Algumas notas sobre Submissão, de Michel Houellebecq

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(Texto publicado anteriormente em maio de 2015. A eleição do primeiro prefeito muçulmano de Londres só acentua a importância deste romance.)

1.

Devido à tragédia coincidente à apresentação do romance ao mundo — capa do Charlie Hebdo no dia em que o pasquim foi atacado por terroristas islâmicos — e a opiniões anteriores de seu autor ao mundo, como as de que “o Islã é uma religião estúpida”, Submissão (ed. Alfaguara, 2015) de Michel Houellebecq foi esperado como uma provocação aos muçulmanos, combustível para a islamofobia. Mas que nada. O romance é uma peça de acusação ao francês comum, ao europeu médio, à sua falta de vitalidade, ao seu hedonismo e o esgotamento de sua espiritualidade. Houellebecq  só aponta para essas características, sem lamentar ou rir delas, e, se o faz, é bem por dentro, lá por trás da forma de sua conhecida apatia, tão irritante para muitos, principalmente para a inteligentsia compatriota, tão cultuada nas universidades brasileiras:

No plano material, no entanto, não havia do que me queixar: tinha a garantia, até minha morte, de me beneficiar de uma renda elevada, duas vezes maior que a média nacional, sem precisar realizar em troca o menor trabalho. No entanto, sentia muito bem que me aproximava do suicídio, sem sentir nenhum desespero nem tristeza especial, simplesmente pela lenta degradação da “soma total das funções que resistem à morte”, conforme fala Bichat. Estava claro que a simples vontade de viver já não bastava para que eu resistisse ao conjunto de dores e aborrecimentos que balizam a vida de um ocidental médio. Eu era incapaz de viver para mim mesmo, e para quem mais iria viver? A humanidade não me interessava, até que me repugnava, eu não considerava de jeito nenhum os humanos como meus irmãos, e menos ainda se considerasse uma fração mais restrita da humanidade, formada por exemplo pelos meus compatriotas, ou por meus ex-colegas. Mas eu devia admitir, bastante a contragosto, que esses humanos eram meus semelhantes, mas era justamente essa semelhança que me levava a fugir deles; eu precisaria de uma mulher, essa era a solução clássica, já testada. Uma mulher é sem dúvida humana, mas representa um tipo ligeiramente diferente da humanidade, pois traz à vida certo perfume de exotismo. Huysmans poderia ter pensado nesse problema praticamente nos mesmos termos, a situação não tinha mudado desde então, a não se de maneira informal e negativa, por um lento desgaste, por um nivelamento das diferenças — mas até isso, talvez, tinha sido amplamente exagerado. Afinal, ele pegara outro caminho, optara pelo exotismo mais radical da divindade; mas esse caminho me deixava igualmente perplexo.

2.

(Do que me lembro que há pouco eu lia o Mário Vieira de Mello soando o alerta em Desenvolvimento e cultura – o problema do estetismo no Brasil (Companhia Editora Nacional, 1963), desde os anos 60, para a necessidade de compreender a Europa como um problema antes de pensar o nosso modelo próprio de cultura. Resolveríamos assim a aporia que há entre as duas perspectivas que, até então, eram as duas posturas mais comuns do pensamento tupiniquim: aceitar a Europa como realidade incontornável, e reproduzir automaticamente o que há de mais novo por lá, ou rechaçá-la, fingir que se pode evitar todo condicionante histórico, gritando com muita histeria: eurocentrismo! eurocentrismo! eurocentrismo!, igual uma garota de sovacos coloridos a dançar tambor de crioula com uma camisa da Amelie Poulain, vítima do seu tempo. Houellebecq demarca neste romance algumas notas que caracterizam o fundo existencial da crise da consciência européia: uma cultura que desistiu de si mesma e que, no entanto, é vista por muitos por cá como o modelo do que devemos ser.

3.

