Sobre Duchamp e o apostolado da Arte

(O seguinte exercício foi escrito em setembro de 2012, antes de haver assistido ao documentário de Roger Scruton, Why Beauty Matters, cujo argumento vai ao encontro do meu. Republico hoje para evitar falar diretamente de certa manifestação a favor do PT ocorrida nesta semana, em que uma professorinha sem muita coisa na cabeça pôs-se, como um cachorro ou símio, a defecar no meio da rua, a propósito de forma “artística” de protesto. Duchamp, o sujeito que, ao abrir a latrina de sua alma, fez com que gerações de artistas corressem a conhecer o próprio rosto no reflexo da água dessa latrina, ainda estava na demanda de uma imagem plena da humanidade. Quase cem anos depois, seus continuadores contentam-se apenas em afirmar sua animalidade, esquecidos de que o homem é feito de muito mais que impulsos fisiológicos.)

O apostolado da arte comove o nosso espírito como tudo o que é feito de entrega amorosa e persistência comove o nosso cansaço e falta de imaginação. Contudo, mesmo fascinado por aqueles que fazem da sua vida e obra uma única identidade, não posso deixar de vislumbrar o vazio para o qual se encaminha uma existência que se limita pela estética. Essa vida, exemplificada em Mallarmé e sua arte pela arte, no romantismo neo-pagão e seu anseio mimético pela mãe-natureza criadora, ou nas escolhas pelo “silêncio, exílio e solidão” de James Joyce, teve um de seus maiores apologetas em Nietzsche.

A salvação pela arte não está ao alcance de ninguém; salvar alguém é resgatá-lo de um lugar ou estado para outro. Nietzsche não parecia querer se salvar, mas houve certas visões posteriores que tentaram o salto. Para onde a arte pode nos levar? A muitas instâncias, a algumas dúzias de paisagens e estados anímicos. Mas sempre se retorna para o lado de cá no Grande Desterro. O máximo que o artista pode nos dar é um vislumbre, e isso já é uma das mais altas missões que um sujeito possa tomar para si. A vida requer algo mais para a sua plenitude.

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A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O grande vidro, de Duchamp

Penso nisso ao ler o ensaio que o poeta mexicano Octavio Paz escreveu sobre Marcel Duchamp, publicado em Marcel Duchamp ou O Castelo da Pureza. Para mim, é muito difícil deixar de ver no dadaísmo algo além de confusão, negatividade ou puro desejo adolescente tardio de “encher o saco”. Buscar o sentido da obra, quando o autor não joga limpo em suas intenções, é brinquedo que se pode muito bem deixar de lado quando o prêmio da charada é pouco. Porém, Paz comprou o risco de ver seu tempo perdido e intentou buscar o que a obra de Duchamp, afinal, oferece. Contemplou “A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O grande vidro”, e, para arrancar o sentido desse trambolho modernista, precisou recorrer à imagem terrificante da deusa hindu Kali.

Com seus vários braços empunhando objetos como uma espada, uma flor e uma taça, ela, que é a essência de tudo o que é realidade e a fonte da existência do ser, dança sobre os cadáveres superpostos de seu noivo Shiva, aquele que devasta e renova. Em sua investigação, Paz reconhece que tanto a Noiva mecânica de Duchamp quanto Kali são versões do arquétipo da Virgem, as três simbolizando as relações entre vida e morte, amor e fertilidade, tempo e realidade. Cada uma dessas duas imagens é medonha ao seu jeito, revelando os modos como suas culturas vivenciavam a sua própria violência.

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Kali e Shiva

Pondo as imagens lado a lado, Octavio Paz destrinchou o testemunho mudo da Noiva sobre sua época, o século dadaísta por essência e natureza. A imagem de Kali impacta por si só, não se precisa saber nada sobre a Índia e seus deuses para que a representação provoque certa abertura no espectador. Mas, se ninguém avisar que o Grande Vidro é de Duchamp, ninguém prestará atenção ao objeto trincado, com suas imagens à primeira vista sem sentido: como uma máquina, precisa de manual de instruções. Foi aí que Paz descobriu na arte de Duchamp uma ascese, busca espiritual por uma liberdade que se confunde com indiferença: a sua obra não se resolve em si, é análoga à escada de Jacó – se bem que está mais para a ponte do conto de Kafka. Lutando contra o niilismo, Duchamp quis achar algo que, não sabendo o que era, não desistiu de buscar. Suas obras, como a Noiva, são momentos de suas investigações.

Octavio descreveu a obra como a representação de uma busca amorosa dos homens pela Noiva, uma das manifestações do simbolismo gnóstico do Eterno Feminino, só que fadada ao fracasso. A violência coletiva, frustrada, resultou em esterilidade – a própria esterilidade, produzida por castração, de considerável montante dos experimentos da arte moderna, penso.

A conclusão de Paz é outra. Para ele, liberdade, sabedoria, vazio e indiferença são valores congregados na experiência da pureza, algo que não pode ser buscado, e que, no entanto, brota desse fracasso. O anseio pela apreensão simbólica da natureza, que é plena na representação do ciclo de morte e renascimento na imagem de Kali, é uma paródia desesperada (um desespero blasé, diga-se) em Duchamp. Enquanto que, na contemplação da deusa, o indivíduo é reinserido nos ritmos cósmicos do universo, na Noiva nós somos lançados do nada ao nada.

