Do amigo Agostinho

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Há na vida de Santo Agostinho uma série de imagens fulgurantes que, uma vez cristalizadas em suas Confissões, tornaram-se marcos permanentes pelos quais a humanidade pôde compreender os seus dramas interiores. Memória e consciência, tempo e eternidade, vida e morte, verdade é beleza. Deus. Algumas dessas imagens permanecem comigo desde a conversão: o tolle lege, quando sua angústia foi resolvida pela voz de uma criança e uma Bíblia; o sonho em que tentava esvaziar o oceano num buraco na areia, explicado por outra criança como uma alegoria para a impossibilidade da mente em abarcar s idéia da Trindade; a contemplação do céu estrelado junto à mãe, em que figurou-se os dois meios de se alcançar a ciência sagrada de Deus: em Santo Agostinho pela teologia, em Santa Mônica pela devoção das crianças e dos iletrados, dos simples de coração. Três imagens em que o tensionamento entre o racional e o intuitivo é explicitado.

Para o seu blog O Camponês, Sergio de Souza pediu a mim e a outros escritores que déssemos um testemunho sobre algum santo que mudou nossas vidas. Agostinho não foi o primeiro que me veio à mente. A vontade inicial foi de falar sobre Santa Teresa D’Ávila, a mística que levou o movimento de Santo Agostinho em suas Confissões a um nível mais alto e profundo, ao reconhecer não só Deus em sua história pessoal, mas a vê-lo em seu imo, no centro de sua alma, naquela linguagem magnífica de mulher crescida na Espanha: a Graça ora vista como água no poço, ora correndo como um ribeiro, ora caindo como chuva, ou a sua alma compreendida como um castelo de muitas moradas concêntricas, em que Deus tem seu trono na morada mais interna. Foi após ler a passagem do Livro da Vida, em que ela relatava uma de suas meditações freqüentes, vendo-se no Horto das Oliveiras e observando, de longe e escondida, a agonia de Jesus Cristo, que eu, então freqüentador da igreja Batista, fiquei interessado em lê-la por motivos literários – Teresa é uma das maiores cultoras da língua espanhola, na prosa e na poesia: seus versos arrebatados ajudaram o homem ibérico a exprimir o amor não somente sobrenatural, o físico também – e foi assim que fui pego pela Igreja Católica.

Outras devoções tiveram lugar depois dessa (re)conquista: Padre Pio, São Luís de Montfort, São Josemaria Escrivá, São Pedro, São Francisco de Assis, e agora, neste mês em que será beatificado o pai de Santa Teresinha, vale lembrar Luís de Martin. Teresinha inclusive teve um impacto terrível em mim. Fui atraído pelo catolicismo, inicialmente, pela mística dos Santos Padres, de Santa Catarina de Siena, de Santa Teresa, da Nuvem do Não-Conhecimento. Jamais concebi catolicismo como um conjunto de dogmas: catolicismo é o meio para que a Presença de Deus possa crescer ao nosso redor e em nosso interior para, utilizando uma expressão de Hugo de São Vitor, restaurar a imagem do Criador na gente, esmaecida que é pelo pecado original, e vivermos de forma plena a amizade com Ele. Mas essa pequena moça de Lisiers, em sua candura infantil, mostrou-me o Pequeno Caminho, que, como uma luz em pântano mal-cheiroso, revelou o quanto a idéia que se pode fazer de si é distorcida pelo egoísmo, e essa idéia mal criada pertuba o conhecimento do Ser e das coisas, gerando o tipo de confusão que nos prende por vontade própria ao que nos destrói, ao mesmo tempo em que rejeitamos o que nos liberta.

Os santos me fascinavam pelo que tinham de heróicos e pelos seus milagres. Santo Agostinho, ao contrário, sempre me pareceu um igual. Seu desejo de conhecimento, sua paixão pelas mulheres e pelas farras em seus tempos de mundano, sua conversão tardia e, principalmente, a consciência da tensão entre o amor a si (que é também amor ao mundo) e o amor a Deus como percepção fundamental para que se possa construir qualquer conhecimento exato do ser humano. Em mim esses elementos não se deram, claro, tal e qual como em Agostinho. Lembro, conversando com um rapaz consagrado à Comunidade Shalom, a falar sobre o tanto que eu gostava do Bispo de Hipona, lembro que esse rapaz ressaltou minha busca pela Verdade como algo comum ao santo. Só depois notei que o que eu tinha era o medo da mentira e não amor à verdade: angústia ante à confusão de categorias e à falsificação gnóstica da realidade, que eram as colunas-mestras da contra-cultura que eu apreciei por tanto tempo. Ainda assim, Santo Agostinho deu-me algumas das ferramentas necessárias para perfazer esse caminho das Trevas à Luz.