Submissão é narrado por um professor de literatura que não tem “a menor vocação para o ensino”. Ele é especialista em J. K. Huysmans (1848-1907), escritor francês cuja conversão do satanismo ao catolicismo é representada em seus romances. O satanismo de Huysmans foi pouco mais que uma modalidade do estetismo em moda, seu catolicismo era uma nostalgia pela Idade Média gótica – saía do estetismo e permanecia nele. O professor é um solteiro de meia-idade bem-sucedido em sua área, sem muitos amigos, cercado de intelectuais carreiristas cujas vidas não são influenciadas por seus objetos de estudo: uma vida social de universidade bem comezinha e pouco atraente. Cenas pornográficas são descritas prosaicamente, sem calor e com angústia, como fatos à toa; as relações amorosas do protagonista são trocadas a cada ano, sem grandes dores. Só alguns atentados e o medo pela nova situação mudam a rotina, para, depois, aconchegar-se em uma muito irônica adequação à nova realidade do país subitamente islamizado. A submissão não veio por um governo autoritário, veio pela promessa do saciamento dos instintos.

Talvez a dignidade estética do livro esteja na sutileza sem jogos de linguagem, na secura do estilo a denotar fadiga, com que vai construindo a passagem das percepções do ambiente. O professor vai cedendo, atraído por aquilo que diz algo à sua alma européia domesticada por décadas do modelo do Estado de bem-estar social: a satisfação garantida das necessidades animais de sexo, comida e segurança.

4.

Para o professor, uma única saída: toda possibilidade de transcendência se esgotava na literatura:

A especificidade da literatura, arte maior de um Ocidente que se conclui diante dos nossos olhos, não é, porém, muito difícil de definir. Tanto quanto a literatura, a música pode determinar uma reviravolta, um transtorno emotivo, uma tristeza ou um êxtase absolutos; tanto quanto a literatura, a pintura pode gerar um deslumbramento, um olhar novo depositado sobre o mundo. Mas só a literatura pode dar essa sensação de contato com outro espírito humano, com a integralidade desse espírito, suas fraquezas e grandezas, suas limitações, suas mesquinharias, suas idéias fixas, suas crenças, com tudo o que o comove, o interessa, o excita ou o repugna. Só a literatura permite entrar em contato com o espírito de um morto, de maneira mais direta, mais completa e até mais profunda que a conversa de um amigo — por mais profunda e douradora que seja uma amizade, numa conversa nunca nos entregamos tão completamente como o fazemos diante de uma página em branco, dirigindo-nos a um destinatário desconhecido.

5.

Contudo, o livro não frustra aqueles movidos pelas paixões políticas, mormente a quem não dispensa um bom exercício de futurologia. Houellebecq põe-nos em um futuro próximo: pela primeira vez em décadas, os partidos de esquerda e de direita moderados estarão fora do segundo turno da disputa pela presidência. A direita da candidata Marine le Pen e o partido da Fraternidade Muçulmana concorrerão em uma França cada vez mais islamizada e anti-liberal. A esquerda decide apoiar o candidato do Islã, forte é o medo que a elite tem de uma volta à direita contra-revolucionária. Os judeus são os que mais temem, representados em uma namorada do professor.

As discussões políticas no livro são especialmente divertidas para quem, como eu, acompanha certo “debate” do underground brasileiro entre olavianos (ou olavettes, fica à sua escolha), adeptos da Quarta Teoria Política (uma tentativa de absorver e superar dialeticamente as três teorias do século XX, fascismo, liberalismo e comunismo, através de um reavivamento de tradições metafísicas) e um grupo inexpressivo de católicos tradicionais defensores da Doutrina Social da Igreja. Pois que um presidente muçulmano que decide implantar o distributismo, modelo econômico criado por Chesterton e pelo teólogo Hilaire Belloc a partir da encíclica Rerum Novarum, e escolhe como diretor da Universidade de Paris-Sourbonne (agora regida por preceitos islâmicos) um acadêmico cuja carreira deve-se a um estudo sobre René Guénon, metafísico e especialista em religiões comparadas, é algo que imaginaríamos vindo das cabeças paranóides de certas comunidades do Orkut. Daí que surgiu da cabeça de um dos mais polêmicos escritores franceses.

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