De quando Albert Camus fez sua entrevista com um vampiro

“Se os proxenetas e os ladrões fossem sempre condenados em toda parte, as pessoas de bem, meu caro senhor, julgar-se-iam todas e incessantemente inocentes. E, no meu entender — pronto, pronto, chego lá! — é sobretudo isso que é preciso evitar. De outra forma, haveria muita razão para rir.”

A queda, Albert Camus 

O questionamento de fundo evangélico quem sou eu para julgar alguém tornou-se um imperativo tão vulgarizado quanto mal-compreendido, e eu ainda não sei como não o transformaram em um slogan comercial. Em slogan político já o foi, e não é estranho que seu uso esteja a ser tão depravado por profissionais manipuladores do ressentimento com o fim de que sejam válidas apenas as suas próprias acusações.

O que está por trás do mal-entendido, além da vontade de retorcer tudo para caber em causa própria, está no esquecimento, também intencional no início de sua difusão, porém inocente quando reproduzido, do contexto inteiro do choque de Jesus contra os fariseus em favor da adúltera, em que o ato de misericórdia só é válido porque vem com um pedido de conversão da mulher. E essa conversão implica o reconhecimento das próprias culpas passadas. Nas cabeças de várias alas dos pós-modernos, os fariseus são os únicos culpados e a adúltera é inocente.

Não há nada no texto evangélico que justifique essa leitura. Todos são culpados. Todos nós, porque somos ao mesmo tempo os fariseus e a adúltera, e só ao Cordeiro Imaculado é possível situar-se acima deles. Porém, desde os anos 60, foi sacralizado o dogma de que todos são inocentes, de que a culpa é da sociedade, dos opressores, do capital, forças que impedem que nós sejamos este Adão de manhã cedo que as elites artísticas e intelectuais julgam ser e crêem que toda a humanidade deva se perceber assim.

Isso é fácil de se notar, mas parece que há uma dificuldade desgraçada em saber o que é a “culpa católica”, uma vez que não se sabe mais o que é culpa simplesmente, sem adjetivos.

Um professor amigo certa vez repostou, em seu perfil de rede social, uma matéria sobre um bandido orgulhoso de seu crime. Não lembro qual a natureza de seus feitos, se assassinato, se estupro, se roubo. Lembro apenas que o marginal divertia-se com a atenção voltada para ele. O professor lamentou que o fenômeno acontecia porque nossa sociedade não tinha mais a tal “culpa católica” entre seus sentimentos comuns.

A atitude do criminoso recordou-me algo diferente: o discurso final do protagonista de O estrangeiro, de Albert Camus.

A queda (1956), último de seus romances, fez-me pensar em porque vivemos tão confusos sobre o que é julgamento e o que é culpa, dominados que estamos por bodes expiatórios e por nossa presumida inocência. Camus ressentia-se de que o livro não fora compreendido. O romance permanece um enigma, e não sou eu que tentarei dar uma chave definitiva, embora o argelino tenha dito que as confissões do protagonista referiam-se a ele mesmo e ao grupo de existencialistas com que ele foi identificado. Para além de um eflúvio subjetivista e do retrato de uma moda filosófica, o artesanato com que trata dos temas da culpa e do julgamento é tão belo quanto revelador dos mecanismos pelos quais o europeu lidava com esses problemas em sua época — e que só pioraram.

O romance consta de seis longos monólogos apresentados na forma de diálogos entre Jean-Baptiste Clamence (o nome não é arbitrário) e um interlocutor anônimo, funcionando como um meio-termo entre confissão e acusação a todo cidadão europeu agnóstico que pusesse os olhos na obra. O artifício fica exposto na profissão de Clamence: juiz-penitente. As confissões-acusações dão-se na capital da Holanda, esse não-lugar onde cidadãos de todos os cantos do velho continente acorriam para viver a experiência da Terra sem Culpa, onde prostitutas são expostas em vitrines e está-se “mais ou menos em todas as coisas“.

