A morte não é o fim

hc 1Do muito que conversei nos últimos meses sobre as origens e fins do matrimônio, a sentença que mais repeti, porque mais me calou pesado da primeira vez que ouvi, foi esta: a mulher tem o dom de humanizar o homem. Um interesse por estudos do simbolismo tradicional de todos os povos (Mircea Eliade, René Guénon, Julius Evola, e, em especial, um poema de Ângelo Monteiro em O Ignorado) poderia me conduzir aqui em uma série de ilustrações para esse fato. Mas o que me veio com mais força nas últimas semanas é a temporada recente do seriado House of Cards — produzido por David Fincher — quando notei que a série deixou de ser, pelo menos por enquanto, uma excelente obra de ficção política para tocar em outros temas trabalhados anteriormente no sub-texto.

Se a primeira temporada focava nas relações do poder político com a imprensa, e na segunda a submissão do público pelos donos do capital, na terceira vimos Frank Underwood (um Kevin Spacey incorporado pelo demônio do cinismo), antes um abismo de poder, engolindo tudo e todos para seus planos, agora sendo acuado por todos os lados, sem conseguir exercer suas habilidades de manipulação. Essa mudança foi frustrante para quem, como eu, foi cativado pela abordagem da série sobre o poder. As expectativas cegaram-me um pouco ante outras riquezas, como os recursos metalingüísticos explorados pelos roteiristas para narrar a degradação do casamento de Frank e Claire Underwood (o papel da vida de Robin Wright, perfeita nessa releitura da Lady MacBeth), e que, só na season finale, revelaram-se como o triunfo da temporada.

Frank, obcecado por sua ambição, não conseguia enxergar por si próprio o quanto sua carreira até a Casa Branca devia a Claire. É a arte que tira as escamas de seus olhos em alguns momentos, mas sempre depois ele voltava a enxergar-se apenas a si próprio.

Um desses instantes dá-se no meu episódio favorito, aquele em que monges budistas são enviados pelo governo do Tibet à Casa Branca por motivo de intercâmbio cultural. A missão deles: desenhar ritualmente, em um dos salões da sede do governo, uma mandala. Em postura piedosa, entre cânticos e mantras, raspando a tinta em pó em uma mesa, de forma lenta, meditada, tão vagaroso que durou um mês. O casal estava absorto nas crises do governo, e não acompanharam com a devida atenção a feitura do desenho. Eles até chegam a perceber como vinham a dar as costas àquilo que é essencial em suas vidas: as pequenas coisas, as belezas que surgem sem aviso, a própria relação amorosa dos dois deslocada para o segundo plano. Perceberam o afastamento quando foram postos diante de algo que representava o contrário: um símbolo religioso, cujo fim é o conhecimento do geral, das verdades eternas, do plano supranatural onde os princípios estão acima dos acidentes e erros da vida. Os monges, no cume do rito, sopraram a mandala, apagaram-na, restando nada além de reproduções fotográficas. O sublime tornado efêmero, símbolo de que podemos alcançar essas verdades na vida aqui, mas que podem escapar facilmente de nossas mãos se não as absorvemos.

O mesmo episódio é entremeado com uma renovação de votos matrimoniais do casal em uma cerimônia religiosa. Chegamos a crer que foram despertados. Mas os ritos não bastam sem a vivência concreta das promessas atualizadas pelo sacramento.

hc 2A aparição de um escritor contratado por Frank Underwood rende meditações de outra ordem, mas que complementam o que é representado no episódio comentado. Frank quer que ele escreva uma livro-propaganda para alavancar um programa de empregos que sofre resistência de seu partido. O autor, famoso por um best-seller, não quer saber do programa. Ele quer contar a vida de Frank Underwood. “Nenhum escritor de respeito pode resistir a uma boa história, assim como nenhum político pode resistir a fazer promessas que não pode cumprir”, disse Frank. Ele retorce a sua história pessoal para o literato, mas não o convence, e o escritor, usando de seu dom de encontrar o valor de detalhes sufocados pela desatenção do dia-a-dia, o olhar treinado na investigação do real que, como um detetive, caça indícios para descobrir a trama do mistério em que é colocado, nota que, sem a Claire, Frank é inexistente. A partir de então, o escritor entrevistou-a, e, em poucas conversas, tudo ficou claro para ela, que também recalcava o fato de que Frank Underwood era obra feita pelas suas mãos.

