Sobre Duchamp e o apostolado da Arte

(O seguinte exercício foi escrito em setembro de 2012, antes de haver assistido ao documentário de Roger Scruton, Why Beauty Matters, cujo argumento vai ao encontro do meu. Republico hoje para evitar falar diretamente de certa manifestação a favor do PT ocorrida nesta semana, em que uma professorinha sem muita coisa na cabeça pôs-se, como um cachorro ou símio, a defecar no meio da rua, a propósito de forma “artística” de protesto. Duchamp, o sujeito que, ao abrir a latrina de sua alma, fez com que gerações de artistas corressem a conhecer o próprio rosto no reflexo da água dessa latrina, ainda estava na demanda de uma imagem plena da humanidade. Quase cem anos depois, seus continuadores contentam-se apenas em afirmar sua animalidade, esquecidos de que o homem é feito de muito mais que impulsos fisiológicos.)

O apostolado da arte comove o nosso espírito como tudo o que é feito de entrega amorosa e persistência comove o nosso cansaço e falta de imaginação. Contudo, mesmo fascinado por aqueles que fazem da sua vida e obra uma única identidade, não posso deixar de vislumbrar o vazio para o qual se encaminha uma existência que se limita pela estética. Essa vida, exemplificada em Mallarmé e sua arte pela arte, no romantismo neo-pagão e seu anseio mimético pela mãe-natureza criadora, ou nas escolhas pelo “silêncio, exílio e solidão” de James Joyce, teve um de seus maiores apologetas em Nietzsche.

A salvação pela arte não está ao alcance de ninguém; salvar alguém é resgatá-lo de um lugar ou estado para outro. Nietzsche não parecia querer se salvar, mas houve certas visões posteriores que tentaram o salto. Para onde a arte pode nos levar? A muitas instâncias, a algumas dúzias de paisagens e estados anímicos. Mas sempre se retorna para o lado de cá no Grande Desterro. O máximo que o artista pode nos dar é um vislumbre, e isso já é uma das mais altas missões que um sujeito possa tomar para si. A vida requer algo mais para a sua plenitude.

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A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O grande vidro, de Duchamp

Penso nisso ao ler o ensaio que o poeta mexicano Octavio Paz escreveu sobre Marcel Duchamp, publicado em Marcel Duchamp ou O Castelo da Pureza. Para mim, é muito difícil deixar de ver no dadaísmo algo além de confusão, negatividade ou puro desejo adolescente tardio de “encher o saco”. Buscar o sentido da obra, quando o autor não joga limpo em suas intenções, é brinquedo que se pode muito bem deixar de lado quando o prêmio da charada é pouco. Porém, Paz comprou o risco de ver seu tempo perdido e intentou buscar o que a obra de Duchamp, afinal, oferece. Contemplou “A noiva despida pelos seus celibatários, mesmo ou O grande vidro”, e, para arrancar o sentido desse trambolho modernista, precisou recorrer à imagem terrificante da deusa hindu Kali.

Com seus vários braços empunhando objetos como uma espada, uma flor e uma taça, ela, que é a essência de tudo o que é realidade e a fonte da existência do ser, dança sobre os cadáveres superpostos de seu noivo Shiva, aquele que devasta e renova. Em sua investigação, Paz reconhece que tanto a Noiva mecânica de Duchamp quanto Kali são versões do arquétipo da Virgem, as três simbolizando as relações entre vida e morte, amor e fertilidade, tempo e realidade. Cada uma dessas duas imagens é medonha ao seu jeito, revelando os modos como suas culturas vivenciavam a sua própria violência.