(Perdoem-me se falo de mim ao escrever sobre um santo, mas, penso que assim, dando um ar de testemunho espiritual, faço jus à sua memória, e ressalto que a Cruz só faz sentido enquanto remodela a história pessoal de quem se encontra com o Crucificado.)

Assim como foi o amor à literatura o que me levou a comprar a edição do Livro da Vida, lançada há pouco pela Companhia das Letras, foi o interesse por filosofia da história o que me conduziu às estantes de Religião na Biblioteca da UFMA para locar as Confissões. Na época, começando a acompanhar o Olavo de Carvalho, aprendi que, para dar conta de uma verdadeira formação intelectual, não se pode ficar apenas à mercê dos bezerros de ouro do tempo. Recém-chegado à faculdade de História, sabia que não poderia começar a erguer um conhecimento da matéria apenas a partir de Walter Benjamin, Foucault e Hobbsbawn, pegando o caminho pelo fim. Enquanto os lia, com imenso proveito, para as cadeiras de teoria e método, complementava esses ideólogos com as bases: Heródoto, A Cidade de Deus, Declínio e Queda do Império Romano de Edward Gibbon, Outono da Idade Média de Huizinga, Helenismo de Toynbee. Se as discussões sobre a impossibilidade de se alcançar a verdade no discurso histórico chegavam ao limiar em que se questionava a existência da verdade, eu não consultava Nietzsche ou os estruturalistas, eu já pegava pesado e buscava o tratado sobre a Verdade, de Santo Tomás de Aquino, sem saber que os argumentos modernos contra a verdade já foram refutados, em suas essências, por Agostinho, mil anos antes em Contra Acadêmicos.

Há um exagero no pretenso conservadorismo brasileiro de achar que as faculdades de história são estranguladas por marxismo do início ao fim da graduação. Eu li, durante os quatro anos e meio do curso, apenas cinco páginas escritas por Marx e uma longa introdução sobre sua obra para Sociologia, em uma cadeira ampla o suficiente para que se chegasse a ler também sobre teóricos do neo-liberalismo (e não teóricos de esquerda batendo nessa linha sócio-econômica) e a interessantíssima teoria dos jogos. Com uma bolsa de estudos, pesquisei o teólogo da Contra-Reforma Francisco Suárez, através do método do cientista político liberal Quentin Skinner, e pude escrever uma monografia sobre Antônio Vieira sem precisar rebaixá-lo à visão menor de Bosi, dominante na academia, que não o estudou pelo que o grande filósofo moral português foi em sua época, mas para encaixá-lo em sua visão progressista da história.

Eu e uns amigos montamos um grupo de estudo de mitologia, capitaneado por Jonni Langer, excelso especialista em cultura viking, onde pudemos ler e escrever artigos à vontade sobre temas que deixaram perplexos alguns professores e alunos de mente encabrestada pela ideologia, que se perguntavam por que maranhenses como nós iriam se interessar pelo épico babilônico de Gilgamesh, pela Antígona de Sófocles, pela Batalha de Aljubarrota ou pela reconstrução da culinária nórdica medieval. A cegueira desse povo era tanta que não percebiam que seu próprio Estado vivia culturalmente em uma atmosfera medieval, a começar pela capital cujo nome era do grande rei cruzado, São Luis Rei de França. Um Estado em que alguns povos ainda esperam a volta de Dom Sebastião, em que uma versão seiscentista de Carlos Magno e os Doze Pares da França é livro sagrado em terreiros de culto afro-brasileiro de tambor de mina. O problema maior não era o marxismo, mas uma atualização de um mal que está presente em nossas elites desde que elas se formaram, não importando se de esquerda ou de direita: a sujeição beócia a todo modismo francês, só que agora na versão uspiana, em que os professores achavam que o pobre maranhense aqui não podia ir além do que a Fefeleche impunha como discurso para me libertar das forças opressoras do imperialismo, do patriarcalismo ou de qualquer outro desses bodes expiatórios soltos no deserto para justificar problemas que fugiam de seus horizontes da consciência.

