BARBAROS INTRA MUROS!

“À ação negativista é preciso contrapor a ação positiva. É mister, contudo, que se tenha bem aguda a suspicácia necessária para perceber o que há de negativo e denunciá-lo. É mister que ponhamos nossa consciência alerta, e prestemos atenção a tudo quanto se faz de destrutivo. É mister ainda que atentemos para o que se apresenta de novo no mercado das idéias, e com acuidade captar o que traz de malicioso e negativo. E então ter a coragem de apontar o dedo para a chaga e denunciá-la. Titubear aqui é trair. Contemporizar é covardia. Nesse momento preciso em que se esclarece para nós a verdadeira intenção, nada nos deve impedir de aceitar o repto e enristar também nossas lanças e aceitar o combate.”

Mario Ferreira dos Santos, Invasão Vertical dos Bárbaros

Já soa distante o dia em que a entrevista do poeta Bruno Tolentino à Veja abriu uma rachadura no stablishment cultural brasileiro ao apontar o quanto absurda era a atenção dada à produção artística de um Caetano e um Gil da vida, e não soa distante porque a justa indignação foi esquecida, muito pelo contrário. A ladeira é longa, e quanto mais se desce, mais vertiginosa é a queda que se acelera, e chegamos ao ponto mórbido em que um órgão de fomentação à cultura premia a Waleska Popozuda por ela ter sido a sumidade mais citada pela juventude em uma redação do ENEM. O brado tolentiniano, “Devolvam meu Brasil de volta”, deixou de ser um apelo à recordação de um país que, de alguma forma, nunca conseguiu alcançar um “ser’, para soar como um lamúrio de desespero da mulher diante da possibilidade de um aborto.

E vamos a descer mais e mais. Um abismo atrai outro abismo. As reações contra os crimes que vem sendo cometidos contra o povo através de estratégias que visam corromper a educação nos mais variados níveis, da infantil à universitária, ainda estão tímidas. Notamos que um mal enorme acontece, mas não temos as palavras precisas para definir o mal e combatê-lo – lembremos que os exorcistas procuram saber o nome do demônio antes de tentar expulsá-lo – diante da presdigitações verbais que foram abraçadas pela mídia, como “direitos reprodutivos” para eufemizar a modalidade de assassinato conhecida como aborto, ou de que um homem, por fazer uma intervenção cirúrgica violenta e aplicações hormonais agressivas no corpo, deve ser considerado e tratado como uma mulher. São usos distorcidos da língua que estão descritos no romance 1984, e que vem sendo aplicados sem pudor por ativistas que se julgam libertárias, mas que apenas pavimentam o caminho da servidão descrito por George Orwell.

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Por isso a grande importância da republicação recente de Invasão Vertical dos Bárbaros, do filósofo Mario Ferreira dos Santos. Do mesmo modo que T S Eliot precisou definir cultura em um livro clássico, porque o público não sabia mais o que esta era (e ele dava como exemplo de incompreensão nada mais nada menos que a ONU, ponta de lança do projeto orwellliano, como podemos ver descrito em Poder Global, Religião Universal, do Monsenhor Sanahuja), Mario, devido à situação que ele via surgir, não só se dedicou à mesma tarefa de Eliot em uma obra de três volumes, a Filosofia e História da Cultura, como também escreveu uma peça polêmica para definir barbárie. Invasão Vertical dos Bárbaros, publicado pela É Realizações, é obra necessária porque dá as diretrizes para identificarmos os bárbaros que usurparam o papel de guias espirituais da nação, moldando pouco a pouco, desde a tomada das universidades, a alma do brasileiro a partir de sua confusão interior. A obra tem ainda um poder purgativo: ajuda-nos a reconhecer a barbárie no ambiente em que crescemos e nos criamos, com o que podemos expurgar o que absorvemos inconscientemente devido ao poderio que os bárbaros espalhados pelos jornais, editoras e universidades ajudaram a espalhar como um câncer.