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Kali e Shiva

Pondo as imagens lado a lado, Octavio Paz destrinchou o testemunho mudo da Noiva sobre sua época, o século dadaísta por essência e natureza. A imagem de Kali impacta por si só, não se precisa saber nada sobre a Índia e seus deuses para que a representação provoque certa abertura no espectador. Mas, se ninguém avisar que o Grande Vidro é de Duchamp, ninguém prestará atenção ao objeto trincado, com suas imagens à primeira vista sem sentido: como uma máquina, precisa de manual de instruções. Foi aí que Paz descobriu na arte de Duchamp uma ascese, busca espiritual por uma liberdade que se confunde com indiferença: a sua obra não se resolve em si, é análoga à escada de Jacó – se bem que está mais para a ponte do conto de Kafka. Lutando contra o niilismo, Duchamp quis achar algo que, não sabendo o que era, não desistiu de buscar. Suas obras, como a Noiva, são momentos de suas investigações.

Octavio descreveu a obra como a representação de uma busca amorosa dos homens pela Noiva, uma das manifestações do simbolismo gnóstico do Eterno Feminino, só que fadada ao fracasso. A violência coletiva, frustrada, resultou em esterilidade – a própria esterilidade, produzida por castração, de considerável montante dos experimentos da arte moderna, penso.

A conclusão de Paz é outra. Para ele, liberdade, sabedoria, vazio e indiferença são valores congregados na experiência da pureza, algo que não pode ser buscado, e que, no entanto, brota desse fracasso. O anseio pela apreensão simbólica da natureza, que é plena na representação do ciclo de morte e renascimento na imagem de Kali, é uma paródia desesperada (um desespero blasé, diga-se) em Duchamp. Enquanto que, na contemplação da deusa, o indivíduo é reinserido nos ritmos cósmicos do universo, na Noiva nós somos lançados do nada ao nada.

Octavio Paz teve empatia pelo drama criativo de Duchamp, solidarizando-se com o xadrezista. A citação do mestre do dada, apresentada no fim do ensaio, ratifica essa visão do apostolado da arte e o que ela implica, comovendo o mexicano:

Gosto da palavra crer. Em geral, quando alguém diz eu sei, não sabe, acredita. Creio que a Arte é a única forma de atividade pela qual o homem se manifesta como indivíduo. Só por ela pode superar o estado animal, porque a Arte desemboca em regiões que nem o tempo nem o espaço dominam. Viver é crer — ao menos é isto o que eu creio.

Oras, esse caminho é um beco sem saída, ainda mais reconhecendo os frutos da arte dadaísta. E fica mais claro quando noto que, nessa análise, que parte da contemplação de uma natureza louca e assassina, porém fértil e renovadora, em Kali, e chega à visão de uma natureza morta e estéril, mecânica e sem alma, em Duchamp, Octavio fala da Renascença. O dadaísta-mór em muito se identificou com esse movimento. Na produção sacra renascentista, a arte (ainda) era uma abertura para a Revelação, e foi essa abertura que soube ressaltar, com formas antigas e novas, como poucos momentos da história das artes plásticas, a pessoa humana.

Duchamp não aceita a Revelação. Contudo não se fecha no ateísmo ou no agnosticismo (ou pelo menos, finge não se fechar, prosseguindo no jogo):

(…) em termos de metafísica popular não aceito discussões sobre a existência de Deus, o que quer dizer que a palavra ateu, oposta a crente, nem sequer me interessa (…) Para mim há outra coisa distinta do sim, do não e do indiferente — por exemplo, ausência da investigação nesse domínio.

Se ele chega à indiferença e ao não, o risco já estava posto desde o começo. Nisso, o indivíduo se perde, como bem dá a ver o Grande Vidro e seus seres inorgânicos representando seres humanos amputados. É um pouco difícil crer que o ser do homem pode ser manifestado nessa violência, que é a negação dele mesmo. Nem a morte é capaz de negar o homem, se a Piedade se faz presente, como testemunhou Michaelângelo na imagem da Virgem que ampara o Verbo feito carne de sua carne. Eis, aqui, a manifestação plena do que é feito o homem, que dadaísmo nenhum foi capaz de resgatar, e cujos frutos só deram testemunho do abismo de significados que o movimento gerou.

Michelangelo's_Pieta_5450.jpg
Pietá, de Michaelangelo
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