O dever do homem

Cena de Nostalgia (1983), de Tarkovski
Cena de Nostalgia (1983), de Tarkovski

“O sentido da arte é a oração. Sim, a arte é uma oração. É a minha oração. E se a minha própria oração é útil para alguém, então a minha arte é útil para os outros. É um dever. E o dever do homem é servir.”

Andrei Tarkovski, em depoimento para o documentário Poésie et vérité, de Edgardo Cozarinsky (1999).

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A morte não é o fim

hc 1Do muito que conversei nos últimos meses sobre as origens e fins do matrimônio, a sentença que mais repeti, porque mais me calou pesado da primeira vez que ouvi, foi esta: a mulher tem o dom de humanizar o homem. Um interesse por estudos do simbolismo tradicional de todos os povos (Mircea Eliade, René Guénon, Julius Evola, e, em especial, um poema de Ângelo Monteiro em O Ignorado) poderia me conduzir aqui em uma série de ilustrações para esse fato. Mas o que me veio com mais força nas últimas semanas é a temporada recente do seriado House of Cards — produzido por David Fincher — quando notei que a série deixou de ser, pelo menos por enquanto, uma excelente obra de ficção política para tocar em outros temas trabalhados anteriormente no sub-texto.

Se a primeira temporada focava nas relações do poder político com a imprensa, e na segunda a submissão do público pelos donos do capital, na terceira vimos Frank Underwood (um Kevin Spacey incorporado pelo demônio do cinismo), antes um abismo de poder, engolindo tudo e todos para seus planos, agora sendo acuado por todos os lados, sem conseguir exercer suas habilidades de manipulação. Essa mudança foi frustrante para quem, como eu, foi cativado pela abordagem da série sobre o poder. As expectativas cegaram-me um pouco ante outras riquezas, como os recursos metalingüísticos explorados pelos roteiristas para narrar a degradação do casamento de Frank e Claire Underwood (o papel da vida de Robin Wright, perfeita nessa releitura da Lady MacBeth), e que, só na season finale, revelaram-se como o triunfo da temporada.

Frank, obcecado por sua ambição, não conseguia enxergar por si próprio o quanto sua carreira até a Casa Branca devia a Claire. É a arte que tira as escamas de seus olhos em alguns momentos, mas sempre depois ele voltava a enxergar-se apenas a si próprio.

Um desses instantes dá-se no meu episódio favorito, aquele em que monges budistas são enviados pelo governo do Tibet à Casa Branca por motivo de intercâmbio cultural. A missão deles: desenhar ritualmente, em um dos salões da sede do governo, uma mandala. Em postura piedosa, entre cânticos e mantras, raspando a tinta em pó em uma mesa, de forma lenta, meditada, tão vagaroso que durou um mês. O casal estava absorto nas crises do governo, e não acompanharam com a devida atenção a feitura do desenho. Eles até chegam a perceber como vinham a dar as costas àquilo que é essencial em suas vidas: as pequenas coisas, as belezas que surgem sem aviso, a própria relação amorosa dos dois deslocada para o segundo plano. Perceberam o afastamento quando foram postos diante de algo que representava o contrário: um símbolo religioso, cujo fim é o conhecimento do geral, das verdades eternas, do plano supranatural onde os princípios estão acima dos acidentes e erros da vida. Os monges, no cume do rito, sopraram a mandala, apagaram-na, restando nada além de reproduções fotográficas. O sublime tornado efêmero, símbolo de que podemos alcançar essas verdades na vida aqui, mas que podem escapar facilmente de nossas mãos se não as absorvemos.

