Guerra, sexo, morte e o que resta após o caos

Para diminuir a tensão destes dias conturbados, falemos de coisas mais suaves. A morte, por exemplo:

A morte está hoje diante de mim

Como a convalescença de um homem enfermo,

Como a ida para o jardim depois da doença.

Estes versos abrem um muito antigo cântico egípcio que, a modo de diástole, porei ao longo desta nota.

O tempo anterior da Semana Santa e o conseqüente tempo da Páscoa inserem aquele que vive o ciclo litúrgico em um tipo de diálogo intenso com a morte, daqueles que a nossa sociedade nos tolhe. Acontece por cá também que as últimas leituras tivessem-na por motivo principal: O ano da morte de Ricardo Reis, de Saramago, a costa dos murmúrios, da também portuguesa Lídia Jorge, alguns poemas de Jorge de Lima coligidos em Tempo e Eternidade, e, em especial, A origem da linguagem, do Rosenstock-Huessy. Este último é ensaio que parte da tese de que quem diz que a vida humana começa pelo nascimento está a falsificá-la, desde que o que ocorre é o oposto: a vida começa com a morte, a morte dodelsentidaa comunidade. O túmulo é o início da cultura, é o útero do tempo. Mas disso comentarei em outra oportunidade.

A morte está hoje diante de mim

Como o perfume da mirra,

Como o sentar-nos sob a vela num dia de vento.

A visão de Lídia Jorge em seu romance (Ed. Record, 2004) já se dá no sentido de que a morte é atualização de possibilidade de olvido e apagamento do ser, tão desejados pela protagonista Eva Lopo. Tal desejo busca lidar com o fato da morte que a rodeia. Falarei nesta nota sobre esse aspecto na obra; darei alguns spoilers, que, espero, não tirarão o prazer de quem não a tenha lido ainda.

A costa dos murmurios Lidia Jorge

O romance é disposto em dois níveis narrativos, habilmente articulados. Lídia está entre os mais festejados ficcionistas portugueses das últimas décadas, conquanto desconhecida por aqui. Um primeiro nível está no conto que abre o livro, Os gafanhotos, escrito vinte anos após os acontecimentos que são depois narrados com minúcias, em um segundo nível, no restante da obrs. Aquele conto é expressão literária, sem pretensão de veracidade histórica, do que a protagonista testemunhará a um escritor anônimo. Um jogo que nos remete inicialmente a Nabokov, para depois nos lançar no terreno do absurdo de um Kafka, de um Isaac Babel e de um Camus.

É conto formidável, em que a retratação do absurdo diante de uma situação-limite como a guerra é narrada brilhantemente. Estamos em Moçambique, no hotel Stella Maris: militares portugueses combatentes na guerra colonial dão uma pausa para festejar o casamento de Evita com o ex-matemático e alferes Luís Alex. São os estertores da ditadura de Salazar, o fim da crise colonial. A beleza dos dias que se sucedem às núpcias é manchada pelo incômodo de corpos mortos de negros a aparecer na orla, carregados pelo mar: os nativos roubaram um carregamento de álcool metílico e beberam-no, pensando tratar-se de bebida alcoólica. É só um incômodo, nada mais, negros que vivem se matando, devido à desunião entre as tribos, agora morrem de estupidez.

Não o bastasse, o conto fecha com o suicídio inesperado de um dos portugueses, tragédia iluminada por uma nuvem de gafanhotos a incendiar de verde a atmosfera já febril daqueles dias. Como eu disse, lembra os contos do militar Isaac Babel, caso fossem narrados por uma noiva dele, e essa noiva fosse dona da prosa mais musical da literatura portuguesa recente.

A morte está hoje diante de mim,

Como perfume da flor de lótus,

Como o sentar-nos no solo da ebriedade.

Pensei em Camus, em Kafka e em Babel em vez de lembrar de Mia Couto, Valter Hugo Mãe e António Lobo Antunes, autores que também tratam do drama pós-colonial na África portuguesa. Há um interesse crescente no Brasil por estes autores, devido aos laços que nos unem aos dois mundos, África e Europa. É, contudo, literatura calcada sobre elementos supra-históricos, que informam as tragédias específicas, elementos percebidos por Lídia Jorge e que tornam a costa dos murmúrios uma obra de interesse universal, como tem interesse universal A peste, O processo e A cavalaria vermelha. Estas três são respostas às grandes guerras do começo do século passado – sendo que Kafka soa na clave profética, por anteceder e descrever os horrores que vieram após sua morte. Estes europeus lidam não para denunciar, fazer mero panfleto; lidam para extrair a substância mais densa de uma realidade que lhes surge caótica para poderem, assim, dar uma luz para eles mesmos e para os leitores que, não sofrendo aqueles acontecimentos trágicos, possam conviver com as realidades prosaicas que assumiram seus aspectos mais paradoxais naquelas circunstâncias: a arte, a memória, a dor, a coragem e a covardia, o sexo, e, caso de a costa, a morte.

