Bem são rios estas águas

Fechando aqui um ciclo que se iniciou com O Degredado, continuou com o Alefbetário e veio dar cá neste Da Reconquista. Ao contrário dos outros blogs, deixarei este no ar; se me incomoda uma coisa aqui e outra ali, há algo que valha. No mais, vou perdendo a vergonha do que ficou no tempo, e gostando da idéia do registro na rede.

Logo volto, porém, e linkarei aqui o novo sítio, de um possível projeto sobre Artes Liberais. Aguarde e confie.

 

 

 

Quando não há política

E só cresce a desconfiança de que o antagonismo político do país, polarizado na disputa PT x PSDB, é em verdade a exteriorização de um embate paulista em sua origem e essência: é o filho de mentalidade pequeno-burguesa brigando com o irmão, cuja revolta adolescente toma as características do modismo do dia: eco-ambientalismo, teoria do gênero, cicloativismo, meu-corpo-minhas-regras, etc.

É uma briga de família. A princípio, não pertence a quem é de fora. Por alguma razão, é mimetizada pelos jovens de outros Estados.

Quando reparei nesse nó, passei a manter aquela postura expressa por um dito daqui do Maranhão: “Eles, que são brancos, que se entendam”. Não são os esquemas paulistanos que refletem as aspirações máximas do brasileiro, o que muitos de nós desejamos é algo maior e menos ridículo.

Há uma carta de Vilém Flusser, escrita em 1990, que descreve o quase nada de político que há neste ambiente de hoje, por paradoxal que seja:

O que acabo de oferecer como explicação da falência cultural paulistana (e brasileira) parece negado pela abundância de discussão ‘política’ nos media e na conversa quotidiana (‘eleições’, partidos, etc). A quantidade indigestível de comentários ‘políticos’ nos jornais, por exemplo, parece indicar consciência política da sociedade. Creio que, pelo contrário, o fenômeno confirma minha tese. Nas discussões e nos comentários não se articula consciência política, isto é: senso de responsabilidade intersubjetiva, mas curiosa mistura entre sensacionalismo lúdico (como nas contendas de football), revolta econômica privada e tentativa de racionalizar a própria impotência face a decisões dificilmente localizáveis e analisáveis. A  discussão política paulistana revela, a meu ver, precisamente a falta de politização da qual falei acima. O remédio não é a ‘politização das massas'(…). (carta citada em capítulo da dissertação Flusser: uma história dos diabos, de Ricardo Mendes)

Não é o Brasil de hoje? Não define as duas correntes que disputam o poder? Não há política!

E por isso tenho pensado muito em dois grandes romenos do século passado, o filósofo Constantin Noica e o crítico literário e monge ortodoxo Nicolae Steinhardt, mestre e discípulo, ambos publicados pela É Realizações. Os dois entregaram-se ao estudo das culturas romena e ocidental para sobreviverem a um regime cuja possibilidade de política era inexistente: o totalitarismo comunista.

Não era só no cárcere, experiência vivida pelos dois, que os seus corações e mentes sofreram esse estrangulamento: na Universidade não se podia estudar muito além de Marx e os apóstolos da causa. Para que os dois não enlouquecessem, estratégias foram postas em práticas.

Constantin Noica
Constantin Noica

Noica, clandestinamente, organizou uma “escola” e, entre outras atividades civilizatórias

, fez, durante um ano, uma leitura lenta e concentrada da Fenomenologia do Espírito de Hegel. O objetivo não era gerar eruditos especialistas na filosofia do alemão, algo que os centros europeus geraram com abundância e sucesso. O que se queria era perscrutar, nos movimentos internos da história, a natureza espiritual específica de sua Romênia, o que somente lhe foi dado ser e a nenhuma outra nação mais. Muitos frutos nasceram dessa e outras práticas de Noica, como a vida intelectual de Nicolae Steinhardt, esta nascida na precariedade e na entrega ao Espírito.