O mesmo episódio é entremeado com uma renovação de votos matrimoniais do casal em uma cerimônia religiosa. Chegamos a crer que foram despertados. Mas os ritos não bastam sem a vivência concreta das promessas atualizadas pelo sacramento.

hc 2A aparição de um escritor contratado por Frank Underwood rende meditações de outra ordem, mas que complementam o que é representado no episódio comentado. Frank quer que ele escreva uma livro-propaganda para alavancar um programa de empregos que sofre resistência de seu partido. O autor, famoso por um best-seller, não quer saber do programa. Ele quer contar a vida de Frank Underwood. “Nenhum escritor de respeito pode resistir a uma boa história, assim como nenhum político pode resistir a fazer promessas que não pode cumprir”, disse Frank. Ele retorce a sua história pessoal para o literato, mas não o convence, e o escritor, usando de seu dom de encontrar o valor de detalhes sufocados pela desatenção do dia-a-dia, o olhar treinado na investigação do real que, como um detetive, caça indícios para descobrir a trama do mistério em que é colocado, nota que, sem a Claire, Frank é inexistente. A partir de então, o escritor entrevistou-a, e, em poucas conversas, tudo ficou claro para ela, que também recalcava o fato de que Frank Underwood era obra feita pelas suas mãos.

Daí tudo muda. Ou não? Esperemos a próxima temporada.

O ponto que quero chamar a atenção não é sobre o casamento, sobre o que a série pode dizer sobre a essência perene do matrimônio, até porque nenhum dos personagens da série tem idéia do que um casamento significa, se aprendemos algo é por vias negativas. Exemplo maior é o do ativista gay que só sustenta um relacionamento morto por causa do sentido pseudo-político da agenda revolucionária – já que esse tipo de relação não possui os elementos que fazem a realidade chamada matrimônio, a saber: a promessa do sangue, a complementaridade do masculino com o feminino como forma de derrotar a dissolução do tempo através da vida fecundada que subsiste aos progenitores, e os meios de vencer os problemas da solidão e da superficialidade que uma relação fundamentada no impulso sexual acabam por enfrentar, como explica de forma definitiva Ronald Robson em artigo necessário do saudoso Ad Hominem.

O ponto é outro, o ponto é recordar os fins da cultura. A arte humaniza a humanidade. E tanto a arte religiosa quanto a arte secular moderna – em especial o romance – quando vivenciadas em conjunto aperfeiçoam essa capacidade. Lançam luzes sobre o mistério radical da existência, como faz a arte religiosa, ao mesmo tempo em que valoriza o acidental, o arbitrário, aquilo que, se é perdido, não voltará jamais e é portanto precioso, e precioso na medida do que sói ser valorizado, como faz a arte secular em seu melhor. Tiram-nos da confusão em que somos jogados a toda hora. Porque a inconsciência desses valores que o artista tem a missão de atualizar, essa inconsciência nos desumaniza, pois torna o homem escravo de seus instintos, animalizando-o, ou, no outro extremo, no caso de figuras demoníacas como Frank, põe-nos acima da humanidade no lugar de Deus. Se a cultura não nos põe sempre atualizados de que não somos nem apenas deuses (pecado do iluminismo e do idealismo alemão) nem apenas animais (pecado da pós-modernidade francesa e da cultura pop norte-americana), algo se queda violentamente, como o carro do Sol guiado por Faetonte ou os navios naufragados pelos cantos das sereias.

Não sabemos o quanto crescerá ou minguará a função do escritor na jornada do casal Underwood à vitória sobre o tempo, ambição maior do casal. Pois a luta contra o tempo é a agonia que os move: enquanto Frank quer derrotar o tempo, deixando uma marca para o futuro através de sua carreira política, atualizando o culto muito arcaico à deusa Fama, temos a angústia de Claire de não ter tido um filho e já estar nos anos finais de sua fertilidade, demonstrada várias vezes ao longo da série: em uma cena ela pergunta a Frank para quem eles deixariam tudo o que ergueram com tanto sangue. O imperativo de deixar um legado para que a morte não impeça que suas vidas tenham um sentido talvez seja o grande tema oculto da série.

(Bom lembrar que Claire também quer deixar um legado no campo das realizações políticas, gerando conflitos importantes com Frank.)

