se entendam”. Não são os esquemas paulistanos que refletem as aspirações máximas do brasileiro, o que muitos de nós desejamos é algo maior e menos ridículo.

Há uma carta de Vilém Flusser, escrita em 1990, que descreve o quase nada de político que há neste ambiente de hoje, por paradoxal que seja:

O que acabo de oferecer como explicação da falência cultural paulistana (e brasileira) parece negado pela abundância de discussão ‘política’ nos media e na conversa quotidiana (‘eleições’, partidos, etc). A quantidade indigestível de comentários ‘políticos’ nos jornais, por exemplo, parece indicar consciência política da sociedade. Creio que, pelo contrário, o fenômeno confirma minha tese. Nas discussões e nos comentários não se articula consciência política, isto é: senso de responsabilidade intersubjetiva, mas curiosa mistura entre sensacionalismo lúdico (como nas contendas de football), revolta econômica privada e tentativa de racionalizar a própria impotência face a decisões dificilmente localizáveis e analisáveis. A  discussão política paulistana revela, a meu ver, precisamente a falta de politização da qual falei acima. O remédio não é a ‘politização das massas'(…). (carta citada em capítulo da dissertação Flusser: uma história dos diabos, de Ricardo Mendes)

Não é o Brasil de hoje? Não define as duas correntes que disputam o poder? Não há política!

E por isso tenho pensado muito em dois grandes romenos do século passado, o filósofo Constantin Noica e o crítico literário e monge ortodoxo Nicolae Steinhardt, mestre e discípulo, ambos publicados pela É Realizações. Os dois entregaram-se ao estudo das culturas romena e ocidental para sobreviverem a um regime cuja possibilidade de política era inexistente: o totalitarismo comunista.

Não era só no cárcere, experiência vivida pelos dois, que os seus corações e mentes sofreram esse estrangulamento: na Universidade não se podia estudar muito além de Marx e os apóstolos da causa. Para que os dois não enlouquecessem, estratégias foram postas em práticas.

Constantin Noica
Constantin Noica

Noica, clandestinamente, organizou uma “escola” e, entre outras atividades civilizatórias

, fez, durante um ano, uma leitura lenta e concentrada da Fenomenologia do Espírito de Hegel. O objetivo não era gerar eruditos especialistas na filosofia do alemão, algo que os centros europeus geraram com abundância e sucesso. O que se queria era perscrutar, nos movimentos internos da história, a natureza espiritual específica de sua Romênia, o que somente lhe foi dado ser e a nenhuma outra nação mais. Muitos frutos nasceram dessa e outras práticas de Noica, como a vida intelectual de Nicolae Steinhardt, esta nascida na precariedade e na entrega ao Espírito.

Steinhardt foi lançado na prisão, e lá viveu sua grande aventura de conhecimento. Montou na surdina um grupo de estudos em que ele e seus companheiros escolhiam uma matéria, palestrando uns para os outros: os romances Doutor Fausto e A montanha mágica de Thomas Mann, A revolução das massas de Ortega y Gasset, lições de sânscrito e espanhol, biologia geral e história da cultura, entre outros. Homens reunidos em privação à força que, contra tudo e contra todos, não se deixaram levar pela degradação, dominando as circunstâncias. Um ambiente tal que Steinhardt descreve de um jeito que quase nos faz desejar ter estado com ele:

De todas as partes — como as nuvens de montanha — nasce e se condensa na cela 34 aquela atmosfera inefável e sem igual que somente a prisão pode criar: algo muito próximo ao que deve ter sido a corte dos duques de Burgúndia ou do rei Renè de Arles ou de uma court d’amour provençal, algo muito semelhante ao paraíso, algo muito japonês, cavalheiresco, algo que enlouqueceria Henry de Montherlant, Ernst Jünger, Stefan George, Marlaux, Chesterton, Solzhenitsyn, algo constituído de coragem, amor do paradoxo, teimosia, loucura santa e vontade de transcender a qualquer preço a miserável condição humana (…). (Diário da felicidade, trad. de Elpídio Mário Dantas Fonseca, Realizações).