Steinhardt foi lançado na prisão, e lá viveu sua grande aventura de conhecimento. Montou na surdina um grupo de estudos em que ele e seus companheiros escolhiam uma matéria, palestrando uns para os outros: os romances Doutor Fausto e A montanha mágica de Thomas Mann, A revolução das massas de Ortega y Gasset, lições de sânscrito e espanhol, biologia geral e história da cultura, entre outros. Homens reunidos em privação à força que, contra tudo e contra todos, não se deixaram levar pela degradação, dominando as circunstâncias. Um ambiente tal que Steinhardt descreve de um jeito que quase nos faz desejar ter estado com ele:

De todas as partes — como as nuvens de montanha — nasce e se condensa na cela 34 aquela atmosfera inefável e sem igual que somente a prisão pode criar: algo muito próximo ao que deve ter sido a corte dos duques de Burgúndia ou do rei Renè de Arles ou de uma court d’amour provençal, algo muito semelhante ao paraíso, algo muito japonês, cavalheiresco, algo que enlouqueceria Henry de Montherlant, Ernst Jünger, Stefan George, Marlaux, Chesterton, Solzhenitsyn, algo constituído de coragem, amor do paradoxo, teimosia, loucura santa e vontade de transcender a qualquer preço a miserável condição humana (…). (Diário da felicidade, trad. de Elpídio Mário Dantas Fonseca, Realizações).

Nicolae Steinhardt
Nicolae Steinhardt

O que mais me enche os olhos e aquece a alma na vida de Steinhardt é sua tentativa de articular crítica cultural e o seu processo de conversão à fé ortodoxa, tema principal de seu Diário da felicidade. As realizações dos ficcionistas e poetas de todas as épocas e nações falam do destino do homem concreto, da recordação das mais altas possibilidades humanas e da denúncia de quão baixo um homem pode chegar quando se afasta dos princípios fundamentais — ou é afastado, como no caso daquela Romênia. Steinhardt, que se batizou na cela, sempre procurou compreender os dramas temporais e as obras da imaginação à luz da Paixão de Cristo. Homero, Cervantes, Flaubert, Dostoievski, Bulgakov, T. S. Eliot e toda a literatura de seu país eram pensadas à luz da Paixão de Cristo, gerando o choque tensional entre história e eternidade que permitiu a ele conhecer aspectos novos sobre sua vida e o mundo em redor. Cultura não era um escapismo, um entorpecente, mas um aprofundamento naquela sua realidade. A criação no presente era uma atitude necessária para salvar suas circunstâncias ao mesmo tempo em que ele pensava os rumos de sua Romênia.

Minha esperança só vem de projetos afins. Não significa, é claro, que algumas reações e umas vitórias aqui e ali não possam ser festejadas, ou que se deva diminuir a força com que se hasteiam algumas bandeiras necessárias. O que há é o pé no chão, reconhecer que tudo está por fazer, exorcizar esse Dom Sebastião que, de tanto não renascer para nos salvar, gorou em nossas almas. E fico feliz ao ver que esse caminho já foi aberto em projetos semelhantes por uma nova geração, vários deles presentes aí na lista de links ao lado.

Penitentes e contritos na sagrada procissão

Ladainha de Canudos (Gereba/João Bá)

Usaram as águas do rio
quem nem arma do medonho
Pra destruir a morada, Terra Santa
do Beato Santo Antônio
Penitentes e contritos
Na sagrada procissão
Pra bandeira de canudos
Nunciar Ressurreição

Mais um pouco e a litania “mais Estado/menos Estado” dos liberais empurra-me para o monarquismo de esquerda do Suassuna. Ou não; a sedução da gnose já passou. Por enquanto, viva o Quinto Império, e que a República seja amaldiçoada!

 

Algumas notas sobre Submissão, de Michel Houellebecq

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(Texto publicado anteriormente em maio de 2015. A eleição do primeiro prefeito muçulmano de Londres só acentua a importância deste romance.)

1.

Devido à tragédia coincidente à apresentação do romance ao mundo — capa do Charlie Hebdo no dia em que o pasquim foi atacado por terroristas islâmicos — e a opiniões anteriores de seu autor ao mundo, como as de que “o Islã é uma religião estúpida”, Submissão (ed. Alfaguara, 2015) de Michel Houellebecq foi esperado como uma provocação aos muçulmanos, combustível para a islamofobia. Mas que nada. O romance é uma peça de acusação ao francês comum, ao europeu médio, à sua falta de vitalidade, ao seu hedonismo e o esgotamento de sua espiritualidade. Houellebecq  só aponta para essas características, sem lamentar ou rir delas, e, se o faz, é bem por dentro, lá por trás da forma de sua conhecida apatia, tão irritante para muitos, principalmente para a inteligentsia compatriota, tão cultuada nas universidades brasileiras:

