A alegria é a prova dos nove

Há no mito da transmigração das almas um sentido que aponta para algo de muito real. O mito é aquele que conta que o destino dos homens não se encerra com a morte; nós retornamos a este mundo, mas podemos retornar como moscas, bois, tigres ou águias, a depender do que fizermos com as possibilidades vitais que herdarmos ao sermos jogados pelo nascimento neste planetinha. É o mesmo sentido que há naquele outro mito sobre os heróis gregos que, chegada a morte, não iam para o Hades; tornavam-se estrelas. O leitor amigo lembrará de outras variantes, como aquelas narradas nas Metamorfoses de Ovídio, em que os personagens não precisavam morrer para que os conflitos de suas vidas ganhassem expressão simbólica na mutação para alguma forma animal. Pois, se o psicólogo Paul Diel estiver certo, o destino eterno dessas almas traduzem a resolução ou fracasso de algum conflito emocional, volitivo ou intelectual que elas sofriam.

Assim, transformar-se em cobra significa que se prefere sucumbir à vaidade em vez de transcender o amor próprio e agir em prol do bem comum; ganhar orelhas de asno significa que se abandonou a auto-escuta, estratégia que auxilia no reconhecimento dos próprios defeitos, para deleitar-se com os elogios dos aduladores, cujos ruídos borram a imagem que é feita de si. Por outro lado, transformar-se em onça significa que se soube domar e sublimar os instintos poderosos do sexo e da violência, que facilmente levam à dispersão e à fragmentação da psiquê, em favor da concentração das energias vitais para um objetivo nobre como uma guerra justa.

Tudo isso tem muito que ver com uma imagem que ouvi ser usada por uma moça para explicar como é o céu católico. Se tivermos a graça imerecida de mudar para lá, veremos os grandes santos da Tradição – um Santo Antão, um Santa Catarina de Siena, um Santo Inácio, um Santo Padre Pio – como oceanos de Graça em relação a nós, gotas d’água – e não sentiríamos invejas deles, muito pelo contrário. É uma imagem que repugnaria aos defensores do igualitarismo, que acreditam que a suprema justiça consiste na abolição de todas as hierarquias.

(Repugnaria ainda mais àqueles que gostam de invocar a figura de São Francisco de Assis e sua humildade evangélica, com aquele jeito de manipular tão ao gosto dos teólogos da libertação, que escolhem alguns fatos da jornada maravilhosa do pobrezinho de Assis e encobrem outros, como a visão que seus discípulos tiveram de Francisco, após sua morte, a ocupar o trono central dos coros angélicos, aquele que pertencera a Lúcifer, vazio desde a primeira rebelião.)

Essas imagens vieram-me à mente diante deste volume de ensaios que inaugura a coleção Biblioteca Clássica, da Resistência Cultural Editora: Contos de Fadas e outros ensaios literários, de G. K. Chesterton. O livro foi traduzido e organizado por Ronald Robson, editor da necessária Revista Nabuco. É difícil encontrar algum texto escrito por algum brasileiro sobre o volumoso escritor inglês sem que não sejam invocadas as apreciações de Borges e de Kafka sobre ele. Para mim, que conheci Chesterton através do argentino, a melhor homenagem que conheço e que, portanto, molda a imagem mental que faço da forma de sua vida acabada, é a de Neil Gaiman, na série de histórias em quadrinhos Sandman.

chesterton

Há poucas personagens não-sombrias nessa que é uma das mais interessantes mitologias gnósticas de nosso tempo, e uma dessas poucas é Fiddler’s Green, que aparece na saga Casa de Bonecas. Fiddler’s Green é a personificação dos sonhos edênicos, das terras primaveris, da felicidade que os homens e mulheres de todos os tempos sonharam reencontrar em um mundo sem mal e de pura alegria, e ainda sonham, a não ser que você seja um desses tristes ocidentais materialistas. Pois que, em sua forma humana, Gaiman fez com que Fiddler’s Green se manifestasse também com a aparência rotunda e vigorosa de Chesterton, gentil e elegante, e sua personalidade apaixonada por paradoxos que desarmam a fina e emaranhada rede de ilusões que as ideologias modernas engendram, ao separar as sensibilidades modernas da presença real do Ser. “Só as coisas óbvias é que nunca são vistas; e uma determinada coisa é freqüentemente dada por banal tão só porque os homens passaram muito sem as ver.”