Octavio Paz teve empatia pelo drama criativo de Duchamp, solidarizando-se com o xadrezista. A citação do mestre do dada, apresentada no fim do ensaio, ratifica essa visão do apostolado da arte e o que ela implica, comovendo o mexicano:

Gosto da palavra crer. Em geral, quando alguém diz eu sei, não sabe, acredita. Creio que a Arte é a única forma de atividade pela qual o homem se manifesta como indivíduo. Só por ela pode superar o estado animal, porque a Arte desemboca em regiões que nem o tempo nem o espaço dominam. Viver é crer — ao menos é isto o que eu creio.

Oras, esse caminho é um beco sem saída, ainda mais reconhecendo os frutos da arte dadaísta. E fica mais claro quando noto que, nessa análise, que parte da contemplação de uma natureza louca e assassina, porém fértil e renovadora, em Kali, e chega à visão de uma natureza morta e estéril, mecânica e sem alma, em Duchamp, Octavio fala da Renascença. O dadaísta-mór em muito se identificou com esse movimento. Na produção sacra renascentista, a arte (ainda) era uma abertura para a Revelação, e foi essa abertura que soube ressaltar, com formas antigas e novas, como poucos momentos da história das artes plásticas, a pessoa humana.

Duchamp não aceita a Revelação. Contudo não se fecha no ateísmo ou no agnosticismo (ou pelo menos, finge não se fechar, prosseguindo no jogo):

(…) em termos de metafísica popular não aceito discussões sobre a existência de Deus, o que quer dizer que a palavra ateu, oposta a crente, nem sequer me interessa (…) Para mim há outra coisa distinta do sim, do não e do indiferente — por exemplo, ausência da investigação nesse domínio.

Se ele chega à indiferença e ao não, o risco já estava posto desde o começo. Nisso, o indivíduo se perde, como bem dá a ver o Grande Vidro e seus seres inorgânicos representando seres humanos amputados. É um pouco difícil crer que o ser do homem pode ser manifestado nessa violência, que é a negação dele mesmo. Nem a morte é capaz de negar o homem, se a Piedade se faz presente, como testemunhou Michaelângelo na imagem da Virgem que ampara o Verbo feito carne de sua carne. Eis, aqui, a manifestação plena do que é feito o homem, que dadaísmo nenhum foi capaz de resgatar, e cujos frutos só deram testemunho do abismo de significados que o movimento gerou.

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Pietá, de Michaelangelo
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Guerra, sexo, morte e o que resta após o caos

Para diminuir a tensão destes dias conturbados, falemos de coisas mais suaves. A morte, por exemplo:

A morte está hoje diante de mim

Como a convalescença de um homem enfermo,

Como a ida para o jardim depois da doença.

Estes versos abrem um muito antigo cântico egípcio que, a modo de diástole, porei ao longo desta nota.

O tempo anterior da Semana Santa e o conseqüente tempo da Páscoa inserem aquele que vive o ciclo litúrgico em um tipo de diálogo intenso com a morte, daqueles que a nossa sociedade nos tolhe. Acontece por cá também que as últimas leituras tivessem-na por motivo principal: O ano da morte de Ricardo Reis, de Saramago, a costa dos murmúrios, da também portuguesa Lídia Jorge, alguns poemas de Jorge de Lima coligidos em Tempo e Eternidade, e, em especial, A origem da linguagem, do Rosenstock-Huessy. Este último é ensaio que parte da tese de que quem diz que a vida humana começa pelo nascimento está a falsificá-la, desde que o que ocorre é o oposto: a vida começa com a morte, a morte dodelsentidaa comunidade. O túmulo é o início da cultura, é o útero do tempo. Mas disso comentarei em outra oportunidade.

A morte está hoje diante de mim

Como o perfume da mirra,

Como o sentar-nos sob a vela num dia de vento.

A visão de Lídia Jorge em seu romance (Ed. Record, 2004) já se dá no sentido de que a morte é atualização de possibilidade de olvido e apagamento do ser, tão desejados pela protagonista Eva Lopo. Tal desejo busca lidar com o fato da morte que a rodeia. Falarei nesta nota sobre esse aspecto na obra; darei alguns spoilers, que, espero, não tirarão o prazer de quem não a tenha lido ainda.

A costa dos murmurios Lidia Jorge

O romance é disposto em dois níveis narrativos, habilmente articulados. Lídia está entre os mais festejados ficcionistas portugueses das últimas décadas, conquanto desconhecida por aqui. Um primeiro nível está no conto que abre o livro, Os gafanhotos, escrito vinte anos após os acontecimentos que são depois narrados com minúcias, em um segundo nível, no restante da obrs. Aquele conto é expressão literária, sem pretensão de veracidade histórica, do que a protagonista testemunhará a um escritor anônimo. Um jogo que nos remete inicialmente a Nabokov, para depois nos lançar no terreno do absurdo de um Kafka, de um Isaac Babel e de um Camus.

É conto formidável, em que a retratação do absurdo diante de uma situação-limite como a guerra é narrada brilhantemente. Estamos em Moçambique, no hotel Stella Maris: militares portugueses combatentes na guerra colonial dão uma pausa para festejar o casamento de Evita com o ex-matemático e alferes Luís Alex. São os estertores da ditadura de Salazar, o fim da crise colonial. A beleza dos dias que se sucedem às núpcias é manchada pelo incômodo de corpos mortos de negros a aparecer na orla, carregados pelo mar: os nativos roubaram um carregamento de álcool metílico e beberam-no, pensando tratar-se de bebida alcoólica. É só um incômodo, nada mais, negros que vivem se matando, devido à desunião entre as tribos, agora morrem de estupidez.