No plano material, no entanto, não havia do que me queixar: tinha a garantia, até minha morte, de me beneficiar de uma renda elevada, duas vezes maior que a média nacional, sem precisar realizar em troca o menor trabalho. No entanto, sentia muito bem que me aproximava do suicídio, sem sentir nenhum desespero nem tristeza especial, simplesmente pela lenta degradação da “soma total das funções que resistem à morte”, conforme fala Bichat. Estava claro que a simples vontade de viver já não bastava para que eu resistisse ao conjunto de dores e aborrecimentos que balizam a vida de um ocidental médio. Eu era incapaz de viver para mim mesmo, e para quem mais iria viver? A humanidade não me interessava, até que me repugnava, eu não considerava de jeito nenhum os humanos como meus irmãos, e menos ainda se considerasse uma fração mais restrita da humanidade, formada por exemplo pelos meus compatriotas, ou por meus ex-colegas. Mas eu devia admitir, bastante a contragosto, que esses humanos eram meus semelhantes, mas era justamente essa semelhança que me levava a fugir deles; eu precisaria de uma mulher, essa era a solução clássica, já testada. Uma mulher é sem dúvida humana, mas representa um tipo ligeiramente diferente da humanidade, pois traz à vida certo perfume de exotismo. Huysmans poderia ter pensado nesse problema praticamente nos mesmos termos, a situação não tinha mudado desde então, a não se de maneira informal e negativa, por um lento desgaste, por um nivelamento das diferenças — mas até isso, talvez, tinha sido amplamente exagerado. Afinal, ele pegara outro caminho, optara pelo exotismo mais radical da divindade; mas esse caminho me deixava igualmente perplexo.

2.

(Do que me lembro que há pouco eu lia o Mário Vieira de Mello soando o alerta em Desenvolvimento e cultura – o problema do estetismo no Brasil (Companhia Editora Nacional, 1963), desde os anos 60, para a necessidade de compreender a Europa como um problema antes de pensar o nosso modelo próprio de cultura. Resolveríamos assim a aporia que há entre as duas perspectivas que, até então, eram as duas posturas mais comuns do pensamento tupiniquim: aceitar a Europa como realidade incontornável, e reproduzir automaticamente o que há de mais novo por lá, ou rechaçá-la, fingir que se pode evitar todo condicionante histórico, gritando com muita histeria: eurocentrismo! eurocentrismo! eurocentrismo!, igual uma garota de sovacos coloridos a dançar tambor de crioula com uma camisa da Amelie Poulain, vítima do seu tempo. Houellebecq demarca neste romance algumas notas que caracterizam o fundo existencial da crise da consciência européia: uma cultura que desistiu de si mesma e que, no entanto, é vista por muitos por cá como o modelo do que devemos ser.

3.

Submissão é narrado por um professor de literatura que não tem “a menor vocação para o ensino”. Ele é especialista em J. K. Huysmans (1848-1907), escritor francês cuja conversão do satanismo ao catolicismo é representada em seus romances. O satanismo de Huysmans foi pouco mais que uma modalidade do estetismo em moda, seu catolicismo era uma nostalgia pela Idade Média gótica – saía do estetismo e permanecia nele. O professor é um solteiro de meia-idade bem-sucedido em sua área, sem muitos amigos, cercado de intelectuais carreiristas cujas vidas não são influenciadas por seus objetos de estudo: uma vida social de universidade bem comezinha e pouco atraente. Cenas pornográficas são descritas prosaicamente, sem calor e com angústia, como fatos à toa; as relações amorosas do protagonista são trocadas a cada ano, sem grandes dores. Só alguns atentados e o medo pela nova situação mudam a rotina, para, depois, aconchegar-se em uma muito irônica adequação à nova realidade do país subitamente islamizado. A submissão não veio por um governo autoritário, veio pela promessa do saciamento dos instintos.

Talvez a dignidade estética do livro esteja na sutileza sem jogos de linguagem, na secura do estilo a denotar fadiga, com que vai construindo a passagem das percepções do ambiente. O professor vai cedendo, atraído por aquilo que diz algo à sua alma européia domesticada por décadas do modelo do Estado de bem-estar social: a satisfação garantida das necessidades animais de sexo, comida e segurança.

4.

Para o professor, uma única saída: toda possibilidade de transcendência se esgotava na literatura:

A especificidade da literatura, arte maior de um Ocidente que se conclui diante dos nossos olhos, não é, porém, muito difícil de definir. Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas idéias fixas, suas crenças, com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, de maneira mais direta, mais completa e até mais profunda que a conversa de um amigo — por mais profunda e douradora que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.

5.

