Proposições para 2016

Correndo o risco de parecer temporão ao publicar um texto sobre proposições de ano novo em pleno 04 de janeiro – como o ano passa rápido! – sugiro aqui algumas intenções para os próximos doze meses. A primeira delas, que é também a última, pois que informa todas as atitudes, é: passar os dias contra o sentido das paixões do tempo.

Sim, ir contra o tempo, como pregou Nietzsche do púlpito de sua loucura. E isso quer dizer que, se é do tempo que as mulheres abracem o feminismo, fugir dessa e de toda forma politizada de histeria. Correr dos sovacos multi-cores, da breguice das estampas da Frida Kahlo e de tudo que é mimetismo do que há de pior nos homens. Pois se ao homem é possível adquirir os vícios característicos das mulheres, e vice-versa, não é dado a nós desenvolvermos as virtudes próprias delas, e vice-versa. A não ser que seus grandes objetivos sejam a caricatura moldada a silicone, injeções de hormônio e outras espécies violentas de mutilações.

Ler a tragédia pagã – notaram o oxímoro? – de MacBeth como ilustração desse ponto. Diante da tentação de matar o rei, insinuada em seu espírito pelas bruxas, MacBeth é indeciso, inconstante, lunar e não vai até as últimas conseqüências de sua recém-adquirida ambição, e isso irrita sua consorte. Para transformá-lo em um homem de ação, Lady MacBeth invoca as forças das trevas para “secar sua madre”, ou seja, esterilizar seu útero por sua própria vontade, e, assim, menos mulher, se “empoderar” e ganhar para si a ética dos assassinos, algo que a maternidade nela não permitia. As forças das trevas agem, ela consegue levar seu marido ao assassinato do rei, mas, por fim, a realidade prevalece contra o desejo de poder. Para este ano, visitar mais as páginas de Shakespeare e menos Foulcault e Judith Butler, para entendermos o que ocorre quando a política ignora o modo como as coisas são.

Sim, mais Shakespeare e menos Foulcault, mais Tolkien e menos Zizek, mais Camões e menos Tico Santa Cruz, mais Eclesiastes e menos padres cantores, mais Jane Austen e menos Judith Butler, mais Cervantes e menos Duvivier, mais Dostoievski e menos Leornado Boff. Os poderosos mortos estão mais vivos que nós, bem disse Harold Bloom. Os clássicos testemunham a medida perdida das possibilidades humanas, que podem sempre ser resgatadas para o presente, inscritas no coração dos homens.

A grande proposição consiste lembrar, a partir dos grandes livros de todas as culturas, A Demanda do Santo Graal, o Dom Quixote, o Marabaratta, os Analectos, o Livro das Mil e uma Noites, a Ilíada, o Livro dos Cinco Anéis, que o ideal republicano está em conflito com o que de maior o homem sonhou para si, quando seus sonhos eram nutridos pelo desejo de aproveitar-se do que mais profundo nutre a realidade. O universo é uma monarquia. Em nossas origens, fomos talhados para ser um povo de reis e de santos, menos que isso é jogar fora um tesouro que nos foi dado.

Como lavradores, pescadores e artesãos, viver a comunhão da terra e do mar, a natureza sendo irmã, e não mãe. Ver no trabalho um aprimoramento da natureza, e não sua aniquilação.

Como reis e princesas, viver a aristocracia real, forjada na batalha e na beleza, e desprezar aquilo que é a essência do republicanismo pseudo-democrata: a disputa de poder que envilece os destinos de nossas elites, elevando para os cargos públicos não os mais preparados, mas aqueles que melhor sabem manipular as paixões das massas. O Paraíso Perdido, de Milton, relata com esplendor esse fato, e embora seu autor fosse republicano ele era um verdadeiro alto artista, e portanto não conseguiu fugir à realidade: por trás da guerra política há uma guerra cultural pela salvação e condenação das almas. Os medievais, os neo-escolásticos da Contra-Reforma e os absolutistas nos deram uma teoria da origem divina do Estado. Quinhentos anos após Maquiavel, vivemos o absurdo que é não termos uma teoria demoníaca do Estado, embora Milton tenha nos cedido a linguagem para construí-la.

Com os santos do medievo, resgatar o sentido original da combinação de castidade, ardor militar e fervor místico de uma Santa Joana D’Arc e de um São Francisco de Assis, impossíveis de ser compreendidos sem o conhecimento da Cruz. Conhecer a alegria sobrenatural de São Francisco e descobrir, surpreso, o quanto dependia dos sacrifícios realizados na Quaresma de São Miguel Arcanjo. Reconquistando o que há de fogo e sangue na castidade deles, talvez possamos despolitizar o sexo e livrá-lo de toda a ansiedade e o desespero existencial que o maio de 1968 legou com a liberação dos instintos e o escapismo provocado pelas drogas.

Por fim, como guerreiros, ter em vista o que Walker Percy escreveu em A segunda vinda: “A paz só é melhor que a guerra se a paz não for outro Inferno. A guerra ser Inferno faz sentido.”

Eis as proposições, no que me lembro do monge romeno Nicolae Steinhardt. Ele, lançado pelos comunistas na prisão, conseguiu forjar para si uma consciência cavaleiresca nutrida pelos clássicos, contra o sentido de seu tempo, a desumanização que é fim lógico do comunismo. Se ele conseguiu, por que nós, no suposto mundo livre da república capitalista, não conseguimos?

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