Albert Camus smoking on a balcony
Albert Camus

Nesses monólogos, o juiz-penitente vai espalhando veredictos condenatórios sobre o homem moderno enquanto fala positivamente de si. Ele é um advogado especialista em causas dos desvalidos: as viúvas, os órfãos, os pobres. Contudo, seu samaritanismo é conscientemente utilitário. Ele sabe que age assim porque a boa ação faz-lhe sentir-se magnânimo, ele que já era bonito, atlético, um sucesso com as mulheres, um homem de bons gostos e cultura. Seu objetivo primeiro era a perfeição em tudo, mas, ao longo dos tempos, descobriu que não era tão perfeito assim. Incidentes ridículos riscaram sua auto-imagem. Após mostrar-se como senhor constante de seu próprio estado de espírito, condição que em suas palavras é “privilégio dos grandes animais“, alguém que conseguiu não se contaminar pela cegueira dos seus pares, ele vai-se retratando como um vil, o mais vil dos vis. As auto-acusações, no entanto, servem para um fim impressionante, que é o grande triunfo estético do livro — além, claro, da sequência interminável de agudos aforismos acerca dos seus concidadãos (“os europeus têm a necessidade de tragédia, que se pode fazer, é a sua transcendência, seu aperitivo” é bastante cruel quando se lembra que há pouco mais de dez anos terminava a segunda grande guerra).

No fim, Jean-Baptiste revela-se um vampiro psíquico. A queda é o que o Entrevista com o vampiro da Anne Rice promete ser e não cumpre: uma história de vampiros, e mais, a melhor história de vampiros jamais escrita.

Não cometerei a deselegância do spoiler, desde que o livro em si não é objeto desta reflexão, e sim o que está contido nas seguintes palavras de Jean-Baptiste, palavras estas que preparam o golpe fatal em sua vítima:

“Afinal, é isso mesmo o que sou, refugiado num deserto de pedras, de brumas e de águas pútridas, profeta vazio para tempos medíocres, Elias sem Messias, cheio de febre e de álcool, encostado nesta porta bolorenta, de dedo erguido para o céu baixo, cobrindo de imprecações homens sem lei, que não conseguem suportar nenhum julgamento. Pois eles não conseguem suportar, meu caro, e esse é o problema. Quem adere a uma lei, não teme o julgamento que o recoloca em uma ordem na qual crê. Mas o mais alto dos tormentos é ser julgado sem lei. Nós vivemos, porém, neste tormento. Privados de seu freio natural, os juízes, soltos ao acaso, servem-se à vontade. Então, não acha que é realmente preciso tentar andar mais rápido do que eles? E começa a grande confusão. Os profetas e os curandeiros multiplicam-se para chegar a uma lei certa ou a uma organização impecável, antes que a terra fique deserta. Felizmente, eu consegui! Eu sou o fim e o começo, eu anuncio a lei. Em suma, sou juiz-penitente.”

Eu sou preocupado com a defesa do cânone literário, graças em muito à luta de Harold Bloom contra as Escolas de Ressentimento. Algo que percebo em pessoas que são influenciadas pela “desconstrução dos paradigmas” é que elas têm dificuldade de entender certos valores e conceitos universais que estão por trás de toda obra da literatura moderna. Assim, um romance dos não tão distantes anos 50 como é A queda apresenta obstáculos para a interpretação que, se não chegam a ser grandes quanto as que se vêem nos poemas escritos em uma tradição morta, caso da Divina Comédia, obra hoje ilegível sem um glossário e um bom conhecimento da teologia, da física e da ética medievais, são contudo consideráveis. A subversão de linguagem que os desconstrutores de tudo vem provocando podem tornar ilegíveis parte grande do cânone. Camus parece cristalizar a época em que culpa e julgamento passam a significar conceitos bem diferentes do que significaram para a Europa desde suas raízes pagãs, semíticas e católicas.

Hoje, o mal não é que culpa e julgamento não tenham o mesmo significado de antes, é que não têm mais significado algum.

Há uns tempos eu notava o quanto subcelebridades gostavam de dizer, com orgulho estranho, que não se arrependiam de nada em suas vidas. Soava falso, como auto-defesa diante dos acusadores de plantão, mas mentira dita inúmeras vezes como um mantra torna-se auto-hipnose, conformando seus atos futuros aos mesmos erros antigos. E é assim que se entregam docilmente aos vampiros, como as mocinhas enfeitiçadas fazem nas histórias arquetípicas dos monstros.

(Ensaio de março de 2015)

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