Contudo, o livro não frustra aqueles movidos pelas paixões políticas, mormente a quem não dispensa um bom exercício de futurologia. Houellebecq põe-nos em um futuro próximo: pela primeira vez em décadas, os partidos de esquerda e de direita moderados estarão fora do segundo turno da disputa pela presidência. A direita da candidata Marine le Pen e o partido da Fraternidade Muçulmana concorrerão em uma França cada vez mais islamizada e anti-liberal. A esquerda decide apoiar o candidato do Islã, forte é o medo que a elite tem de uma volta à direita contra-revolucionária. Os judeus são os que mais temem, representados em uma namorada do professor.

As discussões políticas no livro são especialmente divertidas para quem, como eu, acompanha certo “debate” do underground brasileiro entre olavianos (ou olavettes, fica à sua escolha), adeptos da Quarta Teoria Política (uma tentativa de absorver e superar dialeticamente as três teorias do século XX, fascismo, liberalismo e comunismo, através de um reavivamento de tradições metafísicas) e um grupo inexpressivo de católicos tradicionais defensores da Doutrina Social da Igreja. Pois que um presidente muçulmano que decide implantar o distributismo, modelo econômico criado por Chesterton e pelo teólogo Hilaire Belloc a partir da encíclica Rerum Novarum, e escolhe como diretor da Universidade de Paris-Sourbonne (agora regida por preceitos islâmicos) um acadêmico cuja carreira deve-se a um estudo sobre René Guénon, metafísico e especialista em religiões comparadas, é algo que imaginaríamos vindo das cabeças paranóides de certas comunidades do Orkut. Daí que surgiu da cabeça de um dos mais polêmicos escritores franceses.

Aforismos kafkianos

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Alguns dos perturbadores aforismos de Kafka:

4. São muitas as sombras de falecidos que apenas se ocupam em lamber as marés do rio dos mortos, porque este vem dos nossos lados e ainda tem o sabor salgado dos nossos mares. O rio crispa-se então enojado, inverte o sentido da corrente e despeja os mortos de novo na vida. E eles contudo são felizes, entoam cânticos de agradecimento e afagam o indignado.

20. Os leopardos invadem o templo e esvaziam os vasos sacrificiais. Esta situação repete-se constantemente. Até que por fim pode ser prevista e então torna-se uma parte da cerimónia.

23. É do verdadeiro adversário que te chega uma coragem infinita.

29. As segundas intenções com que acolhes o mal em ti não são as tuas, mas sim as do mal.
O animal arranca o chicote ao dono e chicoteia -se a si próprio para se tornar senhor. E não sabe que se trata apenas de uma fantasia, produzida por mais um nó no chicote do dono.

33. Os mártires não menosprezam o corpo. Deixam que seja elevado na cruz. Neste ponto estão de acordo com os seus adversários.

40. É apenas a nossa noção de tempo que nos permite designar o Juízo Final com esse nome. De facto trata-se de uma lei marcial.

45. Quanto mais cavalos atrelares, mais depressa consegues. Não a extracção do bloco de pedra, o que é impossível, mas o rompimento das correias e assim um passeio alegre e vazio.

60. Quem renuncia ao mundo só pode amar todos os homens, porque também renuncia ao mundo deles. Começa assim a intuir a verdadeira natureza humana, que – supondo que dela se partilha – só pode ser amada.

66. Ele é um cidadão do mundo, livre e protegido, porque está preso a uma corrente que é suficientemente comprida para que possa aceder a todos os espaços terrestres, mas não tão comprida que possa ser arrastado para lá das fronteiras do mundo. Ao mesmo tempo também é um cidadão do céu, livre e protegido, porque também está preso a uma corrente celeste concebida à semelhança da primeira. Se quiser ir até à terra, a coleira do céu estrangula-o, se quiser ir para o céu, é a da terra que o estrangula. E, no entanto, tem todas as possibilidades, coisa que ele sente. Sim, até se recusa a imputar tudo isto a um erro aquando do primeiro agrilhoamento.

76. Este sentimento: «Aqui não lanço a âncora». E sentirmos logo à nossa volta a maré agitada que nos puxa! Uma viragem. À espreita, com medo e cheia de esperança a resposta anda em torno da pergunta, prescruta desesperada o seu semblante impenetrável, segue-a nos caminhos que menos sentido têm, ou seja, naqueles que se afastam o mais possível da resposta.

77. O relacionamento com pessoas leva-nos a cair na tentação da auto-observação.

78. O espírito só se liberta quando deixar de ser um amparo.

79. O amor físico engana o amor celestial. Não seria capaz de o fazer por si só, mas como, sem o saber, possui o elemento do amor celestial, consegue fazê-lo.