Assim eu vejo a homenagem de Gaiman a Chesterton: como alegoria do destino final da alma bem-aventurada do criador do Padre Brown. Chesterton via na literatura uma forma de felicidade, e toda sua obra crítica é esse lugar onde podemos encontrar um modo generoso de apreciar o que os melhores poetas e ficcionistas quiseram dar com suas criações. Pode ser quando revela o interesse de Dickens em mostrar em seus “heróis” uma esperança ardente, ainda que tudo no espetáculo da cidade diga não a eles que, se poucos recursos possuíam, tinham ao menos a “alegria sentida por aqueles que nada têm além da vida”. Ou quando lembra, em um século em que a Inglaterra preparava seu mergulho nas próprias sombras íntimas, gestadas que foram na lenta acumulação de neuroses preparada pelo advento do puritanismo, e que teve expressão em uma série de autores como a Emily Brömte, aparece um Robert Louis Stevenson a  defender a “possibilidade da felicidade” em suas aventuras de piratas e tesouros.

Ou no ensaio sobre histórias de detetives, em que descreve a cidade como lugar de mistério, revelação que chegou para mim na hora certa. Vindo de São Luis do Maranhão, província que se metropoliza sem alcançar o que de positivo um centro urbano tem a oferecer, e recém-chegado em São Paulo, é forte em mim a tentação de ver na cidade apenas a criação de Caim, ou um labirinto em cujo centro o monstro aguarda calmo os sacrifícios de inocência que surgem de todos os lados do país e do mundo.

Ele é generoso, e não é demais repetir essa qualidade no prolífico escritor, ele é generoso ao mostrar outras faces do símbolo cidade, já que outra face apresentada em outro ensaio, a cidade como lugar onde se cultiva a civilização, não se dá a ver. E não só por culpa da cultura do crime nas periferias; a classe média pós-moderna, cada vez mais desencontrada dos fundamentos reais da existência em seu ressentimento obsessivo, tem culpa pelo estado de caos – e disso Chesterton já estava alerta, ao denunciar na estranha fantasia O homem que era quinta-feira o quanto a mentalidade do homem do povo difere da mentalidade do intelectual niilista que quer moldar as afeições desse homem comum segundo as ideias da moda. Temos os símbolos, não temos os significados. Mas Chesterton, cuja visão arguta e equilibrada dos fins da poesia e do romance é sabiamente coletada por Ronald Robson na escolha dos ensaios, vem recordar o que nos foi ocultado pelos cadernos culturais e pelos departamentos acadêmicos nas duas últimas gerações. Principalmente hoje, com todo esse discurso sobre romance como espaço privilegiado do exercício de alteridade, as apreciações críticas da arte de contar histórias feitas por Chesterton são muito bem-vindas:

Pode parecer um simples elogio ao romance dizer que ele é a arte da simpatia e do estudo da diversidade humana. Mas em verdade, embora isso seja bom, não é algo universalmente bom. Ganhamos na simpatia; mas perdemos na fraternidade. As velhas brigas tinham mais eqüidade que os perdões modernos. Dois camponeses na Idade Média brigavam em razão de suas propriedades. Mas iam à mesma igreja, serviam na mesma milícia semifeudal e tinham a mesma moralidade, coisas que sempre poderiam interromper logo a briga. A causa mesma da briga deles era a causa de sua fraternidade; os dois gostavam da terra. Mas suponha que um deles fosse contra bebidas alcoólicas e desejasse a abolição de festas em ambas as fazendas; suponha que um deles fosse um vegetariano que desejasse a abolição das galinhas em ambas as fazendas; e de imediato se vê que uma briga de tipo totalmente diferente se iniciaria; e que essa briga não seria uma questão de fazendeiro contra fazendeiro, mas de indivíduo contra indivíduo. Esse senso fundamental da fraternidade humana só pode existir na presença de uma religião. O homem só é simplesmente humano quando visto contra o céu. Se é visto contra a paisagem, ele é apenas um homem dessa terra. Se é visto contra uma casa qualquer, é apenas um pai de família. Somente onde a morte e a eternidade estão intensamente presentes os seres humanos podem sentir todo seu companheirismo. Tão logo a escuridão divina contra a qual vivemos é deixada de lado pela mente (tal como foi logo deixada de lado nos tempos vitorianos), as diferenças entre os seres humanas se tornam acachapantemente claras; não importa se nas caricaturas soberbas de Dickens ou nas loucuras vulgares de Zola.

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Proposições para 2016

Correndo o risco de parecer temporão ao publicar um texto sobre proposições de ano novo em pleno 04 de janeiro – como o ano passa rápido! – sugiro aqui algumas intenções para os próximos doze meses. A primeira delas, que é também a última, pois que informa todas as atitudes, é: passar os dias contra o sentido das paixões do tempo.