Nicolae Steinhardt
Nicolae Steinhardt

O que mais me enche os olhos e aquece a alma na vida de Steinhardt é sua tentativa de articular crítica cultural e o seu processo de conversão à fé ortodoxa, tema principal de seu Diário da felicidade. As realizações dos ficcionistas e poetas de todas as épocas e nações falam do destino do homem concreto, da recordação das mais altas possibilidades humanas e da denúncia de quão baixo um homem pode chegar quando se afasta dos princípios fundamentais — ou é afastado, como no caso daquela Romênia. Steinhardt, que se batizou na cela, sempre procurou compreender os dramas temporais e as obras da imaginação à luz da Paixão de Cristo. Homero, Cervantes, Flaubert, Dostoievski, Bulgakov, T. S. Eliot e toda a literatura de seu país eram pensadas à luz da Paixão de Cristo, gerando o choque tensional entre história e eternidade que permitiu a ele conhecer aspectos novos sobre sua vida e o mundo em redor. Cultura não era um escapismo, um entorpecente, mas um aprofundamento naquela sua realidade. A criação no presente era uma atitude necessária para salvar suas circunstâncias ao mesmo tempo em que ele pensava os rumos de sua Romênia.

Minha esperança só vem de projetos afins. Não significa, é claro, que algumas reações e umas vitórias aqui e ali não possam ser festejadas, ou que se deva diminuir a força com que se hasteiam algumas bandeiras necessárias. O que há é o pé no chão, reconhecer que tudo está por fazer, exorcizar esse Dom Sebastião que, de tanto não renascer para nos salvar, gorou em nossas almas. E fico feliz ao ver que esse caminho já foi aberto em projetos semelhantes por uma nova geração, vários deles presentes aí na lista de links ao lado.

Penitentes e contritos na sagrada procissão

Ladainha de Canudos (Gereba/João Bá)

Usaram as águas do rio
quem nem arma do medonho
Pra destruir a morada, Terra Santa
do Beato Santo Antônio
Penitentes e contritos
Na sagrada procissão
Pra bandeira de canudos
Nunciar Ressurreição

Mais um pouco e a litania “mais Estado/menos Estado” dos liberais empurra-me para o monarquismo de esquerda do Suassuna. Ou não; a sedução da gnose já passou. Por enquanto, viva o Quinto Império, e que a República seja amaldiçoada!

 

Algumas notas sobre Submissão, de Michel Houellebecq

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(Texto publicado anteriormente em maio de 2015. A eleição do primeiro prefeito muçulmano de Londres só acentua a importância deste romance.)

1.

Devido à tragédia coincidente à apresentação do romance ao mundo — capa do Charlie Hebdo no dia em que o pasquim foi atacado por terroristas islâmicos — e a opiniões anteriores de seu autor ao mundo, como as de que “o Islã é uma religião estúpida”, Submissão (ed. Alfaguara, 2015) de Michel Houellebecq foi esperado como uma provocação aos muçulmanos, combustível para a islamofobia. Mas que nada. O romance é uma peça de acusação ao francês comum, ao europeu médio, à sua falta de vitalidade, ao seu hedonismo e o esgotamento de sua espiritualidade. Houellebecq  só aponta para essas características, sem lamentar ou rir delas, e, se o faz, é bem por dentro, lá por trás da forma de sua conhecida apatia, tão irritante para muitos, principalmente para a inteligentsia compatriota, tão cultuada nas universidades brasileiras:

No plano material, no entanto, não havia do que me queixar: tinha a garantia, até minha morte, de me beneficiar de uma renda elevada, duas vezes maior que a média nacional, sem precisar realizar em troca o menor trabalho. No entanto, sentia muito bem que me aproximava do suicídio, sem sentir nenhum desespero nem tristeza especial, simplesmente pela lenta degradação da “soma total das funções que resistem à morte”, conforme fala Bichat. Estava claro que a simples vontade de viver já não bastava para que eu resistisse ao conjunto de dores e aborrecimentos que balizam a vida de um ocidental médio. Eu era incapaz de viver para mim mesmo, e para quem mais iria viver? A humanidade não me interessava, até que me repugnava, eu não considerava de jeito nenhum os humanos como meus irmãos, e menos ainda se considerasse uma fração mais restrita da humanidade, formada por exemplo pelos meus compatriotas, ou por meus ex-colegas. Mas eu devia admitir, bastante a contragosto, que esses humanos eram meus semelhantes, mas era justamente essa semelhança que me levava a fugir deles; eu precisaria de uma mulher, essa era a solução clássica, já testada. Uma mulher é sem dúvida humana, mas representa um tipo ligeiramente diferente da humanidade, pois traz à vida certo perfume de exotismo. Huysmans poderia ter pensado nesse problema praticamente nos mesmos termos, a situação não tinha mudado desde então, a não se de maneira informal e negativa, por um lento desgaste, por um nivelamento das diferenças — mas até isso, talvez, tinha sido amplamente exagerado. Afinal, ele pegara outro caminho, optara pelo exotismo mais radical da divindade; mas esse caminho me deixava igualmente perplexo.

2.