Tomando uma expressão do político alemão Rathenau e dando um outro sentido que o pretendido por ele, Mario disse que uma civilização pode ser destruída por invasões bárbaras não só de fora, horizontais como as que aconteceram em Roma, mas também por dentro, verticalmente, através da escalada ao poder de indivíduos que não tinham as virtudes necessárias para estar no guiamento do povo – como também aconteceu em Roma. Essa falta de capacidade não é por um fator natural, mas por um fator de vontade: é a própria elite que escolheu não cultivar aquelas virtudes. E se a invasão horizontal dá-se mais pela guerra, a vertical se dá pela cultura – e lembremos de Santo Agostinho denunciando a queda abissal do nível dos acadêmicos como uma das causas da queda do império.

O leitor bem informado certamente lembrar-se-á de A Rebelião das Massas, de Ortega y Gasset, ensaio que complementa a peça de MFS em muitos pontos.

Mario previu muito do que a invasão geraria. A obra convida-nos a continuar este trabalho de denúncia e elencar o que não entrou em seu horizonte de consciência, algo que, se entrasse, não daria o tom positivo e esperançoso da obra. Uma simples passeata de feministas servindo de idiotas úteis para o PT, ou um seminário de estudantes de artes em que um uma mulher gorda e nua se lambuza de gordura, dão muitos subsídios para identificar como a bárbarie vem pôr abaixo toda a dignidade humana que há nessas pessoas.

Tivemos uma história da cultura brasileira recente, A Poeira da Glória, escrita pelo Martins Vasques da Cunha, a relatar os pontos cegos nos quais no espírito brasileiro deixaram-se abrir brechas para que o Besteirol se afirmasse como ato político. À maneira de Flaubert em Bovard & Pecuchet, um leitor da Invasão poderia escrever seu complemento, uma história brasileira da bárbarie. Vilém Flusser escreveu certa vez que um estudo do carnaval no Brasil daria uma contribuição filosófica original ao mundo, porque vivemos ao extremo o que a Europa ensaiava, em que a festa deixara de ser um intervalo na vida real para ser toda a vida, criando uma situação que, em vez de gerar uma era de ouro, fez enriquecer a indústria de anti-depressivos e livros de auto-ajuda. Um novo Febeapá, muito mais mórbido que aquele descrito por Stanislaw Ponte Preta, teria um fim parecido, mostrando as conseqüências advindas de se levar ao extremo as idéias que circularam na Europa Pós-Guerra, deslocadas do ambiente espiritual que as gerou sem devida reação ocorrida naqueles países, já que desde os anos 60 não se tem um pensamento contra-revolucionário, coisa que voltamos a ter apenas com Olavo de Carvalho. Tivemos muitos filhos bastardos de Sartre e Simone entre nós, mas quantos aprenderam com Camus?

E Olavo, não por acaso, foi o maior divulgador de Mario Ferreira dos Santos que este poderia ter.

Um artigo do tamanho deste não daria conta de todos os exemplos que confirmam essa invasão, mas a perda do sentido do papel da universidade e da missão dos artistas explica grande parte das origens dessa queda do Espírito entre nós. Cria da Igreja, a Universidade não deveria ter perdido o foco nas idéias sãs para se tornar a propulsora de erros. Tal inversão se deve muito ao abandono da busca das bases universalistas do saber, tendo em vista a visão concreta do homem, imagem de Deus que é parte animal e pouco menor que os anjos. A negação do que é a natureza humana a partir do Iluminismo preparou o caminho para as ideologias assassinas do século XX, o comunismo e o nazismo, gestadas todas nessas universidades.

Quem leu o Doutor Fausto, de Thomas Mann, viu como o que é gestado nas Idéias também ganha expressão artística analógica, expressões que tentaram sufocar o homem no homem, desumanizando-o. O brado de Adrian Leverkhunn, a poucos anos da ascenção e queda de Hitler, de que se devia abolir o que é bom e belo, tem muito que ver com a desconstrução da moral e da estética promovida pelos departamentos acadêmicos brasileiros nas últimas cinco décadas. O nazismo e o comunismo antigo foram derrotados politicamente, mas o ambiente espiritual que os gerou está por aí, nas perfomances inspiradas pela teoria queer ou em manobras de reengenharia social como as intervenções urbanas.

