À maneira de epígrafe

33

Vim para dar-te notícias deste mundo, sombra amiga, e eis que meus companheiros se deitam e se levantam ensangüentados como o sol. Já não acertam chamar-te com teu nome terrestre, pois seus lábios estão mais lívidos que o sangue dos mortos.
Corre entre o ar e o homem uma cantiga urdida de sortilégios: em cada coisa vivente a destruição começou.
Vim para dar-te notícias, e eis que minha voz reboa tais dimensões desconhecidas que me parece um pássaro de espanto.
Murmuro tua alegria, nesta aba de deserto; mas o eco total do mundo me estremece.
Pende teu ouvido para que eu nele me infunda e te diga: “Intercede para que renasçam as memórias abolidas dos itinerários da ascensão.”
Não há maior castigo que a dúvida de possuir-se um coração mortal em holocausto à sanha dos irmãos.
Nem pena mais funda que esta de nos sentirmos mais travosos que as raízes.
Pende mais o ouvido: “Estamos confundindo o medo com a humildade ou mesmo com o frio deste inverno perene.”
Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.
As poderosas nações trituram o hálito entre os dentes.
Vozes vindas de rasgados confins começam a imprecar desde ontem.
Quero chamar-te por teu nome terrestre, e o esqueci.

(Jorge de Lima, Anunciação e encontro de Mira-Celi)

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s