92. A primeira idolatria foi sem dúvida o medo das coisas, mas, em ligação com ele, também medo da necessidade das coisas e, em ligação com este, medo da responsabilidade
pelas coisas. Esta responsabilidade parecia tão gigantesca que ninguém se atreveu sequer a atribuí-la a um único ser sobre-humano, porque mesmo através da mediação de um ser a responsabilidade humana não teria sido suficientemente aliviada e o contacto com um único ser ainda estaria demasiado manchado pela responsabilidade. Foi por isso que a cada coisa foi dada a responsabilidade por si mesma; mais ainda, a cada coisa foi também dada uma relativa responsabilidade pelos homens.

103. Tu podes furtar-te aos sofrimentos do mundo. Tens liberdade para isso e corresponde à tua natureza, mas talvez seja justamente essa fuga o único sofrimento que podias evitar.

(Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, trad. de Cristina Terra da Motta)

 

De quando Albert Camus fez sua entrevista com um vampiro

“Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte, as pessoas de bem, meu caro senhor, julgar-se-iam todas e incessantemente inocentes. E, no meu entender — pronto, pronto, chego lá! — é sobretudo isso que é preciso evitar. De outra forma, haveria muita razão para rir.”

A queda, Albert Camus 

O questionamento de fundo evangélico quem sou eu para julgar alguém tornou-se um imperativo tão vulgarizado quanto mal-compreendido, e eu ainda não sei como não o transformaram em um slogan comercial. Em slogan político já o foi, e não é estranho que seu uso esteja a ser tão depravado por profissionais manipuladores do ressentimento com o fim de que sejam válidas apenas as suas próprias acusações.

O que está por trás do mal-entendido, além da vontade de retorcer tudo para caber em causa própria, está no esquecimento, também intencional no início de sua difusão, porém inocente quando reproduzido, do contexto inteiro do choque de Jesus contra os fariseus em favor da adúltera, em que o ato de misericórdia só é válido porque vem com um pedido de conversão da mulher. E essa conversão implica o reconhecimento das próprias culpas passadas. Nas cabeças de várias alas dos pós-modernos, os fariseus são os únicos culpados e a adúltera é inocente.

Não há nada no texto evangélico que justifique essa leitura. Todos são culpados. Todos nós, porque somos ao mesmo tempo os fariseus e a adúltera, e só ao Cordeiro Imaculado é possível situar-se acima deles. Porém, desde os anos 60, foi sacralizado o dogma de que todos são inocentes, de que a culpa é da sociedade, dos opressores, do capital, forças que impedem que nós sejamos este Adão de manhã cedo que as elites artísticas e intelectuais julgam ser e crêem que toda a humanidade deva se perceber assim.

Isso é fácil de se notar, mas parece que há uma dificuldade desgraçada em saber o que é a “culpa católica”, uma vez que não se sabe mais o que é culpa simplesmente, sem adjetivos.

Um professor amigo certa vez repostou, em seu perfil de rede social, uma matéria sobre um bandido orgulhoso de seu crime. Não lembro qual a natureza de seus feitos, se assassinato, se estupro, se roubo. Lembro apenas que o marginal divertia-se com a atenção voltada para ele. O professor lamentou que o fenômeno acontecia porque nossa sociedade não tinha mais a tal “culpa católica” entre seus sentimentos comuns.

A atitude do criminoso recordou-me algo diferente: o discurso final do protagonista de O estrangeiro, de Albert Camus.

A queda (1956), último de seus romances, fez-me pensar em porque vivemos tão confusos sobre o que é julgamento e o que é culpa, dominados que estamos por bodes expiatórios e por nossa presumida inocência. Camus ressentia-se de que o livro não fora compreendido. O romance permanece um enigma, e não sou eu que tentarei dar uma chave definitiva, embora o argelino tenha dito que as confissões do protagonista referiam-se a ele mesmo e ao grupo de existencialistas com que ele foi identificado. Para além de um eflúvio subjetivista e do retrato de uma moda filosófica, o artesanato com que trata dos temas da culpa e do julgamento é tão belo quanto revelador dos mecanismos pelos quais o europeu lidava com esses problemas em sua época — e que só pioraram.

O romance consta de seis longos monólogos apresentados na forma de diálogos entre Jean-Baptiste Clamence (o nome não é arbitrário) e um interlocutor anônimo, funcionando como um meio-termo entre confissão e acusação a todo cidadão europeu agnóstico que pusesse os olhos na obra. O artifício fica exposto na profissão de Clamence: juiz-penitente. As confissões-acusações dão-se na capital da Holanda, esse não-lugar onde cidadãos de todos os cantos do velho continente acorriam para viver a experiência da Terra sem Culpa, onde prostitutas são expostas em vitrines e está-se “mais ou menos em todas as coisas“.