Daí tudo muda. Ou não? Esperemos a próxima temporada.

O ponto que quero chamar a atenção não é sobre o casamento, sobre o que a série pode dizer sobre a essência perene do matrimônio, até porque nenhum dos personagens da série tem idéia do que um casamento significa, se aprendemos algo é por vias negativas. Exemplo maior é o do ativista gay que só sustenta um relacionamento morto por causa do sentido pseudo-político da agenda revolucionária – já que esse tipo de relação não possui os elementos que fazem a realidade chamada matrimônio, a saber: a promessa do sangue, a complementaridade do masculino com o feminino como forma de derrotar a dissolução do tempo através da vida fecundada que subsiste aos progenitores, e os meios de vencer os problemas da solidão e da superficialidade que uma relação fundamentada no impulso sexual acabam por enfrentar, como explica de forma definitiva Ronald Robson em artigo necessário do saudoso Ad Hominem.

O ponto é outro, o ponto é recordar os fins da cultura. A arte humaniza a humanidade. E tanto a arte religiosa quanto a arte secular moderna – em especial o romance – quando vivenciadas em conjunto aperfeiçoam essa capacidade. Lançam luzes sobre o mistério radical da existência, como faz a arte religiosa, ao mesmo tempo em que valoriza o acidental, o arbitrário, aquilo que, se é perdido, não voltará jamais e é portanto precioso, e precioso na medida do que sói ser valorizado, como faz a arte secular em seu melhor. Tiram-nos da confusão em que somos jogados a toda hora. Porque a inconsciência desses valores que o artista tem a missão de atualizar, essa inconsciência nos desumaniza, pois torna o homem escravo de seus instintos, animalizando-o, ou, no outro extremo, no caso de figuras demoníacas como Frank, põe-nos acima da humanidade no lugar de Deus. Se a cultura não nos põe sempre atualizados de que não somos nem apenas deuses (pecado do iluminismo e do idealismo alemão) nem apenas animais (pecado da pós-modernidade francesa e da cultura pop norte-americana), algo se queda violentamente, como o carro do Sol guiado por Faetonte ou os navios naufragados pelos cantos das sereias.

Não sabemos o quanto crescerá ou minguará a função do escritor na jornada do casal Underwood à vitória sobre o tempo, ambição maior do casal. Pois a luta contra o tempo é a agonia que os move: enquanto Frank quer derrotar o tempo, deixando uma marca para o futuro através de sua carreira política, atualizando o culto muito arcaico à deusa Fama, temos a angústia de Claire de não ter tido um filho e já estar nos anos finais de sua fertilidade, demonstrada várias vezes ao longo da série: em uma cena ela pergunta a Frank para quem eles deixariam tudo o que ergueram com tanto sangue. O imperativo de deixar um legado para que a morte não impeça que suas vidas tenham um sentido talvez seja o grande tema oculto da série.

(Bom lembrar que Claire também quer deixar um legado no campo das realizações políticas, gerando conflitos importantes com Frank.)

A arte ilumina, mesmo que com um só clarão fulgurante e efêmero; a nós cabe manter a chama acesa. Frank Underwood falseia sua vida ao seu biógrafo, manipulando os símbolos de acordo com seu projeto pessoal de poder, mas o artista desmonta a mentira, revelada plenamente quando Claire, fragilizada, vê-se incapacitada de lançar um olhar mentiroso sobre sua própria história.

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