Não o bastasse, o conto fecha com o suicídio inesperado de um dos portugueses, tragédia iluminada por uma nuvem de gafanhotos a incendiar de verde a atmosfera já febril daqueles dias. Como eu disse, lembra os contos do militar Isaac Babel, caso fossem narrados por uma noiva dele, e essa noiva fosse dona da prosa mais musical da literatura portuguesa recente.

A morte está hoje diante de mim,

Como perfume da flor de lótus,

Como o sentar-nos no solo da ebriedade.

Pensei em Camus, em Kafka e em Babel em vez de lembrar de Mia Couto, Valter Hugo Mãe e António Lobo Antunes, autores que também tratam do drama pós-colonial na África portuguesa. Há um interesse crescente no Brasil por estes autores, devido aos laços que nos unem aos dois mundos, África e Europa. É, contudo, literatura calcada sobre elementos supra-históricos, que informam as tragédias específicas, elementos percebidos por Lídia Jorge e que tornam a costa dos murmúrios uma obra de interesse universal, como tem interesse universal A peste, O processo e A cavalaria vermelha. Estas três são respostas às grandes guerras do começo do século passado – sendo que Kafka soa na clave profética, por anteceder e descrever os horrores que vieram após sua morte. Estes europeus lidam não para denunciar, fazer mero panfleto; lidam para extrair a substância mais densa de uma realidade que lhes surge caótica para poderem, assim, dar uma luz para eles mesmos e para os leitores que, não sofrendo aqueles acontecimentos trágicos, possam conviver com as realidades prosaicas que assumiram seus aspectos mais paradoxais naquelas circunstâncias: a arte, a memória, a dor, a coragem e a covardia, o sexo, e, caso de a costa, a morte.

A morte está hoje diante de mim,

Como a subida da enchente,

Como a volta de um homem da guerra…

Penso também em Os Lusíadas, penso em Harold Bloom, que disse que o poema de Camões é politicamente incorreto de uma forma deliciosa para os nossos dias. O épico é ofensivo para multiculturalistas, graças ao modo como descreve os muçulmanos e os hindus, e é ofensivo para feministas, no episódio em que os portugueses abatem ninfas para depois “amarem-nas”. a costa dos murmúrios é o fecho de um ciclo iniciado pelos acontecimentos cantados por Camões. Ainda assim, Bloom defende, Os Lusíadas deve ser lido, pois Camões parte do motivo histórico para falar dos temas fundamentais, amor, guerra, fé e memória, de um modo que nos enriquece como poucas experiências estéticas seriam capazes de nos enriquecer. E a costa vai interessar ao bom leitor que não está não está nem aí para agendas multiculturalistas e feministas que defenderiam de bom grado a importância do romance.

Enquanto que em Os Lusíadas o tom é triunfante, o poeta cantando vigoroso a coragem dos portugueses e a malícia dos moçambicanos, Lídia narra os últimos dias dos sucessores de Vasco da Gama na África dando-nos ver almas confusas, inclusive a de Eva, que não sabe lidar com a morte dos negros e o suicídio de um próximo. Ela tenta camuflar outras memórias dolorosas, intuito derribado pelas perguntas do interlocutor anônimo. A investigação dessas tragédias é dada a cabo com a ajuda de Helena de Tróia, sublime mulher do general, que mostra a Eva a verdadeira identidade do alferes e dos outros soldados, assassinos frios, e não guerreiros corajosos. É conduzida também com um jornalista mulato, nativo, que lhe apresenta faces incômodas da África, um ambiente de prostituição, mentira jornalística e desejos de poder no lado de fora do Stella Maris. Há inclusive uma tensão sexual entre Eva e cada um dos dois, cujos arremates têm muito que ver com a dificuldade que elas e ele tem para assimilar o sem sentido das mortes.

É de nossa época uma dificuldade terrível de saber como lidar com a indesejada das gentes. Mais de um pensador já o notou e fez ligação desse descompasso com a dessacralização da vida e da morte: as comunidades tradicionais viam um rito funerário e um rito religioso como atos de comunicação e comunhão com um outro mundo que dá sentido a este. A melhor literatura hoje nos ajuda a retomar um modo sadio de lidar com a morte e suprir esse deficit, pelo menos entre indivíduos. a costa dos murmúrios nada ensina disso, apenas a acuidade psicológica revela, por sua verossimilhança, os conflitos interiores de Eva para assimilar esse mistério.

Durante a maior parte do livro, e é o que de melhor ele tem, Lídia expõe a dificuldade de Eva em tratar com a morte – ela que cria para si, a partir do seu desejo de anulação e negação deste mundo, e não por uma revelação sobrenatural ou pela especulação filosófica, uma metafísica meio budista, meio niilista, em que o que nos espera no fim de tudo é o nada, ou algo não muito melhor que o nada. Não sabemos se Lídia pensa assim também, e pouco importa para o sucesso artístico do livro. O que o romance nos dá é o retrato de uma alma que, não vendo sentido além do mundo, não sabe lidar com o que acontece aqui.