A morte está hoje diante de mim,

Como a subida da enchente,

Como a volta de um homem da guerra…

Penso também em Os Lusíadas, penso em Harold Bloom, que disse que o poema de Camões é politicamente incorreto de uma forma deliciosa para os nossos dias. O épico é ofensivo para multiculturalistas, graças ao modo como descreve os muçulmanos e os hindus, e é ofensivo para feministas, no episódio em que os portugueses abatem ninfas para depois “amarem-nas”. a costa dos murmúrios é o fecho de um ciclo iniciado pelos acontecimentos cantados por Camões. Ainda assim, Bloom defende, Os Lusíadas deve ser lido, pois Camões parte do motivo histórico para falar dos temas fundamentais, amor, guerra, fé e memória, de um modo que nos enriquece como poucas experiências estéticas seriam capazes de nos enriquecer. E a costa vai interessar ao bom leitor que não está não está nem aí para agendas multiculturalistas e feministas que defenderiam de bom grado a importância do romance.

Enquanto que em Os Lusíadas o tom é triunfante, o poeta cantando vigoroso a coragem dos portugueses e a malícia dos moçambicanos, Lídia narra os últimos dias dos sucessores de Vasco da Gama na África dando-nos ver almas confusas, inclusive a de Eva, que não sabe lidar com a morte dos negros e o suicídio de um próximo. Ela tenta camuflar outras memórias dolorosas, intuito derribado pelas perguntas do interlocutor anônimo. A investigação dessas tragédias é dada a cabo com a ajuda de Helena de Tróia, sublime mulher do general, que mostra a Eva a verdadeira identidade do alferes e dos outros soldados, assassinos frios, e não guerreiros corajosos. É conduzida também com um jornalista mulato, nativo, que lhe apresenta faces incômodas da África, um ambiente de prostituição, mentira jornalística e desejos de poder no lado de fora do Stella Maris. Há inclusive uma tensão sexual entre Eva e cada um dos dois, cujos arremates têm muito que ver com a dificuldade que elas e ele tem para assimilar o sem sentido das mortes.

É de nossa época uma dificuldade terrível de saber como lidar com a indesejada das gentes. Mais de um pensador já o notou e fez ligação desse descompasso com a dessacralização da vida e da morte: as comunidades tradicionais viam um rito funerário e um rito religioso como atos de comunicação e comunhão com um outro mundo que dá sentido a este. A melhor literatura hoje nos ajuda a retomar um modo sadio de lidar com a morte e suprir esse deficit, pelo menos entre indivíduos. a costa dos murmúrios nada ensina disso, apenas a acuidade psicológica revela, por sua verossimilhança, os conflitos interiores de Eva para assimilar esse mistério.

Durante a maior parte do livro, e é o que de melhor ele tem, Lídia expõe a dificuldade de Eva em tratar com a morte – ela que cria para si, a partir do seu desejo de anulação e negação deste mundo, e não por uma revelação sobrenatural ou pela especulação filosófica, uma metafísica meio budista, meio niilista, em que o que nos espera no fim de tudo é o nada, ou algo não muito melhor que o nada. Não sabemos se Lídia pensa assim também, e pouco importa para o sucesso artístico do livro. O que o romance nos dá é o retrato de uma alma que, não vendo sentido além do mundo, não sabe lidar com o que acontece aqui.

Estarei vendo demais quando noto que essa resistência ao que há do outro lado também impede que a senhora entre em contato com a vida por aqui, como exemplifica a angústia de Eva quando descobre as causas reais dos corpos trazidos pelas ondas?:

Evita – ‘Quero subir ao alto dum prédio e dizer em voz alta…” Ele – ‘Mas o quê, o quê?” Evita –’Que estão aqui a envenenar pessoas pela calada. A Universidade deu-me a crença na voz que clama do alto do deserto mas clama.’ Estavam diante do Moulin Ruge e ele perguntou – ‘Panfletos” Evita – ‘Nada de panfletos, só clamar. Porque pensa você que Jan Parlach se queimou em Praga? Você pensa que foi pela pátria checa? Não foi, foi por outra pátria que ele achou que havia para além daquela pátria pela qual se queimou na praça.’

