Melancolia, pobreza e sociopatia

8030081037_58a0d29ebc_o
Pintura de Zhang Linhai

Notas sobre O demônio do meio-dia – uma anatomia da depressão

1.

Criei algumas expectativas sobre O demônio do meio-dia, o best-seller de Andrew Solomon; todas foram devidamente frustradas. Esperei abordagens existenciais. Culpa do título, que remete a duas grandes obras de nossa cultura – os Salmos e a Anatomia da Melancolia –, além do fato de que o autor é um romancista com especial interesse pela obra de Virginia Woolf, escritora que sofreu do mal como ele ainda sofre. Mas que nada, embora aqui e ali Solomon deixe que o literato se expresse. A neurociência e a química farmacêutica tem o maior lugar aqui, a ponto de o livro deixar em muitos momentos um gosto de Graça Infinita, romance de David Foster Wallace – outro ficcionista depressivo, outro que se suicidou, como a Woolf – em que os nomes de substâncias sintéticas (legais ou ilegais) e a descrição de seus efeitos no organismo também abundam nas páginas. Claro que essa frustração foi positiva: alguns lugares comuns foram eliminados, outros conhecimentos adquiridos com a convivência com pessoas depressivas ganharam confirmação.

“Às vezes cogito como é que todos os que não escrevem, não compõem ou não pintam conseguem escapar da loucura, da melancolia, do pânico inerente à condição humana”, disse Grahan Greene, citado no início do livro a propósito de justificação da existência da obra. O livro surgiu da intenção terapêutica de conhecer o demônio que o assola, cujo método de pesquisa, em que Solomon investiga todos os pontos de vista possíveis, biológicos, sociais, jurídicos, históricos em busca de uma síntese que não alcança– com a exceção do espiritual, apesar de uma citação a Santo Antão ali, outra de São Tomás de Aquino acolá, além da descrição de um ritual animista africano regado a sangue de carneiro – nos chega na forma de um compêndio, ilustrados por sua vez com casos reais, dele e de entrevistados.

Descobrimos que os cientistas não tem muita idéia do que é a doença, tão variadas são as causas e os modos como o cérebro se comporta. Remédios são vendidos sem que pesquisadores saibam porque a alteração de uma substância x mudar o fluxo de hormônio y melhore o quadro clínico – o que é um tanto assustador.

Causas sócio-culturais influem na percentagem do mal nas populações, e aqui o problema supera a questão de causa e conseqüência – pelo menos causa no sentido moderno, que difere em muito do sentido das causas aristotélicas que transcendem a dicotomia post hoc ergo propter hoc.

Que há muito de propiciador do mal em nossa cultura consumista, ajudada pelo laicismo pós-iluminista que, ao expulsar Deus do mundo, deixou espaço para que o mercado comande os ritmos vitais da sociedade, até um sujeito como o Unabomber consegue perceber, mas que muitos conservadores que consideram o liberalismo capitalista como o regime mais desejável, não alcançam:

Imaginem uma sociedade que sujeita pessoas a condições que a tornem tremendamente infelizes, e depois lhe dá as drogas para eliminar tal infelicidade. Ficção científica? Ela existe. (…) Antidepressivos são de fato o meio de modificar um estado interno do indivíduo de modo a torná-lo capaz de tolerar condições sociais que de outro modo ele acharia intoleráveis.

É o Unabomber, mas a opinião poderia ser de Chesterton, caso ele vivesse as conseqüências do que já previra em suas críticas ao mundo moderno.

As soluções da esquerda não deixam de ser apontadas como igualmente prejudiciais. Solomon rejeita o que Foulcault disse sobre o modo como a sociedade pós-colonial se estruturou, em que seus sujeitos supostamente inventariam categorias de loucura para impedir que as classes oprimidas se rebelassem: “Ler Foucault é interessante, mas a influência que ele teve é muito mais louca do que as pessoas que ele descreve.”

A crítica de Solomon liquefaz essa teoria junto com outra idéia também descartada pela pesquisa, a de que depressão é tristeza. A sentença que a define o mal como “imperfeição no amor”, retirada da Anatomia da Melancolia, abre o livro, jogando uma pista falsa sobre sua abordagem. São precisas muitas páginas para que uma outra definição provoque certo choque, pelo menos em mim: a depressão não é o oposto da alegria, é sentida mais como oposto da vitalidade. Como pessoas cuja ausência de vontade tem uma causa material química podem se juntar e provocar uma revolução? Responde Solomon:

Dizer que os gravemente doentes foram “retirados” de seu contexto natural é negar a realidade de que seu contexto natural os rejeitou, como fez sempre que pôde até então. Nenhum parlamentar conservador foi para as ruas das cidades solicitando pacientes para os asilos; os asilos transbordavam de pessoas sendo entregues a essas instituições por suas próprias famílias. A tentativa de apontar conspiradores sociais parece um interminável romance de Agatha Christie em que todos acabam morrendo de causas naturais.