Estarei vendo demais quando noto que essa resistência ao que há do outro lado também impede que a senhora entre em contato com a vida por aqui, como exemplifica a angústia de Eva quando descobre as causas reais dos corpos trazidos pelas ondas?:

Evita – ‘Quero subir ao alto dum prédio e dizer em voz alta…” Ele – ‘Mas o quê, o quê?” Evita –’Que estão aqui a envenenar pessoas pela calada. A Universidade deu-me a crença na voz que clama do alto do deserto mas clama.’ Estavam diante do Moulin Ruge e ele perguntou – ‘Panfletos” Evita – ‘Nada de panfletos, só clamar. Porque pensa você que Jan Parlach se queimou em Praga? Você pensa que foi pela pátria checa? Não foi, foi por outra pátria que ele achou que havia para além daquela pátria pela qual se queimou na praça.’

Quase pensamos que Eva começa a encarnar Antígona e suas atitudes morais guiadas pelas Leis Eternas, mas a releitura que Lídia faz do drama contado por Sófocles desce a camadas mais travosas do Ser:

O jornalista, com os olhos brilhando – ‘O quê? Quer dizer, sua farsante, que não esteve ali a esmurrar a mesa por causa dos meus patrícios mortos por metanol? Esteve por outra coisa?’ ‘É’ – disse ela. ‘Esse e o outro – o grande envenenamento que cai sem se saber donde, sobre todas as coisas.

E toda essa incapacidade de ter uma postura coerente diante da morte ocorre após a visão de Helena, a sublime Helena, “a imagem do vestido amplo de mulher branca, aberto como o leque de um deslumbrante pavão sobre o corpo negro do seu mainato estendido do jardim verde”, sentida como “imagem cheia de esplendor”. Para ser atingida pela morte alheia, precisa da intermediação de uma cena como essa. Pois a visão a conduz para a conversa anterior com o jornalista, e então os dois vão até o fundo para descobrir as causas das desgraças, embora continue a se debater dentro dela o medo do real, o temor do conhecimento do solo de nossos atos mais repulsivos e instintivos:

Pergunta-me se não tive conhecimento directo. Não directamente (…) E para quê conhecer directamente? Querer desconhecer não é uma cobardia, é apenas colaborar com a realidade mais ampla e mais profunda que é o desconhecimento. (…) Ah, Biblioteca de Alexandria, como eu te estimo tanta vez incendiada! (…) Estimo os países de vocação metafísica total, os que não investem na fixação de nada. (…) Aprecio imenso esse esforço de tudo apagar para se colaborar com o silêncio da Terra…

E prossegue: “De nada vale querer que existam nos escombros os fantasmas. Para quê desejar que permaneçam nos escombros os fantasmas? (…) Gosto dessa vingança do tempo, que sempre deve acontecer rápida sob os nossos olhos, para se poder retirar o sentido da passagem para lugar nenhum que é o local para onde desembocam todas as passagens. (…) A sobrevivência não passa dum fruto da nossa cabeça”.

Dói nela a tensão entre desejo de desconhecimento, virar as costas para o mundo, com o fato de que o mundo, indiferente ao que ela deseja ou não, desaba com tudo em cima de todos. Assim é forçada a investigar. Para resolver seus conflitos, a solução dada foi transformar história em literatura. Instigante antinomia final: a experiência estetizada e cristalizada em um conto será lembrada e lida e vencerá a vingança do tempo, enquanto que pôr no papel ajudará Eva a libertar sua mente do passado, o ato confessional/psicanalítico de contar para expulsar escombros de dentro de nós.

A morte está diante de mim

Como o homem que anseia pelo lar

Depois de anos e anos de cativeiro.

Curiosamente, Eva busca no sexo algo parecido com a morte, ou com a libertação que a morte traz. Recusa a oferta de Helena, figura já meio mítica aos seus olhos, ser etéreo de cabelos de vermelho flamejante, em quem Eva teria apenas uma igual, reflexos de espelho multiplicando sua identidade ao infinito. Eva quer dissolução, o que só os homens podem dar: “Quero que um homem ponha-se em cima de mim para me sentir mortal. Com uma gadanha e uma pá, e me enterre e me empurre até o local donde se extrai o mármore, quando a terra fecha. Um homem com cinco membros que me envolva como uma aranha envolve a mosca até esse pedaço de terra congelada, enterrada e por polir.”

Eva foge de Helena para deitar-se com o jornalista moçambicano. Se Helena desejava Eva para se vingar de todos os homens, agentes das guerras que parecem desestabilizar o real – quando a guerra é a própria essência do real, disse um Heráclito, repetiu um Hobbes –, ele sentiu-se vingando a África da Europa por séculos de exploração, escravismo e assassinatos.

Percebe o leitor a incomunicabilidade de almas, nesse ambiente em que a morte não encontra o seu sentido, espraiando-se para as outras instâncias de suas vidas, em que o sexo não vale nem pelo encontro simples de corpos que se desejam ou por uma aliança matrimonial?

Por fim, há um riso estranho no último parágrafo, reação derradeira a ecoar outras antinomias do Ser: o efêmero das ondas em tensão com o eterno do oceano: “não prolongue, não oiça as palavras. A pouco e pouco as palavras isolam-se dos objectos que designam, depois das palavras só se desprendem sons, e dos sons restam só os murmúrios, o derradeiro estádio antes do apagamento” – disse Eva Lopo, rindo”, após narrar o suicídio que fica suspenso entre o fim do conto e o fim do romance, como se o motivo da escrita dessa obra fosse burlar a realidade desse ato.

Que riso é esse, o que ele ecoa, um sinal de libertação ou uma muito grande confusão interior?