Albert Camus smoking on a balcony
Albert Camus

Nesses monólogos, o juiz-penitente vai espalhando veredictos condenatórios sobre o homem moderno enquanto fala positivamente de si. Ele é um advogado especialista em causas dos desvalidos: as viúvas, os órfãos, os pobres. Contudo, seu samaritanismo é conscientemente utilitário. Ele sabe que age assim porque a boa ação faz-lhe sentir-se magnânimo, ele que já era bonito, atlético, um sucesso com as mulheres, um homem de bons gostos e cultura. Seu objetivo primeiro era a perfeição em tudo, mas, ao longo dos tempos, descobriu que não era tão perfeito assim. Incidentes ridículos riscaram sua auto-imagem. Após mostrar-se como senhor constante de seu próprio estado de espírito, condição que em suas palavras é “privilégio dos grandes animais“, alguém que conseguiu não se contaminar pela cegueira dos seus pares, ele vai-se retratando como um vil, o mais vil dos vis. As auto-acusações, no entanto, servem para um fim impressionante, que é o grande triunfo estético do livro — além, claro, da sequência interminável de agudos aforismos acerca dos seus concidadãos (“os europeus têm a necessidade de tragédia, que se pode fazer, é a sua transcendência, seu aperitivo” é bastante cruel quando se lembra que há pouco mais de dez anos terminava a segunda grande guerra).

No fim, Jean-Baptiste revela-se um vampiro psíquico. A queda é o que o Entrevista com o vampiro da Anne Rice promete ser e não cumpre: uma história de vampiros, e mais, a melhor história de vampiros jamais escrita.

Não cometerei a deselegância do spoiler, desde que o livro em si não é objeto desta reflexão, e sim o que está contido nas seguintes palavras de Jean-Baptiste, palavras estas que preparam o golpe fatal em sua vítima:

“Afinal, é isso mesmo o que sou, refugiado num deserto de pedras, de brumas e de águas pútridas, profeta vazio para tempos medíocres, Elias sem Messias, cheio de febre e de álcool, encostado nesta porta bolorenta, de dedo erguido para o céu baixo, cobrindo de imprecações homens sem lei, que não conseguem suportar nenhum julgamento. Pois eles não conseguem suportar, meu caro, e esse é o problema. Quem adere a uma lei, não teme o julgamento que o recoloca em uma ordem na qual crê. Mas o mais alto dos tormentos é ser julgado sem lei. Nós vivemos, porém, neste tormento. Privados de seu freio natural, os juízes, soltos ao acaso, servem-se à vontade. Então, não acha que é realmente preciso tentar andar mais rápido do que eles? E começa a grande confusão. Os profetas e os curandeiros multiplicam-se para chegar a uma lei certa ou a uma organização impecável, antes que a terra fique deserta. Felizmente, eu consegui! Eu sou o fim e o começo, eu anuncio a lei. Em suma, sou juiz-penitente.”

Eu sou preocupado com a defesa do cânone literário, graças em muito à luta de Harold Bloom contra as Escolas de Ressentimento. Algo que percebo em pessoas que são influenciadas pela “desconstrução dos paradigmas” é que elas têm dificuldade de entender certos valores e conceitos universais que estão por trás de toda obra da literatura moderna. Assim, um romance dos não tão distantes anos 50 como é A queda apresenta obstáculos para a interpretação que, se não chegam a ser grandes quanto as que se vêem nos poemas escritos em uma tradição morta, caso da Divina Comédia, obra hoje ilegível sem um glossário e um bom conhecimento da teologia, da física e da ética medievais, são contudo consideráveis. A subversão de linguagem que os desconstrutores de tudo vem provocando podem tornar ilegíveis parte grande do cânone. Camus parece cristalizar a época em que culpa e julgamento passam a significar conceitos bem diferentes do que significaram para a Europa desde suas raízes pagãs, semíticas e católicas.

Hoje, o mal não é que culpa e julgamento não tenham o mesmo significado de antes, é que não têm mais significado algum.

Há uns tempos eu notava o quanto subcelebridades gostavam de dizer, com orgulho estranho, que não se arrependiam de nada em suas vidas. Soava falso, como auto-defesa diante dos acusadores de plantão, mas mentira dita inúmeras vezes como um mantra torna-se auto-hipnose, conformando seus atos futuros aos mesmos erros antigos. E é assim que se entregam docilmente aos vampiros, como as mocinhas enfeitiçadas fazem nas histórias arquetípicas dos monstros.

