Do que pode nos dar o imprevisto

Deixo para trás o tom de quem já viu de tudo, de quem vive a lamentar o exílio na babilônia. O velho do restelo escorregou no cais, bateu a cabeça na borda e afogou-se.

O que há agora é o caminho.

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Do método: deixar-se impregnar pelo poema ou romance que o acompanha no momento, e perceber como, tenuemente, as coisas ao seu redor vão se transfigurando, de um modo dialético, através dos símbolos do livro.

Por exemplo, com os Lusíadas, uma obsessão que vai se firmando. A operação transfiguradora não consiste só em sentir o sal que há no vento com outro gosto que não o familiar. Não é só o esbarrar pelas esquinas com monstros convertidos em pedra pelos numes, chorando amores perdidos, enquanto tentam atravancar, ressentidos, o seu caminho. Nem o ver na amada a ninfa do mar que o leva a sentir a pobre ilha em que se mora como se fosse a Ilha dos Amores, quando você enfim compreende com toda as forças porque a linguagem bíblica identifica amar e conhecer. Ou dar-se conta de que sua alma está, como as almas dos navegantes lusitanos, sendo disputada por forças invisíveis: por Vênus, símbolo do amor que conduz à unidade do Ser, e por Baco, símbolo da explosão de paixões desordenadas e contraditórias que dispersam e fragmentam o seu psiquismo.

É tudo isso sim, mas é algo aquém, e portanto mais próximo, mais vital, sem o qual nem se pode se dar conta dessas realidades presentes em você e ao seu redor.

É, por exemplo, ver um Mario Ferreira dos Santos aberto ali na mesa. Uma vez que a vocação filosófica é despertada, não dá para voltar atrás, por mais que a falta de traquejo se insinue sempre. O seu tratado de Lógica e Dialéctica está lá, e você se viu navegando aos poucos pelo nevoeiro denso de conceitos, abstrações e esquemas intelectivos, as muitas distinções dos problemas. Lutando contra o desânimo e a preguiça, você dá-se conta de repente do que é prometido, e aí você avança com alegria, a dificuldade até diminui. Os conceitos deixam de trazer à mente a imagem de florestas petrificadas, ou de carcaças de boi abandonadas no areal de um campo baldio. Você vai se dando conta da riqueza da realidade que lhe rodeia, realidade essa sufocada pela ideologia (e eu nem estou falando das falsificações do Ser engendradas pelas esquerdas, há muito exorcizadas), com esse método filosófico que se preocupa com a dialética que há entre o conhecido e o desconhecido nas coisas, que busca superar e sintetizar em uma visão concreta os aspectos eidéticos (as idéias), fáticos (a experiência) e páticos (as emoções e os afetos) no que se conhece. Espírito, vida e coração integrados.

Uma propaganda forte dos esotéricos, ao mesmo tempo em que um racionalismo crescente foi ganhando terreno no catolicismo, ambos os movimentos a ocorrer do século XVIII pra cá, fizeram com que nós tivéssemos esquecido da idéia de que uma solidariedade entre os fatos da existência, uma harmonia de intenções e acasos por trás da vida do homem no mundo, também é reconhecida pelos católicos. Tudo é símbolo, tudo remete ao ato criador de Deus e à Paixão de seu Filho.

Por isso, não é só que Os Lusíadas seja uma jornada de conhecimento e amor — pois o fim da viagem de Vasco da Gama não se dá com a conquista das terras incultas para a Coroa, mas com a visão mística da máquina do mundo revelada pela ninfa Tétis. É também que a filosofia, em suas origens gregas, como bem ensinou Voegelin, tinha por explícitos os movimentos tensionais de todo empreendimento filosófico: a zetesis (busca), a kinesis (ser impelido a buscar) e o nous (onde os movimentos dão-se na alma). E vai além do fato de que Mario foi sujeito de uma cultura que tem em Os Lusíadas o seu Antigo Testamento secular, de que a aventura narrada por Camões esteja enraizada no mais fundo de nossa alma luso-brasileira. Mario, tão tributário dos filósofos ibéricos contemporâneos de Camões.

É tudo isso confluindo para um movimento mais íntimo, quando você está prestes a dar o maior passo de sua vida e encontra este aviso do Mario, após vê-lo passar a maior parte do tratado apresentando as categorias principais do seu pensamento e de seu método, e você achando meio nerd esse sentimento de filosofia enquanto jornada, uma exaltação do imaginário, só que não, é assim mesmo, e aí você sente, mais uma vez, aquele outro cheiro salino no vento:

Lembremo-nos de Schiller, quando nos disse que a beleza da viagem estava na viagem e não no ponto de chegada. Sejamos esses viajores incansáveis, anelantes de certeza. Não façamos das nossas impossibilidades a nossa angústia. Saibamos viver a beleza dos caminhos que percorremos e não interrompamos a nossa viagem porque não sabemos onde iremos chegar. Que seja imprevisto nosso anelo. Talvez nos espere, nas dobras do caminho, o imprevisto. E que nos poderá dar ele ainda? Talvez tudo quanto a dúvida muitas vezes nega que será nosso.

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