2.

O lugar comum que diz que a depressão é uma doença típica da classe média foi o ponto mais abalado em minhas crenças. Penso que talvez os pobres também sejam tão atingidos graças a uma crescente equiparação de valores entre as duas classes, cada vez mais agindo segundo os mesmos valores materialistas e de segurança. A depressão não é epidêmica no mundo rural, por exemplo; as classes baixas urbanas tem se igualado às classes médias sem que, contudo, igualem-se naquilo que é positivo nelas, como o fácil acesso a bens de primeira necessidade: educação, médicos.

O pouco acesso à cultura é um problema que piora seus males. Solomon descreve naquele que é o mais pungente capítulo, chamado Pobreza, casos em que os doentes não começaram a tratar a depressão simplesmente porque não tinham a linguagem mínima para identificá-la, confundindo-a com outros males. Faço uma citação longa, pois, em um simples exemplo, é exposto todo o problema de uma cultura que não dá a seus sujeitos a capacidade de nomear as realidades mais próximas e interiores:

Fiquei impressionado quando Lolly disse que o fato de chamar a doença de depressão lhe trouxera alívio. Miranda descreveu Lolly mesmo quando lhe passara por sintomas extremos. A rotulação de sua doença foi um passo necessário para sua recuperação. O que pode ser nomeado e descrito pode ser contido: a palavra depressão separa a doença de Lolly de sua personalidade. Se todas as coisas de que não gostava em si pudessem ser agrupadas como aspectos de uma doença, isso deixava as boas qualidades de Lolly como a Lolly “verdadeira”, e era muito mais fácil para ela gostar dessa pessoa real e colocar essa pessoa real contra os problemas que a afligiam. Ao compreender o conceito de depressão, ela recebeu um instrumento lingüístico valioso e socialmente poderoso, que a ajudou a separar e fortalecer esse eu melhor a que as pessoas deprimidas aspiram. Embora o problema da articulação seja universal, é especialmente agudo entre os indigentes, que são carentes desse vocabulário – razão pela qual instrumentos básicos como terapia de grupo podem ser tão completamente transformadores para eles.

Há descobertas chocantes sobre depressão e pobreza feitas por Solomon. Famílias em que abusos sexuais infantis e violência doméstica são comuns tem a depressão como agente oculto. Círculos de ódio em que os agressores também sofreriam de depressão, sem que soubessem. Sim, a raiva que sentiam delas mesmas acabavam por ser sublimada através de atos de violência dentro de casa, que não eram expostos porque outras pessoas da família também sofriam de uma insensibilidade provocada pela doença, e, então, a internalizavam, ou agrediam a outros, transformando o círculo em espirais concêntricas. O homem que bate na mulher a odeia porque antes não tem amor próprio, e esta trata mal os filhos. O que não o desculpa, mas impõe-nos a ver o quanto uma reforma penitenciária é urgente. Quantos criminosos precisam de tratamento para que a raiva acumulada durante a prisão não potencialize o mal que, por sua vez, eles contribuirão para espalhar lá fora das grades?

3.

“Aquilo que fazemos no escuro acaba vindo à luz em algum momento.” Verdade terrível, inescapável, dita por uma das depressivas entrevistadas.

4.

Por outro lado, a última temporada de The Sopranos, que eu assistia nos dias em que li Anatomia, apresenta outras matizes na equação sociopatia x depressão. Para quem nunca assistiu, a série é sobre Tony Soprano, o chefão da máfia ítalo-americana em New Jersey, que sofre de crises depressivas e por isso, contra os valores de virilidade próprios de sua casta, procurou uma psicanalista, após o duro reconhecendo de uma falha grave em sua auto-suficiência de homem latino. Tem spoiler. Os roteiristas nos conduzem a esperar uma redenção, uma conversão de valores de Tony Soprano, que quase morre no início da última temporada e começa a ver o mundo com outros olhos. Aguardamos que o clichê de humanizar o criminoso conduza ao fim da série. Mas que nada. Após uma curva ascendente, Tony mata friamente um dos seus comandados mais próximos, tem uma paródia de experiência catártica no uso do peiote, em que chega a uma epifania niilista, e rompe com o tratamento com a dra. Melfi, que acabara de ler um estudo real que defende que terapias psicanalíticas, em vez de curar sociopatas, ajudam-no a refinar suas capacidades de manipular o outro.

De nada adianta sondar as profundezas da própria psiquê sem que se tenha princípios morais bem enraizados, é o que ilustra o fim da série.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s