Demolidor e o complexo de Elektra

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O problema da liberdade humana, ou melhor, o problema de se tomar uma escolha que pode definir toda uma vida, eis o grande tema do romance moderno. É o problema do ser, enfim: ser ou não ser, para Hamlet, significa vingar ou não vingar a morte de seu pai; para o Dom Quixote, ser ou não ser é tornar-se ou não cavaleiro e defender os injustiçados a todo custo. E por aí vai. O homem se define pelo que faz, não só pelo que crê. E este não é tema exclusivo da literatura. Stan Lee, ao lado de seus parceiros Jack Kirby e Steve Ditko, explorou variantes desse dilema em seus quadrinhos na Marvel Comics.

O que torna Homem-Aranha, Hulk, X-Men, Surfista Prateado e outros personagens tão representativos de seu tempo é o modo como Stan Lee soube usar uma matéria popular – a fantasia de super-heróis para tratar esse tema. O que fazer com a liberdade era a preocupação principal de sua época. A cultura pop, a publicidade e as militâncias políticas punham pela primeira vez na história o jovem no centro do palco. Apresentavam-lhes um mundo inteiro para ser conquistado por direito. Mas, quando esse jovem se punha na demanda do que desejava, a realidade mostrava-se diferente do que os cantores, publicitários e agitadores vendiam. Daí toda a angústia dos beats, dos existencialistas, dos cineastas francesas. Não lhes era ensinado que grandes poderes traziam grandes responsabilidades, e acabavam engolidos pelos resultados não esperados de suas escolhas.

Talvez só Stan Lee ensinava, e essa era apenas uma das qualidades de um pequeno gênio cujo sonho era escrever o grande romance americano, mas que fez sua fama nos quadrinhos. Ele compartilhava uma profunda consciência moral, típica da ficção judaico-americana, como a de Philip Roth, Saul Bellow e Woody Allen, ainda que em menor grau. E com Will Eisner, claro, vide as graphic novels Contrato com Deus e O Edifício. Seus heróis tinham as vidas mudadas por um acidente extraordinário, ou por uma marca de nascença, no caso dos X-Men, que os colocavam em uma situação tal que precisavam tomar essa única decisão definitiva.

Peter Parker, por exemplo, fez uma escolha ruim: usar os poderes ganhos com uma picada de aranha radioativa para ter algum dinheiro em lutas livres; a escolha custou a vida de seu tio, morto por um assaltante que ele deixou escapar, e uma segunda escolha então foi feita: usar os poderes de Homem-Aranha para combater o crime e não deixar que outros inocentes perdessem a vida por causa de seu egoísmo. Mas a marca daquela primeira escolha nunca deixou sua alma, por isso a repetição constante para si de um mantra que dava unidade ao seu ser, já dito aqui: “grandes poderes trazem grandes responsabilidades”.

É curioso que um outro bordão de Stan Lee, “estou preso em um mundo que eu não criei”, fosse repetido por seus heróis, mas desmentido pelas escolhas deles. Ao definir o que fazer com seus dons extraordinários, ganhos sem que fosse dada escolha, eles tomavam conta de suas vidas: criavam-se enquanto indivíduos. Era o mesmo dilema existencialista tratado de outras formas por outros artistas naqueles anos sessenta, em que o sonho era posto como mola da realidade. Lee, em histórias feitas para adolescentes, era mais maduro que autores que escreviam para adultos. O jogo da amarelinha, de Júlio Cortazar, romance símbolo dessa época, por exemplo, retrata a vida de um homem de meia-idade que, movida a sonho, foge das responsabilidades. O resultado: vazio e tragédia. O contrário do que os heróis de Stan Lee viviam.

Em Demolidor, seriado produzido pela Netflix e baseado em uma das criações de Lee, o herói precisa tomar responsabilidade por seus atos todos os dias, em todas as horas. Ao contrário do Homem-Aranha, que teve uma segunda escolha, o Demolidor foi fiel à sua primeira decisão, e de forma dupla: ser um advogado que protege os desfavorecidos pelo sistema, ser um super-herói que usa seus sentidos ampliados por um acidente também causado por material radioativo. O problema é o limite imposto pela realidade ao cumprimento dessas vocações. O crime é uma força tão terrível, assume formas tão extremas em seu bairro, apropriadamente chamado Hell’s Kitchen, que em várias vezes a solução final aparece-lhe como única alternativa: matar. Mas ele não pode. Por quê? Porque ele é advogado, e acredita que todos devem ser julgados por seus atos por um juiz, que não é ele; e porque ele é católico, e acredita que todos devem ser julgados por seus atos por um juiz, que não é ele, é Cristo.