 

Por Ricardo Santos de Carvalho

Entre pó e nada, a Graça perdida na cultura brasileira

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É imperativo que eu comece esta resenha sobre A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha (ed. Record, 2015), com a frase que ele pôs junto ao autógrafo pedido por mim, após uma palestra de Bené Barbosa sobre armas e cristianismo na Igreja Santa Generosa: “Que este livro te ajude a não ir gentil p/ a noite escura.” Apesar de ter-lhe dito que um dos seus ensaios que mais me marcou foi aquele sobre Dylan Thomas, não peguei a referência ao famoso poema-testamento do escocês; a noite escura de que lembrava era a fase vivida pelos místicos católicos, descrita pelo monge espanhol São João da Cruz, quando os sentidos não captam mais nada e Deus se cala, e a alma do monge vê-se lançada no deserto interior, onde a aspereza, a solidão e a secura preparam o homem para uma união definitiva com Cristo. A noite a que Dylan se referia era de outra esfera do Ser, mais “acolhedora”, embora algo da atitude expressa por ele possa servir para quem adentra em outras noites afins, entre aquelas que o brasileiro vai só por ser brasileiro:

Não entres nessa noite acolhedora com doçura,

Pois a velhice deveria arder e delirar ao fim do dia;

Odeia, odeia a luz cujo esplendor não fulgura.

 

Embora os sábios, ao morrer, saibam que a treva lhes perdura,

Porque suas palavras não garfaram a centelha esguia,

Eles não entram nessa noite acolhedora com doçura.

 

Os bons que, após o último aceno, choram pela alvura

Com que seus seus frágeis atos bailaram numa verde baía

Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

 

Os loucos que abraçaram e louvaram o sol na etérea altura

E aprendem, tarde de demais, como afligiram sua travessia

Não entram nessa noite acolhedora com doçura

 

Os graves, em seu fim, ao ver com um olhar que os transfigura

Quanto a retina cega, qual fugaz meteoro

Odeiam, odeiam a luz cujo esplendor já não fulgura.

 

Meu pai, te imploro agora, lá na cúpula obscura,

Que me abençoes e maldigas com tua lágrima bravia.

Não entres nessa noite acolhedora com doçura,

Odeia, odeia a luz cujo esplendor já não fulgura.

(Trad. Ivan Junqueira)

Martim perguntou-me também sobre o que eu mais gostei no livro. Esta resenha dá a resposta. Se me estendo, é porque eu creio que os pontos que Martim problematiza (eita verbinho que deveria ser mais problematizado que as vítimas dessa operação pseudo-crítica) são de primeira importância para a discussão cultural que vem se renovando no Brasil em alternativa ao paradigma uspiano que lançou os estudos universitários para longe das principais inquietações humanas, cindindo de modo abissal a fenda entre povo e elite. Foi um livro que aguardei muito, desde que acompanho há uns anos sua atuação na net em sites como O indivíduo, a Dicta & Contradicta e o Jornal Rascunho, além de seu blog pessoal.

Assim, A poeira da glória é estudo dos mais sérios e que se soma a outros projetos de revisão publicados de poucos anos pra cá, entre eles os ensaios de Rodrigo Gurgel coligidos em Muita retórica, pouca literatura (2012) e Esquecidos e subestimados (2014), a Nabuco, revista brasileira de humanidades (2014 para cá), editada por Ronald Robson, e Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado (2015), de Bruno Garschagen.

Esses projetos, é preciso dizer, surgem todos a partir da reabertura, ou em diálogo com ela, que Olavo de Carvalho gerou em sua trajetória pedagógica, em especial com os seminais O imbecil coletivo, O jardim das aflições e Futuro do pensamento brasileiro, obras em que o filósofo apresentou a crítica cultural mais devastadora feita em muito tempo sobre o Brasil, uma denúncia à elite intelectual que tentou reformar a mentalidade do povo a partir de suas próprias doenças espirituais.

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É quase inevitável que todo aquele que sinta, de forma pessoal, nos nós da alma, o caos em que o país se encontra, procure na história uma solução, ou, no mínimo, as suas causas, para que possa se orientar com um mínimo de sanidade neste imenso hospício a céu aberto. É quando se percebe o que Joyce quis dizer em Ulysses, ao refletir sobre a paralisia espiritual que sofria sua Irlanda, que a “história é um pesadelo que desejo despertar”. Esse despertar tem um sentido ostensivamente iniciático: mergulhando na noite do inconsciente dos instintos, conhece-se as tendências para podermos combatê-los não ao nível social, e sim no individual, e assim, tomarmos posse de nossa própria vontade, diminuindo, pois que quase impossível de anular, o peso das determinações históricas sobre nossos atos. Ainda vivemos sobre a égide das bênçãos e maldições lançadas desde a missa inaugural e a primeira praga rogada por aqui.

Alguns desejariam combater as determinações ao nível político. Assim pretendia Paulo Prado em seu Retrato do Brasil, em que investigou as causas de nossa tristeza (sim, leitor, somos um país de pessoas tristes, paremos de inflar um riso que é feito de álcool, ansiolíticos e coreografias de músicas toscas). Descobriu uma desordem de paixões de ganância e luxúria que nos tolda a vista para valores mais perenes que a mera satisfação de desejos. Sua solução, em vez da ascese e da disciplina da vontade através de uma tomada de consciência, foi a revolução violenta e purificadora a fundar um novo Estado.