A arte ilumina, mesmo que com um só clarão fulgurante e efêmero; a nós cabe manter a chama acesa. Frank Underwood falseia sua vida ao seu biógrafo, manipulando os símbolos de acordo com seu projeto pessoal de poder, mas o artista desmonta a mentira, revelada plenamente quando Claire, fragilizada, vê-se incapacitada de lançar um olhar mentiroso sobre sua própria história.

Désolé par les cruels espoirs

Um dos aspectos essenciais da Criação, que se mostra especialmente fecundo na aventura humana, é a sua inesgotabilidade, sua constante renovação. Nota-se esse aspecto ante a alegria que se tem, como um frêmito que é união de prazer e de alívio, quando ouvimos respondida uma dúvida fulcral sobre nossa existência. E quando essa dúvida é resolvida abrindo-nos a um universo maior de mistério e novidade, a alegria já não tem mais o seu componente de alívio: é pura abertura. É como um grito de uma criança a brincar no meio da manhã – aquele grito que James Joyce, o irlandês coletor de epifanias, identificou com o Absoluto.

É um deleite infantil, e é infantil no que de melhor essa palavra faz refluir na alma de quem a ouve. Saber que o que nós amamos nunca deixará de nos surpreender é um belo consolo. Quem se dispõe a amar a Criação jamais será devorado pelo tédio, essa ratazana banguela.

Infantil era também uma angústia de minha adolescência, quando constatei com tristeza que no Céu não leremos romances. Apaixonado por aquelas obras fascinantes (Doutor Fausto, Enquanto Agonizo, O Morro dos Ventos Uivantes, Grande Sertão: Veredas, Ulysses, Orlando, Cidades Invisíveis, entre tantos outos) que eu descobria em algumas bibliotecas da ilha, via diante de mim uma universo inabarcável. Senti uma certa tristeza ante o infinito que ser-me-ia negado pela morte.

Parece um sentimento meio tolo. No entanto, vi-o compartilhado com Harold Bloom. O crítico judeu, em um ensaio sobre Santo Agostinho, o homem que fez da leitura um caminho para a santidade, exprimiu o ponto cego de nossas paixões: the angels need to read, but we have to.

Pena que nem todo mundo relaciona-se assim com o infinito. Há algum tempo, um amigo mostrou-se disposto a estudar sobre a Igreja, e pediu-me algumas recomendações bibliográficas. Por alto, fiz uma lista do que era necessário conhecer antes de dar palpites sobre o problema que o incomodava. Recomendei-lhe o óbvio: vidas dos principais santos, o catecismo, a patrística, documentos de alguns concílios, teologia, certas encíclicas e uma historiografia básica que dê conta dos dois mil anos da caminhada da Igreja Peregrina. Esperando uma bibliografia pequena e específica, deixou passar pequena tristeza ao contabilizar o número de livros, enquanto calculava o pouco tempo que teria para apressar essas leituras todas. Ele estava“aguniado”, como dizemos aqui em nossa terra, para começar a escrever logo.

Eu só pude incentivá-lo tentando transmitir a minha alegria por saber que até o fim dos meus dias ainda terei o que aprender. Pois morrerei sem ter esgotado a biblioteca de meus desejos. Quando releio aquele verso de Mallarmé, “a carne é triste, sim, e eu li todos os livros” (trad. Augusto de Campos), não me reconheço nesse desabafo. A curiosidade é um dos revigorantes mais fortes para a alma, não nos convém matá-la cedo.

Mallarmé produziu a sua obra sob a sombra de um projeto utópico: esgotar o mundo em um livro totalizante. Não só os outros livros tornam-se-iam inúteis, mas o próprio universo. Era um projeto que fatalmente daria em fracasso. Se um lance de dados jamais abolirá o acaso, palavras enfileiradas no branco do papel não aprisionarão o Espírito. Mallarmé, eternizando seu tédio naquele poema, queria legar ao mundo um mapa para o abismo, presenteando-nos com um livro que dizesse tudo sobre todas as coisas, tornando tudo velho no mesmo instante em que fosse lido.