Este é o tema que conduz o enredo na primeira temporada. O Demolidor não teme perder a vida em nenhum momento, dá tudo de si, indiferente à quantidade de seu sangue derramado. Mas ele não pode tirar a vida de outro. É uma visão agônica do catolicismo irlandês de Matt Murdock, o homem por trás da máscara de demônio, tão distante do nosso catolicismo festivo.

Um diálogo resume essa visão: uma enfermeira conhece-o e passa a cuidar de seus seguidos ferimentos, e questiona sobre o mistério:

— Certo, é disso que estou falando. Acho um cara em uma caçamba, que é um justiceiro cego capaz de fazer coisas sinistras, como sentir colônia através de paredes e se está inconsciente ou fingindo. Além disso, ele agüenta uma dor tremenda sem reclamar.

— A última parte é catolicismo.

Se entre nós o catolicismo tem a função de catarse, de analgésico, de consolação diante de uma realidade adversa, de celebração festiva (na literatura um Jorge de Lima mais órfico do que cristão, em Suassuna o auto sempre tendendo para a farsa e a comédia redentora, mesmo em uma pseudo-tragédia como A mulher vestida de sol), na Irlanda é um chamado para abraçar as dores até o martírio e a transfiguração do mundo. Talvez por isso nosso cristianismo nunca nos deu uma obra-prima na ficção; a exceção que confirma a regra é A hora e a vez de Augusto Matraga, de Guimarães Rosa.

É interessante que quem tenha recorrido ao catolicismo para moldar o personagem tenha sido um ateu, Frank Miller, autor dos quadrinhos em que se baseiam a primeira e a segunda temporadas. Embora, em sua criação, Miller tenha sido educado no catolicismo, foi seu interesse por valores éticos baseados em sacrifício e na integração do ser através de uma disciplina ascética guerreira que o levou a buscar nessa religião a configuração dos dramas de Murdock. Vemos isso em outras obras dele, em especial 300, com o ideal espartano, e em Ronin, com o bushido, código de honra samurai muito parecido com o código dos cavaleiros medievais. Miller é ainda entusiasta de Ayn Rand, cuja visão ética é o análogo possível para uma ascese individualista imanente.

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Elektra e Matt Murdock

Como os cavaleiros medievais, os guerreiros espartanos e os samurais, o Demolidor vai sempre em frente, em uma única direção e até a morte, sem desvio: todas as suas paixões são movidas para o Bem, para as promessas feitas no batismo e vividas em sua missão peculiar.

Na segunda temporada entra outro personagem, Frank Castle, o Justiceiro, ex-militar que perdeu a fé católica e resolve eliminar as principais gangues de Hell’s Kitchen. Qual foi sua escolha inicial? Vingar sua família, assassinada por uma das gangues. O Justiceiro simboliza uma potencialidade da psiquê do Demolidor, a parte mais negra de sua alma: o herói que mata. Murdock sabe, e Elektra, sua ex-namorada e ninja assassina, diz-lhe que, uma vez rompido o limite do assassinato, ele não será mais o mesmo. Justiceiro nunca se arrepende, e talvez essa impossibilidade de arrependimento seja um sintoma de sociopatia.

(E, se o tema católico da primeira temporada é o “Não matarás”, o da segunda é o imperativo evangélico de ver no bandido a possibilidade de salvação: bandido bom não é bandido morto, mas bandido arrependido e libertado do Mal.)

Elektra fica no meio termo, é o único personagem com um conflito interior mais parecido com os dramas existencialistas dos anos 60, em que se mesclam impulsos eróticos e de morte. Assim, ela tenta seduzir Matt para que se torne um assassino como ela. Apesar de que os papéis de Justiceiro e da parceira de Murdock, Karen Page, tenham sido melhor trabalhados – Demolidor é quase um coadjuvante de Frank Castle –, é a indecisão de Elektra quem rende os dramas morais mais interessantes. Ela fica entre o desejo de se render aos seus impulsos assassinos e o sonho de ser amada. Só que, para ser amada por Matt, ela precisa escolher o Bem. E é aí que Elektra, que sempre viveu a angústia de não saber o que era, nega a identidade tão desejada e que lhe é oferecida, para ter a chance de viver um amor que a ajudaria a criar uma outra identidade redimida. É uma porrada em Freud e Jung, e é também o paroxismo do reconhecimento da necessidade de se tomar posse de uma única escolha que integre seu ser acima de suas paixões dispersivas. Mesmo que essa escolha se dê no fim da vida, como a escolha do Bom Ladrão na cruz.

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