Enfim, esse contato inicialmente intelectual foi o começo da amizade com o bispo africano. De algum modo as discussões em sala de aula descambavam do conhecimento histórico para o de suas bases ontognoseológicas, limite para o qual os professores não tinham ferramentas para nos ensinar a lidar, dada a natureza do curso. Não tínhamos como deslindar as raízes cabalistas em Benjamin e da escola de Frankfurt, ou a alquimia em Hegel, ou o nominalismo extremo em Foulcault, e assim éramos forçados a engolir acriticamente a ração que nos davam – graças a Olavo, que apresentou Voegelin à minha geração, eu pelo menos percebia que as modas intelectuais européias eram versões requentadas de cosmovisões gnósticas do medievo e da antigüidade. E Olavo, que estruturou seu seminário de filosofia pelo princípio do testemunho solitário diante de Deus, como visto em Agostinho, foi peça importante nessa jornada. Pois o que era o maniqueísmo e o estoicismo de Cícero na formação de Agostinho antes da conversão, foi para mim a salada cultural de hedonismo e niilismo pós-68, que eu absorvera antes de entrar em História, e que lá tornou-se mais gordurosa, graças ao projeto ideológico da universidade brasileira. Reconhecendo o que em meus hábitos, crenças e paixões foi moldado pela cultura do mundo, e, a partir de seus valores positivos agora orientados pela fé, enquanto abandonava os negativos, pude começar a ter um vislumbre da centralidade da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo como sentidos primeiros e últimos da existência. Tudo com a ajuda de uma crescente ampliação de horizontes culturais através do conhecimento não só da tradição européia, mas adentrando os orientes próximos e extremos. A filosofia de Agostinho ajudou-me a, portanto, me mover naquele caos e a não me deixar afundar.

Há um lugar-comum de que a humanidade é dividida em temperamentos platônicos e aristotélicos, os primeiros voltados para o divino e os segundos para a vida concreta, sem que em um não haja a exclusão das notas principais que há no outro. A versão católica desse fato é a de que há agostinianos e há tomistas. Li isso em Thomas Merton, um agostiniano, em suas próprias confissões, A Montanha dos Sete Patamares. Existem várias notas que definem um agostiniano: uma delas é a atração primeira pelo transcendental do Belo, a beleza do mundo e da arte como meios de se chegar a Deus, que é Ele próprio a Beleza, como é a Verdade e a Bondade. Por isso a necessidade de uma liturgia equilibrada, harmônica e voltada para o alto, ao contrário do grosso que é praticado no Brasil, que em alguns setores tende à exaltação de valores comunitaristas com forte viés político e sem a devida ressaltação de que a vida comum na Igreja é o mistério de uma humanidade vivendo no Corpo Místico de Cristo, enquanto que, em outros setores, o que decorre é um emocionalismo exagerado, alimentado através de músicas inspiradas na tradição sensualista protestante dos Estados Unidos: baterias, guitarras e cantos melosos, falando mais às sensações do corpo que ao espírito, os dois modos em sua horizontalidade prejudicando o movimento ascencional da liturgia, que, entre seus fins, tem o de tornar a realidade do Céu sensível na Terra. Qualidades essas tão bem encontradas no rico acervo da música gregoriana e do rito tridentino. Por isso também o sentido da vida como algo a ser vivido enquanto beleza. Por isso a necessidade de abandonar a visão esteticista da arte, em que a verdade é divorciada do belo, e repudiar com veemência grande parte do que é compreendido como cultura por nossa anti-elite – funk carioca, arte sacrílega, pornografia, grafite, a arquitetura moderna e anti-humana de um Niemeyer – como destruídores da consciência e da dignidade humana que realmente são.

Mas nada calou em mim tão alto, e me acompanhou nessa nova vida, em que vamos nos reconhecendo sempre fracos e necessitados da misericórdia de Deus, quanto a luta interna de Santo Agostinho contra os vícios. Queria ter aqui em mãos alguns cadernos que deixei na minha cidade natal, em que eu escrevera trechos em que Santo Agostinho falava sobre sua percepção de que existia nele como que duas almas, duas vontades lutando entre si: uma voltada para o mal que não queria fazer, outra para o Bem por que estava enamorado, mas não conseguia corresponder com toda sua vida. Poucas lições tão valiosas foram como essa em que ele disse que a virtude é feita da mesma matéria dos vícios, derrotando assim o maniqueísmo da juventude: a carne deveria ser purificada, e não negada. Os três inimigos da alma – o mundo, o diabo e a carne – convertidos em meios de ascensão – sendo que o domínio do diabo, príncipe deste mundo, é trocado pelo Reino de Deus, onde a verdadeira libertação pode ser encontrada.

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