Aforismos kafkianos

jonas

Alguns dos perturbadores aforismos de Kafka:

4. São muitas as sombras de falecidos que apenas se ocupam em lamber as marés do rio dos mortos, porque este vem dos nossos lados e ainda tem o sabor salgado dos nossos mares. O rio crispa-se então enojado, inverte o sentido da corrente e despeja os mortos de novo na vida. E eles contudo são felizes, entoam cânticos de agradecimento e afagam o indignado.

20. Os leopardos invadem o templo e esvaziam os vasos sacrificiais. Esta situação repete-se constantemente. Até que por fim pode ser prevista e então torna-se uma parte da cerimónia.

23. É do verdadeiro adversário que te chega uma coragem infinita.

29. As segundas intenções com que acolhes o mal em ti não são as tuas, mas sim as do mal.
O animal arranca o chicote ao dono e chicoteia -se a si próprio para se tornar senhor. E não sabe que se trata apenas de uma fantasia, produzida por mais um nó no chicote do dono.

33. Os mártires não menosprezam o corpo. Deixam que seja elevado na cruz. Neste ponto estão de acordo com os seus adversários.

40. É apenas a nossa noção de tempo que nos permite designar o Juízo Final com esse nome. De facto trata-se de uma lei marcial.

45. Quanto mais cavalos atrelares, mais depressa consegues. Não a extracção do bloco de pedra, o que é impossível, mas o rompimento das correias e assim um passeio alegre e vazio.

60. Quem renuncia ao mundo só pode amar todos os homens, porque também renuncia ao mundo deles. Começa assim a intuir a verdadeira natureza humana, que – supondo que dela se partilha – só pode ser amada.

66. Ele é um cidadão do mundo, livre e protegido, porque está preso a uma corrente que é suficientemente comprida para que possa aceder a todos os espaços terrestres, mas não tão comprida que possa ser arrastado para lá das fronteiras do mundo. Ao mesmo tempo também é um cidadão do céu, livre e protegido, porque também está preso a uma corrente celeste concebida à semelhança da primeira. Se quiser ir até à terra, a coleira do céu estrangula-o, se quiser ir para o céu, é a da terra que o estrangula. E, no entanto, tem todas as possibilidades, coisa que ele sente. Sim, até se recusa a imputar tudo isto a um erro aquando do primeiro agrilhoamento.

76. Este sentimento: «Aqui não lanço a âncora». E sentirmos logo à nossa volta a maré agitada que nos puxa! Uma viragem. À espreita, com medo e cheia de esperança a resposta anda em torno da pergunta, prescruta desesperada o seu semblante impenetrável, segue-a nos caminhos que menos sentido têm, ou seja, naqueles que se afastam o mais possível da resposta.

77. O relacionamento com pessoas leva-nos a cair na tentação da auto-observação.

78. O espírito só se liberta quando deixar de ser um amparo.

79. O amor físico engana o amor celestial. Não seria capaz de o fazer por si só, mas como, sem o saber, possui o elemento do amor celestial, consegue fazê-lo.

92. A primeira idolatria foi sem dúvida o medo das coisas, mas, em ligação com ele, também medo da necessidade das coisas e, em ligação com este, medo da responsabilidade
pelas coisas. Esta responsabilidade parecia tão gigantesca que ninguém se atreveu sequer a atribuí-la a um único ser sobre-humano, porque mesmo através da mediação de um ser a responsabilidade humana não teria sido suficientemente aliviada e o contacto com um único ser ainda estaria demasiado manchado pela responsabilidade. Foi por isso que a cada coisa foi dada a responsabilidade por si mesma; mais ainda, a cada coisa foi também dada uma relativa responsabilidade pelos homens.

103. Tu podes furtar-te aos sofrimentos do mundo. Tens liberdade para isso e corresponde à tua natureza, mas talvez seja justamente essa fuga o único sofrimento que podias evitar.

(Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho, trad. de Cristina Terra da Motta)

 

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