Ser o maior estraga-prazeres de todos: eis a ambição mallarmaica e de tantos outros que, naquele estranho século XIX, queriam pôr um fim à História. Graças a Deus, o universo não cabe em um poema.

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É nesse espírito que recordo aquela palavra deplorável que Jadis, a vilã das Crônicas de Nárnia, pronunciou. Para os que não leram os livros de C. S. Lewis, essa tal palavra, uma vez que é dita, destrói todas as vidas do mundo, menos a dela. É uma das fantasias cabalistíscas mais tenebrosas que eu li. Já ouvi palavras que me provocaram o desejo de ser lançado ao nada, palavras que possuíam um poder parecido com o da vilã, anulando, mesmo que por um tempo, todas as possiblidades futuras e passadas, arrancando da existência o seu significado. Afinal, é só em contato com o outro que captamos o sentido de nossas vidas.

Chão de estrelas

MelancholiaE lá vai um spoiler violento para bagunçar o dia: não é possível escapar de Deus.

Penso nos físicos atuais destrinchando o universo. Em especial, penso nos ateístas. Imagino um deles descobrindo algo antes não percebido, ou apenas intuído, ou cogitado porém logo depois descartado por ser demais bizonho. Ele pode ter duas atitudes: orgulho pela descoberta, ou espanto e admiração pela poderosa capacidade do Universo em se renovar sempre.

A primeira atitude, como todo ato de orgulho, o afasta de Deus; a segunda o aproxima.

Os sentimentos não precisam ser excludentes: o sujeito pode, no mesmo momento em que pensa nas mulheres, fama e dinheiro que a glória da descoberta trará, sentir-se feliz pelo universo ser tão espantoso. Na outra ponta da curva do gráfico, temos o senhor tão empolgado que se sente um pouco entristecido por não poder “dar um abraço” no universo, por este ser uma inesgotável fonte de maravilhamentos — o sentimento aqui pode ser o do esteta, mas, como Deus está sempre de tocaia (also sprach Riobaldo), o belo pode atrair ao sumo Bem e à Verdade, que são — outro spoiler — a mesma Cousa –; liga pro melhor amigo pra contar como o universo deixou-se por descuido revelar-se, sentindo-se um jovem preceptor de romance do século XIX ao ver um pedaço de um pé nu insinuado pelo farfalhar de saias de uma senhora recatada*, mas, no fim da noite, passada a euforia, enquanto vai pegando no sono, visualiza seu nome estampado em uma revista científica — a atitude adolescente de quem fica com a menina mais desejada da escola e sai contando para todos, e nesse contar sente mais prazer do que no possuir.

A atitude de ver o universo como uma mulher coquete já é uma porta para um panteísmo sergueiano, ou, para sermos mais contemporâneos e menos bobildos na escolha das referências, o panteísmo gnóstico representado por Kirsten Durst no filme Melancholia, em papel de uma vestal do niilismo, nua em pelo, tentando ser fecundada pelo planeta estéril que se aproxima da Terra.

Há uma terceira atitude. Agradecer. Ao universo? Pode ser. E se? Não, ‘pera.

Há, na suprema inutilidade da existência de tantos encantos um sentimento de que, se o cientista ateu deduzir que há um Ser por trás disso tudo que aí está, a revolta gnóstica dele o levaria a reconhecer um sadismo injustificável na criação de uma humanidade tão imperfeita, um esmero sem sentido no ato de espalhar galáxias pelo vazio. O sentimento seria o mesmo do refrão do maior de nossos tomistas, Jorge Ben: “Há seis mil anos que o homem vive feliz/ Fazendo guerra e asneiras/ Há seis mil anos que Deus perde tempo/ Fazendo flores e estrelas.” Ao maravilhar-se com o universo, o cientista louva a Deus, sem o saber; mas ao não reconhecer no vizinho chato, no músico de câmara ou no menino cheirando cola o mesmo amor criativo, ele quebra a criação no meio. Não consegue entender como um pé de moça saiu da mesma Mente que criou uma estrela de diamante (talvez um cientista podólatra, talvez, descontando a lente distorcida do fetichismo).