(Ensaio de março de 2015)

Demolidor e o complexo de Elektra

demolidor

O problema da liberdade humana, ou melhor, o problema de se tomar uma escolha que pode definir toda uma vida, eis o grande tema do romance moderno. É o problema do ser, enfim: ser ou não ser, para Hamlet, significa vingar ou não vingar a morte de seu pai; para o Dom Quixote, ser ou não ser é tornar-se ou não cavaleiro e defender os injustiçados a todo custo. E por aí vai. O homem se define pelo que faz, não só pelo que crê. E este não é tema exclusivo da literatura. Stan Lee, ao lado de seus parceiros Jack Kirby e Steve Ditko, explorou variantes desse dilema em seus quadrinhos na Marvel Comics.

O que torna Homem-Aranha, Hulk, X-Men, Surfista Prateado e outros personagens tão representativos de seu tempo é o modo como Stan Lee soube usar uma matéria popular – a fantasia de super-heróis para tratar esse tema. O que fazer com a liberdade era a preocupação principal de sua época. A cultura pop, a publicidade e as militâncias políticas punham pela primeira vez na história o jovem no centro do palco. Apresentavam-lhes um mundo inteiro para ser conquistado por direito. Mas, quando esse jovem se punha na demanda do que desejava, a realidade mostrava-se diferente do que os cantores, publicitários e agitadores vendiam. Daí toda a angústia dos beats, dos existencialistas, dos cineastas francesas. Não lhes era ensinado que grandes poderes traziam grandes responsabilidades, e acabavam engolidos pelos resultados não esperados de suas escolhas.

Talvez só Stan Lee ensinava, e essa era apenas uma das qualidades de um pequeno gênio cujo sonho era escrever o grande romance americano, mas que fez sua fama nos quadrinhos. Ele compartilhava uma profunda consciência moral, típica da ficção judaico-americana, como a de Philip Roth, Saul Bellow e Woody Allen, ainda que em menor grau. E com Will Eisner, claro, vide as graphic novels Contrato com Deus e O Edifício. Seus heróis tinham as vidas mudadas por um acidente extraordinário, ou por uma marca de nascença, no caso dos X-Men, que os colocavam em uma situação tal que precisavam tomar essa única decisão definitiva.

Peter Parker, por exemplo, fez uma escolha ruim: usar os poderes ganhos com uma picada de aranha radioativa para ter algum dinheiro em lutas livres; a escolha custou a vida de seu tio, morto por um assaltante que ele deixou escapar, e uma segunda escolha então foi feita: usar os poderes de Homem-Aranha para combater o crime e não deixar que outros inocentes perdessem a vida por causa de seu egoísmo. Mas a marca daquela primeira escolha nunca deixou sua alma, por isso a repetição constante para si de um mantra que dava unidade ao seu ser, já dito aqui: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

É curioso que um outro bordão de Stan Lee, “estou preso em um mundo que eu não criei”, fosse repetido por seus heróis, mas desmentido pelas escolhas deles. Ao definir o que fazer com seus dons extraordinários, ganhos sem que fosse dada escolha, eles tomavam conta de suas vidas: criavam-se enquanto indivíduos. Era o mesmo dilema existencialista tratado de outras formas por outros artistas naqueles anos sessenta, em que o sonho era posto como mola da realidade. Lee, em histórias feitas para adolescentes, era mais maduro que autores que escreviam para adultos. O jogo da amarelinha, de Júlio Cortazar, romance símbolo dessa época, por exemplo, retrata a vida de um homem de meia-idade que, movida a sonho, foge das responsabilidades. O resultado: vazio e tragédia. O contrário do que os heróis de Stan Lee viviam.

Em Demolidor, seriado produzido pela Netflix e baseado em uma das criações de Lee, o herói precisa tomar responsabilidade por seus atos todos os dias, em todas as horas. Ao contrário do Homem-Aranha, que teve uma segunda escolha, o Demolidor foi fiel à sua primeira decisão, e de forma dupla: ser um advogado que protege os desfavorecidos pelo sistema, ser um super-herói que usa seus sentidos ampliados por um acidente também causado por material radioativo. O problema é o limite imposto pela realidade ao cumprimento dessas vocações. O crime é uma força tão terrível, assume formas tão extremas em seu bairro, apropriadamente chamado Hell’s Kitchen, que em várias vezes a solução final aparece-lhe como única alternativa: matar. Mas ele não pode. Por quê? Porque ele é advogado, e acredita que todos devem ser julgados por seus atos por um juiz, que não é ele; e porque ele é católico, e acredita que todos devem ser julgados por seus atos por um juiz, que não é ele, é Cristo.