(Do que me lembro que há pouco eu lia o Mário Vieira de Mello soando o alerta em Desenvolvimento e cultura – o problema do estetismo no Brasil (Companhia Editora Nacional, 1963), desde os anos 60, para a necessidade de compreender a Europa como um problema antes de pensar o nosso modelo próprio de cultura. Resolveríamos assim a aporia que há entre as duas perspectivas que, até então, eram as duas posturas mais comuns do pensamento tupiniquim: aceitar a Europa como realidade incontornável, e reproduzir automaticamente o que há de mais novo por lá, ou rechaçá-la, fingir que se pode evitar todo condicionante histórico, gritando com muita histeria: eurocentrismo! eurocentrismo! eurocentrismo!, igual uma garota de sovacos coloridos a dançar tambor de crioula com uma camisa da Amelie Poulain, vítima do seu tempo. Houellebecq demarca neste romance algumas notas que caracterizam o fundo existencial da crise da consciência européia: uma cultura que desistiu de si mesma e que, no entanto, é vista por muitos por cá como o modelo do que devemos ser.

3.

Submissão é narrado por um professor de literatura que não tem “a menor vocação para o ensino”. Ele é especialista em J. K. Huysmans (1848-1907), escritor francês cuja conversão do satanismo ao catolicismo é representada em seus romances. O satanismo de Huysmans foi pouco mais que uma modalidade do estetismo em moda, seu catolicismo era uma nostalgia pela Idade Média gótica – saía do estetismo e permanecia nele. O professor é um solteiro de meia-idade bem-sucedido em sua área, sem muitos amigos, cercado de intelectuais carreiristas cujas vidas não são influenciadas por seus objetos de estudo: uma vida social de universidade bem comezinha e pouco atraente. Cenas pornográficas são descritas prosaicamente, sem calor e com angústia, como fatos à toa; as relações amorosas do protagonista são trocadas a cada ano, sem grandes dores. Só alguns atentados e o medo pela nova situação mudam a rotina, para, depois, aconchegar-se em uma muito irônica adequação à nova realidade do país subitamente islamizado. A submissão não veio por um governo autoritário, veio pela promessa do saciamento dos instintos.

Talvez a dignidade estética do livro esteja na sutileza sem jogos de linguagem, na secura do estilo a denotar fadiga, com que vai construindo a passagem das percepções do ambiente. O professor vai cedendo, atraído por aquilo que diz algo à sua alma européia domesticada por décadas do modelo do Estado de bem-estar social: a satisfação garantida das necessidades animais de sexo, comida e segurança.

4.

Para o professor, uma única saída: toda possibilidade de transcendência se esgotava na literatura:

A especificidade da literatura, arte maior de um Ocidente que se conclui diante dos nossos olhos, não é, porém, muito difícil de definir. Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas idéias fixas, suas crenças, com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, de maneira mais direta, mais completa e até mais profunda que a conversa de um amigo — por mais profunda e douradora que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.

5.

Contudo, o livro não frustra aqueles movidos pelas paixões políticas, mormente a quem não dispensa um bom exercício de futurologia. Houellebecq põe-nos em um futuro próximo: pela primeira vez em décadas, os partidos de esquerda e de direita moderados estarão fora do segundo turno da disputa pela presidência. A direita da candidata Marine le Pen e o partido da Fraternidade Muçulmana concorrerão em uma França cada vez mais islamizada e anti-liberal. A esquerda decide apoiar o candidato do Islã, forte é o medo que a elite tem de uma volta à direita contra-revolucionária. Os judeus são os que mais temem, representados em uma namorada do professor.

As discussões políticas no livro são especialmente divertidas para quem, como eu, acompanha certo “debate” do underground brasileiro entre olavianos (ou olavettes, fica à sua escolha), adeptos da Quarta Teoria Política (uma tentativa de absorver e superar dialeticamente as três teorias do século XX, fascismo, liberalismo e comunismo, através de um reavivamento de tradições metafísicas) e um grupo inexpressivo de católicos tradicionais defensores da Doutrina Social da Igreja. Pois que um presidente muçulmano que decide implantar o distributismo, modelo econômico criado por Chesterton e pelo teólogo Hilaire Belloc a partir da encíclica Rerum Novarum, e escolhe como diretor da Universidade de Paris-Sourbonne (agora regida por preceitos islâmicos) um acadêmico cuja carreira deve-se a um estudo sobre René Guénon, metafísico e especialista em religiões comparadas, é algo que imaginaríamos vindo das cabeças paranóides de certas comunidades do Orkut. Daí que surgiu da cabeça de um dos mais polêmicos escritores franceses.