Martim Vasques tenta despertar desse mesmo pesadelo investigando a história cultural para, entre outras coisas, descobrir que o Estado, o mais frio dos monstros (Nietzsche), não libertará ninguém: o que é preciso é um primeiro ato de vontade que não pode ser imposto de fora por instituições, apenas como resposta a um dom que só pode ser dado gratuitamente.

Por outro lado, a história brasileira é um “drama da alma de um povo que, apesar de seus tropeços, ainda consegue se reerguer com os próprios pés”. E como o consegue? A literatura, como propiciadora da imaginação moral que iluminaria para o próprio povo esse caminho em que tanto tropica, teve seu papel alterado no avanço da modernidade pela traição dos intelectuais. Ao conhecimento da realidade, preferiu-se um pacto fáustico: “A crença de que a literatura (…) pode alterar a estrutura do real é o primeiro sintoma de uma doença típica do intelectual público profissional”. A doença é tanto mais revelada pelo fato de que os intelectuais quererem restaurar a ordem pública sem se dar conta de suas desordens interiores. E não se dão mais conta por que a literatura feita por aqui não se interessa muito pelo conhecimento da alma, quanto mais pelos fatores que a ordenam ou põe-na em estado caótico, escrava das paixões da moda, da tirania do tempo presente.

Perdeu-se, pois, aquela velha sabedoria, que encontramos na Grécia e na China antigas, quiçá em todos os povos tradicionais, de que falhará aquele que tenta reformar seu país com a própria casa de cabeça pra baixo. Ao fim das análises noéticas dos autores estudados no livro, ficamos estarrecidos com o time de aleijões emocionais do nível de Mário de Andrade, Euclides da Cunha e Lima Barreto, a tentaram recriar o Brasil a partir de suas próprias crenças estéticas. (E sobre o Lima, recomendo muito o ensaio que Ronald Robson publicou sobre ele na Nabuco número 2, que complementa e enriquece a discussão proposta por MVC.)

Estéticas? Sim, o mal é que o esteticismo, que quase define a essência de nossa cultura, estava apartada de uma consciência ética que garantisse um acesso mais seguro à realidade, em vez de intermediada por uma ideologia que a deforma. O salto de uma consciência estética para uma ética, que seria seria o prosseguimento óbvio de uma vida em busca da plenitude, segundo Kierkegaard, não é conhecido entre nós. Só conhecemos o salto para o abismo, a sedução do vazio, a ontologia do abandono, ou, entre aqueles que temem as trevas do ser, a criação para si de toda uma estética de dissimulação, de que Machado de Assis foi mestre.

O livro, assim, nos apresenta uma série de anti-epifanias, momentos coletados na sutil dialética entre vida e obra de nossos mais influentes escritores, em que, a cada fechamento ao Espírito vivido em uma fase da história, o abismo em espiral se adensava e engolia a zona de influência até chegar aos quatro cantos do país.

É surpreendente, por exemplo, o retrato devastador que MVC pinta sobre o drama íntimo de Mário de Andrade. O modernista era um depressivo que viveu a vida acuado entre a “criança interior”, o nome que deu à fuga das constantes transformações, que são a substância mesma da vida, para uma idealização de São Paulo e do Brasil onde ele poderia manipular o real a seu bel prazer, e o chamado do “deus selvagem”. Esse chamado, ele sempre negou ao longo de sua vida, até irromper com força em seu poema Meditações do Tietê, escrito duas semanas antes de sua morte, tarde demais para uma futura conversão moral. Segundo MVC, o rio Tietê, esse deus selvagem, teria o mesmo significado que o Mississipi tinha para T. S. Eliot, na interpretação de Lionel Trilling:

Segundo Trilling, este deus é um poder que parece ter intenção e vontade próprias e se apresenta a homens dotados de imaginação, como se fosse a concretização de uma grande idéia moral; em geral, sua aparência é benigna, mas também esconde perigos e enganos entre suas névoas e cantos escuros – o que nos faz pensar que é apenas um ser divino, não propriamente bom ou ético, mas que também provoca sua bondade em pessoas que aceitam plenamente seus caminhos misteriosos. (…) Não seria um exagero afirmar que o poema sobre o Tietê trata do medo de ter descoberto que recusara a ser um servo do rio escuro que preenchia sua alma. Entre o chamado natural, porém furioso, do Tietê e o fascínio feérico da cidade de São Paulo, Mário escolheu o último (…)

Meditação é (…) o poema final de uma época em que o país encontrou um outro deus, muito mais terrível e selvagem, e preferiu seguir este caminho como se fosse o único a ser trilhado.

Essa recusa explica o tremendo fracasso artístico de sua obra, em especial a paródia demoníaca da Demanda do Santo Graal que se chama Macunaíma. Pelos motivos abordados por MVC, Macunaíma tornou-se um dos mitos fundadores da sociedade que os tropicalistas e o cinema novo tentaram erguer na imaginação do povo, ao mesmo tempo em que a população de classe média em peso, tão perdida quanto sua elite artística, apoiava um regime militar positivista que trocou as incertezas da vida por um apego à Letra que mata o Espírito. Letra, não, Número, dado o fervor desenvolvimentista que ousou chamar de milagre a um evento meramente econômico, e fugaz, ainda por cima.

