Das fontes demoníacas da cultura

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“(…) a questão de saber se é possível traçar uma divisa clara, segura, entre o mundo nobremente pedagógico do espírito e aquele outro mundo dos espíritos, do qual só com perigo nos avizinhamos, faz decididamente, por demais decididamente, parte do meu tema. Que campo do humano, mesmo supondo que se trate do mais puro, do mais dignificantemente generoso, ficará totalmente inacessível ao influxo de forças infernais? Sim, cumpre até acrescentar: qual delas não necessitará nunca do fecundador contato com elas? Esse pensamente, que pode ser ventilado com propriedade inclusive por quem, por natureza, permaneça inteiramente distante de tudo quanto for demoníaco, restou-me de certos momentos de minha viagem de estudos – quase um ano e meio! – à Itália e à Grécia (…): quando do alto da Acrópole dirigia o olhar à Via Sacra, pela qual avançaram os mistos ornados com a testeira de alçafrão, o nome de Iaco nos lábios, e em seguida, quando me achava no próprio lugar de iniciação, na zona de Eubuleu, à beira da fenda plutônica, sobranceada de rochedos. Eis que pude intuir a plenitude da vitalidade que se expressa no enlevo iniciador da grecidade olímpica perante as divindades do abismo, e mais tarde, falando da cátedra de meu colégio, amiúde expliquei que a cultura consiste essencialmente na incorporação piedosa, ordenadora – quase que se poderia dizer: propiciatória – dos monstros da noite no culto dos deuses.”

Thomas Mann, Doutor Fausto. Tradução de Herbert Caro. Nova Fronteira, 2011.

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