(e que se possa investigar algo impessoal como as galáxias sem o devido temor e reverência a Deus sem muitos prejuízos, faz parte do espírito dos tempos, já não nos estranha. Mas destrinchar o dinamismo da psiquê humana como se se estivesse desmontando um carro, sem o senso do sagrado, — não, não estou falando nas proibições religiosas de dissecar um cadáver, que adiaram o desenvolvimento da ciência da anatomia, nem de Jung, escondendo uma demonologia sob a capa de uma psicologia clínica — é deveras ofensivo, e atenta à dignidade do doente.)

Em qualquer forma que se imagine Deus, sempre estaremos distantes do que Ele realmente é. Por isso a novidade maior da Revelação em Cristo, a de que só podemos conhecer a Deus pelo amor a uma Pessoa.

A primeira, e talvez a única vez, que consegui “sentir o peso” do que significa viver na presença de um Deus a conhecer cada um de nossos pensamentos deu-se quando li que muito se estuda teologia sem a consciência de que o “objeto” (que é o único ser que se pode chamar propriamente de Sujeito) do estudo está acompanhando suas dúvidas, indagações e conclusões — acho que foi o Rosenstock-Huessy quem o disse. Do que se conclui que estudar aquele que é considerado por Aristóteles o mais alto dos saberes só pode se dar em postura de oração. Daí você vê quão estúpido é aquele clichê que defende que só pode praticar teologia quem for ateu. Mas acaba que os estudiosos (e eu me incluo entre eles, ainda que como diletante) prosseguem suas leituras e meditações como os dois peixinhos confusos daquela parábola que, interpelados por um peixe mais velho que lhes falava sobre água, não sabiam o que esta é.

*Alguém aqui já se sentiu angustiado por não poder beijar um movimento feminino? Angustiado mesmo, assim, triste como uma canção qualquer nota da Legião Urbana? Ou só eu que senti isso? Sou doido?**

**das grandes perdas de nosso tempo, uma delas foi essa, a explosão emotiva que a simples visão de uma nuca, um pé ou um braço (vide o Machado de Assis) provocava, enriquecendo o dia. Ou não. Uma cena de O planeta do Sr. Sammler, entre tantas cenas memoráveis deste esplêndido romance de Saul Bellow, firmou-se em minha memória: um senhor de meia-idade, nos anos 60, sente um sofrimento enorme por ver tantos braços nus pelas ruas, como antes não existia, devido à diminuição das quantidades de panos das roupas, e não poder tocar em nenhum deles. Braços! O diálogo em que o personagem exprime sua dor ao amigo é de um ridículo atroz, mas poucas vezes um romancista me fez sentir dó de um ente ficcional como Saul Bellow fez.

Do que pode nos dar o imprevisto

Deixo para trás o tom de quem já viu de tudo, de quem vive a lamentar o exílio na babilônia. O velho do restelo escorregou no cais, bateu a cabeça na borda e afogou-se.

O que há agora é o caminho.

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Do método: deixar-se impregnar pelo poema ou romance que o acompanha no momento, e perceber como, tenuemente, as coisas ao seu redor vão se transfigurando, de um modo dialético, através dos símbolos do livro.

Por exemplo, com os Lusíadas, uma obsessão que vai se firmando. A operação transfiguradora não consiste só em sentir o sal que há no vento com outro gosto que não o familiar. Não é só o esbarrar pelas esquinas com monstros convertidos em pedra pelos numes, chorando amores perdidos, enquanto tentam atravancar, ressentidos, o seu caminho. Nem o ver na amada a ninfa do mar que o leva a sentir a pobre ilha em que se mora como se fosse a Ilha dos Amores, quando você enfim compreende com toda as forças porque a linguagem bíblica identifica amar e conhecer. Ou dar-se conta de que sua alma está, como as almas dos navegantes lusitanos, sendo disputada por forças invisíveis: por Vênus, símbolo do amor que conduz à unidade do Ser, e por Baco, símbolo da explosão de paixões desordenadas e contraditórias que dispersam e fragmentam o seu psiquismo.