Um capitalismo utilitarista e que vê o homem apenas como possibilidade de lucro também contribui para a Grande Desgraça que Há de Vir. Há ovos de serpente por todos os cantos.

Tudo isso compete para que as possibilidades humanas que a civilização brasileira poderia promover não sejam promovidas: permanece-se em uma eterna adolescência estagnada, entregue às satisfações mais superficiais do corpo e do ego, onde a vitalidade é postiça e não mais livre como é livre a da infância. Vive-se em um estado de não-ser, de intervalo, de um não chegar nunca a nenhum lugar.

Mario Ferreira dos Santos tem uma visão histórica baseada em Vico, Spengler e Toynbee, pensando em termos de ciclos culturais que têm começo, meio e fim. É uma idéia abandonada hoje nas universidades, já que os intelectuais vêem com bons olhos o que era considerado como sintoma de decadência civilizacional por esses e outros pensadores. No entanto, todos estão concordes que o que se chama de Civilização Ocidental, nascida com a Revolução Francesa, laica e anti-cristã, baseada em uma idéia de direitos humanos universais que inverte a antropologia da filosofia perene, está em seus estertores. A Europa morre de desespero existencial e de terror, e pensar o papel do Brasil diante dos momentos finais do Velho Continente também foi tarefa de Mario. O Brasil é filho da Europa, por mais que o atual governo tente negar esse fato através de uma reforma dos ensinos de História que lime toda a Idade Média da consciência das próximas gerações.

O filósofo Mario Vieira de Mello enxergava uma missão alexandrina para o intelectual brasileiro. Desde que este nunca conseguiu alcançar um pensamento seu, poderia dedicar-se aos clássicos gregos e fecundar a discussão política do dia, criando enfim uma consciência ética em nosso país. E foi justamente isso que Mario Ferreira dos Santos fez com sua Filosofia Concreta, estudando, além de Platão, Heráclito, Parmênides e os pitagóricos, os escolásticos Santo Tomás de Aquino, Duns Scott e Francisco Suárez, considerando a filosofia moderna em diálogo com eles, e não contra eles.

A cultura européia elegeu a morte de Deus como a base teológica de sua existência, e os brasileiros não somos obrigados a seguir o declive junto com seus pais. Um tempo da morte de Deus não é um momento definitivo na História, como impõe o mito progressista dos nossos dias, que é a narrativa que defende todo o planeta está fadado a aceitar o ateísmo como fato incontornável. Como o sempre arguto Bento XVI, então apenas cardeal, reconheceu, um tempo do Deus ausente foi justamente o Sábado Morto, em que o Cristo, após morrer na cruz, desceu à Mansão dos Mortos para resgatar a humanidade, e no dia seguinte ressuscitava. Aqueles que não se desesperaram e velaram na madrugada, como Maria Madalena, foram os primeiros a ter notícia de que, enfim, Ele venceu a morte.

O estudo dos clássicos como coisa viva, e não como especialidade filológica que não deve influenciar a quem se entrega a essa tarefa, tal e qual defende as faculdades de filosofia brasileiras, é esse diálogo com os mortos, os poderosos mortos, na expressão de Harold Bloom, que pode nos ajudar a superar essa morte do espírito que o país vivencia.

Fica, assim, dada a missão.

“Alguns queixaram-se do tom veemente de nossas palavras, mas não esqueçamos que esta obra é obra de denúncia.

Lutemos pelo homem concreto. E o homem concreto é aquele que afirma o que nele há de maior e que o distingue dos animais; a vontade justa e culta, o entendimento claro e purificado, e o amor que se exalta na verdadeira caridade.

E tudo isso é realmente Cristo em nós.”

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