Sim, ir contra o tempo, como pregou Nietzsche do púlpito de sua loucura. E isso quer dizer que, se é do tempo que as mulheres abracem o feminismo, fugir dessa e de toda forma politizada de histeria. Correr dos sovacos multi-cores, da breguice das estampas da Frida Kahlo e de tudo que é mimetismo do que há de pior nos homens. Pois se ao homem é possível adquirir os vícios característicos das mulheres, e vice-versa, não é dado a nós desenvolvermos as virtudes próprias delas, e vice-versa. A não ser que seus grandes objetivos sejam a caricatura moldada a silicone, injeções de hormônio e outras espécies violentas de mutilações.

Ler a tragédia pagã – notaram o oxímoro? – de MacBeth como ilustração desse ponto. Diante da tentação de matar o rei, insinuada em seu espírito pelas bruxas, MacBeth é indeciso, inconstante, lunar e não vai até as últimas conseqüências de sua recém-adquirida ambição, e isso irrita sua consorte. Para transformá-lo em um homem de ação, Lady MacBeth invoca as forças das trevas para “secar sua madre”, ou seja, esterilizar seu útero por sua própria vontade, e, assim, menos mulher, se “empoderar” e ganhar para si a ética dos assassinos, algo que a maternidade nela não permitia. As forças das trevas agem, ela consegue levar seu marido ao assassinato do rei, mas, por fim, a realidade prevalece contra o desejo de poder. Para este ano, visitar mais as páginas de Shakespeare e menos Foulcault e Judith Butler, para entendermos o que ocorre quando a política ignora o modo como as coisas são.

Sim, mais Shakespeare e menos Foulcault, mais Tolkien e menos Zizek, mais Camões e menos Tico Santa Cruz, mais Eclesiastes e menos padres cantores, mais Jane Austen e menos Judith Butler, mais Cervantes e menos Duvivier, mais Dostoievski e menos Leornado Boff. Os poderosos mortos estão mais vivos que nós, bem disse Harold Bloom. Os clássicos testemunham a medida perdida das possibilidades humanas, que podem sempre ser resgatadas para o presente, inscritas no coração dos homens.

A grande proposição consiste lembrar, a partir dos grandes livros de todas as culturas, A Demanda do Santo Graal, o Dom Quixote, o Marabaratta, os Analectos, o Livro das Mil e uma Noites, a Ilíada, o Livro dos Cinco Anéis, que o ideal republicano está em conflito com o que de maior o homem sonhou para si, quando seus sonhos eram nutridos pelo desejo de aproveitar-se do que mais profundo nutre a realidade. O universo é uma monarquia. Em nossas origens, fomos talhados para ser um povo de reis e de santos, menos que isso é jogar fora um tesouro que nos foi dado.

Como lavradores, pescadores e artesãos, viver a comunhão da terra e do mar, a natureza sendo irmã, e não mãe. Ver no trabalho um aprimoramento da natureza, e não sua aniquilação.

Como reis e princesas, viver a aristocracia real, forjada na batalha e na beleza, e desprezar aquilo que é a essência do republicanismo pseudo-democrata: a disputa de poder que envilece os destinos de nossas elites, elevando para os cargos públicos não os mais preparados, mas aqueles que melhor sabem manipular as paixões das massas. O Paraíso Perdido, de Milton, relata com esplendor esse fato, e embora seu autor fosse republicano ele era um verdadeiro alto artista, e portanto não conseguiu fugir à realidade: por trás da guerra política há uma guerra cultural pela salvação e condenação das almas. Os medievais, os neo-escolásticos da Contra-Reforma e os absolutistas nos deram uma teoria da origem divina do Estado. Quinhentos anos após Maquiavel, vivemos o absurdo que é não termos uma teoria demoníaca do Estado, embora Milton tenha nos cedido a linguagem para construí-la.

Com os santos do medievo, resgatar o sentido original da combinação de castidade, ardor militar e fervor místico de uma Santa Joana D’Arc e de um São Francisco de Assis, impossíveis de ser compreendidos sem o conhecimento da Cruz. Conhecer a alegria sobrenatural de São Francisco e descobrir, surpreso, o quanto dependia dos sacrifícios realizados na Quaresma de São Miguel Arcanjo. Reconquistando o que há de fogo e sangue na castidade deles, talvez possamos despolitizar o sexo e livrá-lo de toda a ansiedade e o desespero existencial que o maio de 1968 legou com a liberação dos instintos e o escapismo provocado pelas drogas.

Por fim, como guerreiros, ter em vista o que Walker Percy escreveu em A segunda vinda: “A paz só é melhor que a guerra se a paz não for outro Inferno. A guerra ser Inferno faz sentido.”

Eis as proposições, no que me lembro do monge romeno Nicolae Steinhardt. Ele, lançado pelos comunistas na prisão, conseguiu forjar para si uma consciência cavaleiresca nutrida pelos clássicos, contra o sentido de seu tempo, a desumanização que é fim lógico do comunismo. Se ele conseguiu, por que nós, no suposto mundo livre da república capitalista, não conseguimos?