É tudo isso sim, mas é algo aquém, e portanto mais próximo, mais vital, sem o qual nem se pode se dar conta dessas realidades presentes em você e ao seu redor.

É, por exemplo, ver um Mario Ferreira dos Santos aberto ali na mesa. Uma vez que a vocação filosófica é despertada, não dá para voltar atrás, por mais que a falta de traquejo se insinue sempre. O seu tratado de Lógica e Dialéctica está lá, e você se viu navegando aos poucos pelo nevoeiro denso de conceitos, abstrações e esquemas intelectivos, as muitas distinções dos problemas. Lutando contra o desânimo e a preguiça, você dá-se conta de repente do que é prometido, e aí você avança com alegria, a dificuldade até diminui. Os conceitos deixam de trazer à mente a imagem de florestas petrificadas, ou de carcaças de boi abandonadas no areal de um campo baldio. Você vai se dando conta da riqueza da realidade que lhe rodeia, realidade essa sufocada pela ideologia (e eu nem estou falando das falsificações do Ser engendradas pelas esquerdas, há muito exorcizadas), com esse método filosófico que se preocupa com a dialética que há entre o conhecido e o desconhecido nas coisas, que busca superar e sintetizar em uma visão concreta os aspectos eidéticos (as idéias), fáticos (a experiência) e páticos (as emoções e os afetos) no que se conhece. Espírito, vida e coração integrados.

Uma propaganda forte dos esotéricos, ao mesmo tempo em que um racionalismo crescente foi ganhando terreno no catolicismo, ambos os movimentos a ocorrer do século XVIII pra cá, fizeram com que nós tivéssemos esquecido da idéia de que uma solidariedade entre os fatos da existência, uma harmonia de intenções e acasos por trás da vida do homem no mundo, também é reconhecida pelos católicos. Tudo é símbolo, tudo remete ao ato criador de Deus e à Paixão de seu Filho.

Por isso, não é só que Os Lusíadas seja uma jornada de conhecimento e amor — pois o fim da viagem de Vasco da Gama não se dá com a conquista das terras incultas para a Coroa, mas com a visão mística da máquina do mundo revelada pela ninfa Tétis. É também que a filosofia, em suas origens gregas, como bem ensinou Voegelin, tinha por explícitos os movimentos tensionais de todo empreendimento filosófico: a zetesis (busca), a kinesis (ser impelido a buscar) e o nous (onde os movimentos dão-se na alma). E vai além do fato de que Mario foi sujeito de uma cultura que tem em Os Lusíadas o seu Antigo Testamento secular, de que a aventura narrada por Camões esteja enraizada no mais fundo de nossa alma luso-brasileira. Mario, tão tributário dos filósofos ibéricos contemporâneos de Camões.

É tudo isso confluindo para um movimento mais íntimo, quando você está prestes a dar o maior passo de sua vida e encontra este aviso do Mario, após vê-lo passar a maior parte do tratado apresentando as categorias principais do seu pensamento e de seu método, e você achando meio nerd esse sentimento de filosofia enquanto jornada, uma exaltação do imaginário, só que não, é assim mesmo, e aí você sente, mais uma vez, aquele outro cheiro salino no vento:

Lembremo-nos de Schiller, quando nos disse que a beleza da viagem estava na viagem e não no ponto de chegada. Sejamos esses viajores incansáveis, anelantes de certeza. Não façamos das nossas impossibilidades a nossa angústia. Saibamos viver a beleza dos caminhos que percorremos e não interrompamos a nossa viagem porque não sabemos onde iremos chegar. Que seja imprevisto nosso anelo. Talvez nos espere, nas dobras do caminho, o imprevisto. E que nos poderá dar ele ainda? Talvez tudo quanto a dúvida muitas vezes nega que será nosso.