Chão de estrelas

MelancholiaE lá vai um spoiler violento para bagunçar o dia: não é possível escapar de Deus.

Penso nos físicos atuais destrinchando o universo. Em especial, penso nos ateístas. Imagino um deles descobrindo algo antes não percebido, ou apenas intuído, ou cogitado porém logo depois descartado por ser demais bizonho. Ele pode ter duas atitudes: orgulho pela descoberta, ou espanto e admiração pela poderosa capacidade do Universo em se renovar sempre.

A primeira atitude, como todo ato de orgulho, o afasta de Deus; a segunda o aproxima.

Os sentimentos não precisam ser excludentes: o sujeito pode, no mesmo momento em que pensa nas mulheres, fama e dinheiro que a glória da descoberta trará, sentir-se feliz pelo universo ser tão espantoso. Na outra ponta da curva do gráfico, temos o senhor tão empolgado que se sente um pouco entristecido por não poder “dar um abraço” no universo, por este ser uma inesgotável fonte de maravilhamentos — o sentimento aqui pode ser o do esteta, mas, como Deus está sempre de tocaia (also sprach Riobaldo), o belo pode atrair ao sumo Bem e à Verdade, que são — outro spoiler — a mesma Cousa –; liga pro melhor amigo pra contar como o universo deixou-se por descuido revelar-se, sentindo-se um jovem preceptor de romance do século XIX ao ver um pedaço de um pé nu insinuado pelo farfalhar de saias de uma senhora recatada*, mas, no fim da noite, passada a euforia, enquanto vai pegando no sono, visualiza seu nome estampado em uma revista científica — a atitude adolescente de quem fica com a menina mais desejada da escola e sai contando para todos, e nesse contar sente mais prazer do que no possuir.

A atitude de ver o universo como uma mulher coquete já é uma porta para um panteísmo sergueiano, ou, para sermos mais contemporâneos e menos bobildos na escolha das referências, o panteísmo gnóstico representado por Kirsten Durst no filme Melancholia, em papel de uma vestal do niilismo, nua em pelo, tentando ser fecundada pelo planeta estéril que se aproxima da Terra.

Há uma terceira atitude. Agradecer. Ao universo? Pode ser. E se? Não, ‘pera.

Há, na suprema inutilidade da existência de tantos encantos um sentimento de que, se o cientista ateu deduzir que há um Ser por trás disso tudo que aí está, a revolta gnóstica dele o levaria a reconhecer um sadismo injustificável na criação de uma humanidade tão imperfeita, um esmero sem sentido no ato de espalhar galáxias pelo vazio. O sentimento seria o mesmo do refrão do maior de nossos tomistas, Jorge Ben: “Há seis mil anos que o homem vive feliz/ Fazendo guerra e asneiras/ Há seis mil anos que Deus perde tempo/ Fazendo flores e estrelas.” Ao maravilhar-se com o universo, o cientista louva a Deus, sem o saber; mas ao não reconhecer no vizinho chato, no músico de câmara ou no menino cheirando cola o mesmo amor criativo, ele quebra a criação no meio. Não consegue entender como um pé de moça saiu da mesma Mente que criou uma estrela de diamante (talvez um cientista podólatra, talvez, descontando a lente distorcida do fetichismo).

(e que se possa investigar algo impessoal como as galáxias sem o devido temor e reverência a Deus sem muitos prejuízos, faz parte do espírito dos tempos, já não nos estranha. Mas destrinchar o dinamismo da psiquê humana como se se estivesse desmontando um carro, sem o senso do sagrado, — não, não estou falando nas proibições religiosas de dissecar um cadáver, que adiaram o desenvolvimento da ciência da anatomia, nem de Jung, escondendo uma demonologia sob a capa de uma psicologia clínica — é deveras ofensivo, e atenta à dignidade do doente.)

Em qualquer forma que se imagine Deus, sempre estaremos distantes do que Ele realmente é. Por isso a novidade maior da Revelação em Cristo, a de que só podemos conhecer a Deus pelo amor a uma Pessoa.

A primeira, e talvez a única vez, que consegui “sentir o peso” do que significa viver na presença de um Deus a conhecer cada um de nossos pensamentos deu-se quando li que muito se estuda teologia sem a consciência de que o “objeto” (que é o único ser que se pode chamar propriamente de Sujeito) do estudo está acompanhando suas dúvidas, indagações e conclusões — acho que foi o Rosenstock-Huessy quem o disse. Do que se conclui que estudar aquele que é considerado por Aristóteles o mais alto dos saberes só pode se dar em postura de oração. Daí você vê quão estúpido é aquele clichê que defende que só pode praticar teologia quem for ateu. Mas acaba que os estudiosos (e eu me incluo entre eles, ainda que como diletante) prosseguem suas leituras e meditações como os dois peixinhos confusos daquela parábola que, interpelados por um peixe mais velho que lhes falava sobre água, não sabiam o que esta é.

*Alguém aqui já se sentiu angustiado por não poder beijar um movimento feminino? Angustiado mesmo, assim, triste como uma canção qualquer nota da Legião Urbana? Ou só eu que senti isso? Sou doido?**

**das grandes perdas de nosso tempo, uma delas foi essa, a explosão emotiva que a simples visão de uma nuca, um pé ou um braço (vide o Machado de Assis) provocava, enriquecendo o dia. Ou não. Uma cena de O planeta do Sr. Sammler, entre tantas cenas memoráveis deste esplêndido romance de Saul Bellow, firmou-se em minha memória: um senhor de meia-idade, nos anos 60, sente um sofrimento enorme por ver tantos braços nus pelas ruas, como antes não existia, devido à diminuição das quantidades de panos das roupas, e não poder tocar em nenhum deles. Braços! O diálogo em que o personagem exprime sua dor ao amigo é de um ridículo atroz, mas poucas vezes um romancista me fez sentir dó de um ente ficcional como Saul Bellow fez.

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