Este é o tema que conduz o enredo na primeira temporada. O Demolidor não teme perder a vida em nenhum momento, dá tudo de si, indiferente à quantidade de seu sangue derramado. Mas ele não pode tirar a vida de outro. É uma visão agônica do catolicismo irlandês de Matt Murdock, o homem por trás da máscara de demônio, tão distante do nosso catolicismo festivo.

Um diálogo resume essa visão: uma enfermeira conhece-o e passa a cuidar de seus seguidos ferimentos, e questiona sobre o mistério:

— Certo, é disso que estou falando. Acho um cara em uma caçamba, que é um justiceiro cego capaz de fazer coisas sinistras, como sentir colônia através de paredes e se está inconsciente ou fingindo. Além disso, ele agüenta uma dor tremenda sem reclamar.

— A última parte é catolicismo.

Se entre nós o catolicismo tem a função de catarse, de analgésico, de consolação diante de uma realidade adversa, de celebração festiva (na literatura um Jorge de Lima mais órfico do que cristão, em Suassuna o auto sempre tendendo para a farsa e a comédia redentora, mesmo em uma pseudo-tragédia como A mulher vestida de sol), na Irlanda é um chamado para abraçar as dores até o martírio e a transfiguração do mundo. Talvez por isso nosso cristianismo nunca nos deu uma obra-prima na ficção; a exceção que confirma a regra é A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa.

É interessante que quem tenha recorrido ao catolicismo para moldar o personagem tenha sido um ateu, Frank Miller, autor dos quadrinhos em que se baseiam a primeira e a segunda temporadas. Embora, em sua criação, Miller tenha sido educado no catolicismo, foi seu interesse por valores éticos baseados em sacrifício e na integração do ser através de uma disciplina ascética guerreira que o levou a buscar nessa religião a configuração dos dramas de Murdock. Vemos isso em outras obras dele, em especial 300, com o ideal espartano, e em Ronin, com o bushido, código de honra samurai muito parecido com o código dos cavaleiros medievais. Miller é ainda entusiasta de Ayn Rand, cuja visão ética é o análogo possível para uma ascese individualista imanente.

elektra
Elektra e Matt Murdock

Como os cavaleiros medievais, os guerreiros espartanos e os samurais, o Demolidor vai sempre em frente, em uma única direção e até a morte, sem desvio: todas as suas paixões são movidas para o Bem, para as promessas feitas no batismo e vividas em sua missão peculiar.

Na segunda temporada entra outro personagem, Frank Castle, o Justiceiro, ex-militar que perdeu a fé católica e resolve eliminar as principais gangues de Hell’s Kitchen. Qual foi sua escolha inicial? Vingar sua família, assassinada por uma das gangues. O Justiceiro simboliza uma potencialidade da psiquê do Demolidor, a parte mais negra de sua alma: o herói que mata. Murdock sabe, e Elektra, sua ex-namorada e ninja assassina, diz-lhe que, uma vez rompido o limite do assassinato, ele não será mais o mesmo. Justiceiro nunca se arrepende, e talvez essa impossibilidade de arrependimento seja um sintoma de sociopatia.

(E, se o tema católico da primeira temporada é o “Não matarás”, o da segunda é o imperativo evangélico de ver no bandido a possibilidade de salvação: bandido bom não é bandido morto, mas bandido arrependido e libertado do Mal.)

Elektra fica no meio termo, é o único personagem com um conflito interior mais parecido com os dramas existencialistas dos anos 60, em que se mesclam impulsos eróticos e de morte. Assim, ela tenta seduzir Matt para que se torne um assassino como ela. Apesar de que os papéis de Justiceiro e da parceira de Murdock, Karen Page, tenham sido melhor trabalhados – Demolidor é quase um coadjuvante de Frank Castle –, é a indecisão de Elektra quem rende os dramas morais mais interessantes. Ela fica entre o desejo de se render aos seus impulsos assassinos e o sonho de ser amada. Só que, para ser amada por Matt, ela precisa escolher o Bem. E é aí que Elektra, que sempre viveu a angústia de não saber o que era, nega a identidade tão desejada e que lhe é oferecida, para ter a chance de viver um amor que a ajudaria a criar uma outra identidade redimida. É uma porrada em Freud e Jung, e é também o paroxismo do reconhecimento da necessidade de se tomar posse de uma única escolha que integre seu ser acima de suas paixões dispersivas. Mesmo que essa escolha se dê no fim da vida, como a escolha do Bom Ladrão na cruz.