Esse Estado pariu o remedo de social-democracia que intelectuais como José Guilherme Merquior – cuja recusa ao mistério da morte foi captada pela anti-epifania presente em um poema de Bruno Tolentino, poeta importante para a configuração das investigações de MVC – tentaram construir desde a posse de Sarney, cujos estertores presenciamos hoje com a derrocada do PT. Merquior, um continuador de Antonio Candido, o pai do nefasto paradigma uspiano, por sua vez continuador de Sérgio Buarque de Holanda – um abismo atrai outro abismo que atrai outro abismo…

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A aceitação do Macunaíma como mito nacional, reconheçamos, é muito bizarra: Macunaíma é uma jornada niilista que parte de nenhum lugar para lugar nenhum. Seu pretenso humor é amargo, uma boca sem dentes sorrindo no escuro.

A recusa ao deus por Mário influiu negativamente em nossa história cultural. Sua visão de um Brasil, depois de ser levada a público primeiro pela Semana de 22 e depois por sua atuação no governo de São Paulo, fechou ao país certas vias simbólicas que nos impediu o conhecimento do transcendente – não só a transcendência divina, mas o conhecimento do próximo: o brasileiro é incapaz de sair de seu ensimesmamento e se colocar no lugar do outro e ter empatia por seus sofrimentos e alegrias, tão apaixonado que é por seus próprios medos e egoísmos. Cerrou-se aquele caminho ao céu que é o meio de compreender o que ocorre cá na terra, via simbólico que o mendigo da famosa cena de Quincas Borba desdenhava, qual a raposa da fábula fez com as uvas. A cena, aliás, é uma dessas anti-epifanias, buracos negros pinçadas por MVC como motivos que se destacam na sinfonia.

Negando-se o deus selvagem, o que nos restou? A idolatria do Estado, a quem Sérgio Buarque de Holanda entoa hosanas no fim de Raízes do Brasil. Continuador direto de Mário de Andrade (o ciclo dos abismos, na verdade, já começa com a busca por segurança de Machado de Assis na instituição da Academia de Letras), ele deu a entender que só Estado poderia nos salvar.

O Brasil surgiu em meio à guerra espiritual conhecida como Contra-Reforma, escolhendo, contudo, o legado português do apreço excessivo à retórica vazia e da espera acomodada da ação da Providência, ao contrário da opção espanhola pela integridade do caráter. Sérgio Buarque fez a lição de casa ao visitar nossa herança ibérica, indo em confronto com o programa modernista, e em Visões do Paraíso, livro soberbo porém falhado, estudou o surgimento do país a partir do imaginário português do Seiscentos, mas o faz não para colher o que de belo, bom e vero havia nas tradições que nos antecederam: o que ele queria era “exorcizar-nos” das vivências informadas por aquele imaginário místico que persistiam entre nós. É o pesadelo da história sentido como uma possessão.

E em nome de que deus devemos clamar para expulsar os demônios? Sim, o Estado. O poder, contudo, é uma das três tentações de Cristo, lição ignorada por nossa elite espiritual.

iii

Um aparte, e uma tentativa de contribuição ao debate: fico sempre irritado com Visão do paraíso, esse que é o grande livro falhado brasileiro, e pelos motivos elencados por MVC: Sérgio Buarque não compreende os signos da serpente e do Éden e outros que animaram a descoberta e a colonização do Brasil, aventuras envoltas na mística de um mundo novo que remetia a alegorias medievais e autóctones, como a fantástica Ilha de São Brandão ou o mito indígena do Pai Sumé. Ele os vê apenas como simbolismo, como idéias, sem o caráter de “mediação de tensões da realidade” que estão incrustadas na experiência universal do homem diante da morte e que se encontram condensadas nas mitologias dos povos.

E triste fico quando vejo que uma continuidade que poderia ter sido dada pelos intelectuais católicos a esse estudo foi desperdiçada, eles que teriam, em tese, o melhor conhecimento metodógico-existencial para lançar luz aos mistérios que impressionaram os homens enquanto o país era uma colônia.

O que me faz pensar que, aos pares de autores que MVC apresenta de forma sinfônica para orientar seu argumento (Euclides da Cunha/Lima Barreto, Sérgio Buarque/Cecília Meireles, Nelson Rodrigues/Antonio Candido, Guimarães Rosa/ Otto Lara Resende), podem-se soar outras variáveis, entre elas o conflito entre Gustavo Corção/Alceu Amoroso Lima pelos jornais – o livro, por excluir estudos mais atentos a escritores como Monteiro Lobato, Carlos Drummond de Andrade, os concretistas, Darcy Ribeiro ou Clarice Lispector, nos convida a aplicar os muitos conceitos a nomes representativos da nossa cultura. (sobre a pneumatologia características dos concretos, ler o conto de Antonio Fernando Borges, Um homem mastiga a linguagem, presente em Que fim levou Brodie, de 1996).

Presos na tradição francófila já denunciada por Mario Vieira de Mello em Cultura e Desenvolvimento, os católicos não souberam pensar a crise do país a partir daquela tradição ibérica investigada pelo pai do Chico. Assim, o debate intelectual durante anos reduziu-se à monotonia dos motivos da discussão entre esquerda e direita, defensores da ditadura de um lado e defensores da social-democracia (quando não do comunismo) do outro, até o momento em que se passou a ignorar os direitistas e se exagerou a atenção aos impostores da turma de Boff e Frei Betto.

Essa discussão, que era, como tantas outras, de fundo estético, camuflou o fato de que a luta de Jacó contra o anjo do Senhor pelo qual o país passava era outra, percebida de vários modos por alguns poucos, segundo MVC: a luta pela Graça e pelo “mistério da palavra como meio de comunicação divina entre os homens” em Guimarães Rosa, pela liberdade em Cecília Meireles, contra o ressentimento em Nelson Rodrigues, pelo conhecimento do Mal em Otto Lara Resende.

