Désolé par les cruels espoirs

Um dos aspectos essenciais da Criação, que se mostra especialmente fecundo na aventura humana, é a sua inesgotabilidade, sua constante renovação. Nota-se esse aspecto ante a alegria que se tem, como um frêmito que é união de prazer e de alívio, quando ouvimos respondida uma dúvida fulcral sobre nossa existência. E quando essa dúvida é resolvida abrindo-nos a um universo maior de mistério e novidade, a alegria já não tem mais o seu componente de alívio: é pura abertura. É como um grito de uma criança a brincar no meio da manhã – aquele grito que James Joyce, o irlandês coletor de epifanias, identificou com o Absoluto.

É um deleite infantil, e é infantil no que de melhor essa palavra faz refluir na alma de quem a ouve. Saber que o que nós amamos nunca deixará de nos surpreender é um belo consolo. Quem se dispõe a amar a Criação jamais será devorado pelo tédio, essa ratazana banguela.

Infantil era também uma angústia de minha adolescência, quando constatei com tristeza que no Céu não leremos romances. Apaixonado por aquelas obras fascinantes (Doutor Fausto, Enquanto Agonizo, O Morro dos Ventos Uivantes, Grande Sertão: Veredas, Ulysses, Orlando, Cidades Invisíveis, entre tantos outos) que eu descobria em algumas bibliotecas da ilha, via diante de mim uma universo inabarcável. Senti uma certa tristeza ante o infinito que ser-me-ia negado pela morte.

Parece um sentimento meio tolo. No entanto, vi-o compartilhado com Harold Bloom. O crítico judeu, em um ensaio sobre Santo Agostinho, o homem que fez da leitura um caminho para a santidade, exprimiu o ponto cego de nossas paixões: the angels need to read, but we have to.

Pena que nem todo mundo relaciona-se assim com o infinito. Há algum tempo, um amigo mostrou-se disposto a estudar sobre a Igreja, e pediu-me algumas recomendações bibliográficas. Por alto, fiz uma lista do que era necessário conhecer antes de dar palpites sobre o problema que o incomodava. Recomendei-lhe o óbvio: vidas dos principais santos, o catecismo, a patrística, documentos de alguns concílios, teologia, certas encíclicas e uma historiografia básica que dê conta dos dois mil anos da caminhada da Igreja Peregrina. Esperando uma bibliografia pequena e específica, deixou passar pequena tristeza ao contabilizar o número de livros, enquanto calculava o pouco tempo que teria para apressar essas leituras todas. Ele estava“aguniado”, como dizemos aqui em nossa terra, para começar a escrever logo.

Eu só pude incentivá-lo tentando transmitir a minha alegria por saber que até o fim dos meus dias ainda terei o que aprender. Pois morrerei sem ter esgotado a biblioteca de meus desejos. Quando releio aquele verso de Mallarmé, “a carne é triste, sim, e eu li todos os livros” (trad. Augusto de Campos), não me reconheço nesse desabafo. A curiosidade é um dos revigorantes mais fortes para a alma, não nos convém matá-la cedo.

Mallarmé produziu a sua obra sob a sombra de um projeto utópico: esgotar o mundo em um livro totalizante. Não só os outros livros tornam-se-iam inúteis, mas o próprio universo. Era um projeto que fatalmente daria em fracasso. Se um lance de dados jamais abolirá o acaso, palavras enfileiradas no branco do papel não aprisionarão o Espírito. Mallarmé, eternizando seu tédio naquele poema, queria legar ao mundo um mapa para o abismo, presenteando-nos com um livro que dizesse tudo sobre todas as coisas, tornando tudo velho no mesmo instante em que fosse lido.

Ser o maior estraga-prazeres de todos: eis a ambição mallarmaica e de tantos outros que, naquele estranho século XIX, queriam pôr um fim à História. Graças a Deus, o universo não cabe em um poema.

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É nesse espírito que recordo aquela palavra deplorável que Jadis, a vilã das Crônicas de Nárnia, pronunciou. Para os que não leram os livros de C. S. Lewis, essa tal palavra, uma vez que é dita, destrói todas as vidas do mundo, menos a dela. É uma das fantasias cabalistíscas mais tenebrosas que eu li. Já ouvi palavras que me provocaram o desejo de ser lançado ao nada, palavras que possuíam um poder parecido com o da vilã, anulando, mesmo que por um tempo, todas as possiblidades futuras e passadas, arrancando da existência o seu significado. Afinal, é só em contato com o outro que captamos o sentido de nossas vidas.

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