Quase pensamos que Eva começa a encarnar Antígona e suas atitudes morais guiadas pelas Leis Eternas, mas a releitura que Lídia faz do drama contado por Sófocles desce a camadas mais travosas do Ser:

O jornalista, com os olhos brilhando – ‘O quê? Quer dizer, sua farsante, que não esteve ali a esmurrar a mesa por causa dos meus patrícios mortos por metanol? Esteve por outra coisa?’ ‘É’ – disse ela. ‘Esse e o outro – o grande envenenamento que cai sem se saber donde, sobre todas as coisas.

E toda essa incapacidade de ter uma postura coerente diante da morte ocorre após a visão de Helena, a sublime Helena, “a imagem do vestido amplo de mulher branca, aberto como o leque de um deslumbrante pavão sobre o corpo negro do seu mainato estendido do jardim verde”, sentida como “imagem cheia de esplendor”. Para ser atingida pela morte alheia, precisa da intermediação de uma cena como essa. Pois a visão a conduz para a conversa anterior com o jornalista, e então os dois vão até o fundo para descobrir as causas das desgraças, embora continue a se debater dentro dela o medo do real, o temor do conhecimento do solo de nossos atos mais repulsivos e instintivos:

Pergunta-me se não tive conhecimento directo. Não directamente (…) E para quê conhecer directamente? Querer desconhecer não é uma cobardia, é apenas colaborar com a realidade mais ampla e mais profunda que é o desconhecimento. (…) Ah, Biblioteca de Alexandria, como eu te estimo tanta vez incendiada! (…) Estimo os países de vocação metafísica total, os que não investem na fixação de nada. (…) Aprecio imenso esse esforço de tudo apagar para se colaborar com o silêncio da Terra…

E prossegue: “De nada vale querer que existam nos escombros os fantasmas. Para quê desejar que permaneçam nos escombros os fantasmas? (…) Gosto dessa vingança do tempo, que sempre deve acontecer rápida sob os nossos olhos, para se poder retirar o sentido da passagem para lugar nenhum que é o local para onde desembocam todas as passagens. (…) A sobrevivência não passa dum fruto da nossa cabeça”.

Dói nela a tensão entre desejo de desconhecimento, virar as costas para o mundo, com o fato de que o mundo, indiferente ao que ela deseja ou não, desaba com tudo em cima de todos. Assim é forçada a investigar. Para resolver seus conflitos, a solução dada foi transformar história em literatura. Instigante antinomia final: a experiência estetizada e cristalizada em um conto será lembrada e lida e vencerá a vingança do tempo, enquanto que pôr no papel ajudará Eva a libertar sua mente do passado, o ato confessional/psicanalítico de contar para expulsar escombros de dentro de nós.

A morte está diante de mim

Como o homem que anseia pelo lar

Depois de anos e anos de cativeiro.

Curiosamente, Eva busca no sexo algo parecido com a morte, ou com a libertação que a morte traz. Recusa a oferta de Helena, figura já meio mítica aos seus olhos, ser etéreo de cabelos de vermelho flamejante, em quem Eva teria apenas uma igual, reflexos de espelho multiplicando sua identidade ao infinito. Eva quer dissolução, o que só os homens podem dar: “Quero que um homem ponha-se em cima de mim para me sentir mortal. Com uma gadanha e uma pá, e me enterre e me empurre até o local donde se extrai o mármore, quando a terra fecha. Um homem com cinco membros que me envolva como uma aranha envolve a mosca até esse pedaço de terra congelada, enterrada e por polir.”

Eva foge de Helena para deitar-se com o jornalista moçambicano. Se Helena desejava Eva para se vingar de todos os homens, agentes das guerras que parecem desestabilizar o real – quando a guerra é a própria essência do real, disse um Heráclito, repetiu um Hobbes –, ele sentiu-se vingando a África da Europa por séculos de exploração, escravismo e assassinatos.

Percebe o leitor a incomunicabilidade de almas, nesse ambiente em que a morte não encontra o seu sentido, espraiando-se para as outras instâncias de suas vidas, em que o sexo não vale nem pelo encontro simples de corpos que se desejam ou por uma aliança matrimonial?

Por fim, há um riso estranho no último parágrafo, reação derradeira a ecoar outras antinomias do Ser: o efêmero das ondas em tensão com o eterno do oceano: “não prolongue, não oiça as palavras. A pouco e pouco as palavras isolam-se dos objectos que designam, depois das palavras só se desprendem sons, e dos sons restam só os murmúrios, o derradeiro estádio antes do apagamento” – disse Eva Lopo, rindo”, após narrar o suicídio que fica suspenso entre o fim do conto e o fim do romance, como se o motivo da escrita dessa obra fosse burlar a realidade desse ato.

Que riso é esse, o que ele ecoa, um sinal de libertação ou uma muito grande confusão interior?

 

Por Ricardo Santos de Carvalho

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