Houve sim, um autor católico que conseguiu enxergar a luta de Jacó, e não foi outro senão Ariano Suassuna, escritor citado porém não estudado n’A poeira. Li o seu O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta ao mesmo tempo em que lia A poeira da glória, percebendo como Suassuna, lutando abertamente contra os “ventos da destruição” soprados pela primeira geração modernista, e fazendo o recuo necessário para as fontes ibéricas e clássicias, tentou ir além das visões de direita e da esquerda contemporâneas (satirizadas brilhantemente nos dois amigos intelectuais do Pedro Dinis Ferreira Quaderna, protagonista e alter-ego de Suassuna: um era um negro comunista, outro um alemão integralista – escrito hoje, os amigos seriam um branco psolista de classe média e um olavete suburbano), fundindo-as numa visão maluca de um monarquismo de esquerda.

Quaderna ainda sofre de um esteticismo delirante e muito divertido, inflando sua identidade a partir da manipulação da história de sua terra e de sua família. Ele coroa-se a si próprio o rei de um Quinto Império que só existia na sua imaginação de poeta, ou melhor, na obra épica cuja escrita é sempre adiada – romance epopéico destinado a ser o maior da literatura mundial.

Dizendo assim, Suassuna parece mais um desses doidos a influenciar outros doidos, um Mário de Andrade da vida. Há, contudo, um momento em que um dos personagens, avatar de Dom Sebastião que libertaria o sertão dos opressores, conversa com um jovem marxista pretendente a revolucionário e revela-se, na verdade, uma espécie de Anjo Acusador do país, transformando em pó a glória que o rapaz, Quaderna, e, como vemos em A poeira, a intelectualidade brasileira em geral, buscavam. A passagem é longa; vale ser citada, contudo, pelo que confirma das intuições de MVC sobre as almas de nossos artistas e pensadores utópicos:

– A verdadeira alegria, Adalberto, a alegria ardorosa e pura que nós somente pressentimos, é impossível para o homem assim como a paz e a felicidade são os ideais mesquinhos dos frívolos, covardes e superficiais. Isso, no plano individual, como eu dizia. Se você pensa em todos os homens, esse ideal mesquinho de felicidade e paz se amplia, em tamanho e estupidez, no ideal da justiça. O mais que o homem verdadeiro procura, em conflito com o mundo, é colocar uma precária ordem em sua vida e um certo estilo em sua melancolia, em seu destino, que é, por natureza, despedaçado, triste, falhado, enigmático e trágico. Para isso, o homem tem duas fontes, duas raízes de defesa: o choro e o riso. Mas o choro e o riso verdadeiros, aqueles fincados profundamente e cujo ritmo se alimenta de sangue e de subterrâneo. Dinis Quaderna não é alegre, Adalberto. Quem passou e viu o que ele viu, não pode ser alegre. Os subterrâneos do sangue dele são como os meus, povoados de mortos sangrentos, que flutuam no rio da desordem. Apenas, enquanto eu resolvo meu conflito pelo choro e pelo suor do sangue e da violência, ele resolve o seu pelo riso; mas eu não sei qual o mais despedaçado, se o meu sangue ou o riso dele!

Durma com isso em seus ouvidos, leitor.

iv

É uma visão de condenados as que MVC apresenta nessas anti-epifanias. Qual seria a salvação, pois, a via simbólica que poderia ser entrevista por aqueles escritores que não sucumbiram à “criança interior”, à estética da dissimução, à idolatria do Estado, ou seja, as várias formas em que se trocou o real pela ideologia, segundo MVC?

A saída seria aquela escolhida por Cecília Meireles, que terminou seu Romanceiro da Inconfidência “com a imagem dos cavalos correndo pelos vales e morros de Minas Gerais”, cavalos esses que, segundo o mito da parelha alada que Platão conta em Fedro, são dois: um cavalo que se dirige para o alto e simboliza o Bem, enquanto que o outro cavalo, bravio, deseja dirigir-se para a Terra. Os cavalos são, respectivamente, as forças ascendentes e descendentes da alma, cujas forças são maiores que as humanas. A saída seria domar um deles. Dominar o cavalo mau para que o cavalo bom vença a parelha depende da habilidade do condutor; no caso do Brasil, eles estão soltos, sem rumo, e não há quem os conduza; quem decidir domá-los precisa transcender o Brasil, escolhendo o “desterro perpétuo”.

E onde seria esse desterro? Riobaldo Tatarana, o herói de Grande Sertão:Veredas, aponta o caminho, o da liberdade interior:

Ah, mas então, do sobredentro de minhas idéias – do que nem certo sei se seja – uma minha-voz, vozinha forte demais, de tão fraca, suministrou meu cochicho. Foi. Em tão curta ocasião que teve, essa vozinha me deu aviso. Ah, um recanto, miúdos remansos, aonde o demônio não consegue espaço de entrar, então, em meus grandes palácios. No coração da gente é o que estou figurando. (…) Que isso era o que a vozinha dizia: – ‘Tento, cautela, toma tento, Riobaldo: que o diabo fincou de pé de governar tua decisão!…’ A anteguarda que ouvi, e ouvi seteado, e estribei minhas forças energias. Que como? Tem então freio possível?’ Teve, que teve. Aí resisti o primeiramente. Só orçava. O instante que é, é – o senhor nele se segure. Só eu sei.

Por Ricardo Santos de Carvalho