Quando não há política

E só cresce a desconfiança de que o antagonismo político do país, polarizado na disputa PT x PSDB, é em verdade a exteriorização de um embate paulista em sua origem e essência: é o filho de mentalidade pequeno-burguesa brigando com o irmão, cuja revolta adolescente toma as características do modismo do dia: eco-ambientalismo, teoria do gênero, cicloativismo, meu-corpo-minhas-regras, etc.

É uma briga de família. A princípio, não pertence a quem é de fora. Por alguma razão, é mimetizada pelos jovens de outros Estados.

Quando reparei nesse nó, passei a manter aquela postura expressa por um dito daqui do Maranhão: “Eles, que são brancos, que se entendam”. Não são os esquemas paulistanos que refletem as aspirações máximas do brasileiro, o que muitos de nós desejamos é algo maior e menos ridículo.

Há uma carta de Vilém Flusser, escrita em 1990, que descreve o quase nada de político que há neste ambiente de hoje, por paradoxal que seja:

O que acabo de oferecer como explicação da falência cultural paulistana (e brasileira) parece negado pela abundância de discussão ‘política’ nos media e na conversa quotidiana (‘eleições’, partidos, etc). A quantidade indigestível de comentários ‘políticos’ nos jornais, por exemplo, parece indicar consciência política da sociedade. Creio que, pelo contrário, o fenômeno confirma minha tese. Nas discussões e nos comentários não se articula consciência política, isto é: senso de responsabilidade intersubjetiva, mas curiosa mistura entre sensacionalismo lúdico (como nas contendas de football), revolta econômica privada e tentativa de racionalizar a própria impotência face a decisões dificilmente localizáveis e analisáveis. A  discussão política paulistana revela, a meu ver, precisamente a falta de politização da qual falei acima. O remédio não é a ‘politização das massas'(…). (carta citada em capítulo da dissertação Flusser: uma história dos diabos, de Ricardo Mendes)

Não é o Brasil de hoje? Não define as duas correntes que disputam o poder? Não há política!

E por isso tenho pensado muito em dois grandes romenos do século passado, o filósofo Constantin Noica e o crítico literário e monge ortodoxo Nicolae Steinhardt, mestre e discípulo, ambos publicados pela É Realizações. Os dois entregaram-se ao estudo das culturas romena e ocidental para sobreviverem a um regime cuja possibilidade de política era inexistente: o totalitarismo comunista.

Não era só no cárcere, experiência vivida pelos dois, que os seus corações e mentes sofreram esse estrangulamento: na Universidade não se podia estudar muito além de Marx e os apóstolos da causa. Para que os dois não enlouquecessem, estratégias foram postas em práticas.

Constantin Noica
Constantin Noica

Noica, clandestinamente, organizou uma “escola” e, entre outras atividades civilizatórias

, fez, durante um ano, uma leitura lenta e concentrada da Fenomenologia do Espírito de Hegel. O objetivo não era gerar eruditos especialistas na filosofia do alemão, algo que os centros europeus geraram com abundância e sucesso. O que se queria era perscrutar, nos movimentos internos da história, a natureza espiritual específica de sua Romênia, o que somente lhe foi dado ser e a nenhuma outra nação mais. Muitos frutos nasceram dessa e outras práticas de Noica, como a vida intelectual de Nicolae Steinhardt, esta nascida na precariedade e na entrega ao Espírito.

Steinhardt foi lançado na prisão, e lá viveu sua grande aventura de conhecimento. Montou na surdina um grupo de estudos em que ele e seus companheiros escolhiam uma matéria, palestrando uns para os outros: os romances Doutor Fausto e A montanha mágica de Thomas Mann, A revolução das massas de Ortega y Gasset, lições de sânscrito e espanhol, biologia geral e história da cultura, entre outros. Homens reunidos em privação à força que, contra tudo e contra todos, não se deixaram levar pela degradação, dominando as circunstâncias. Um ambiente tal que Steinhardt descreve de um jeito que quase nos faz desejar ter estado com ele:

De todas as partes — como as nuvens de montanha — nasce e se condensa na cela 34 aquela atmosfera inefável e sem igual que somente a prisão pode criar: algo muito próximo ao que deve ter sido a corte dos duques de Burgúndia ou do rei Renè de Arles ou de uma court d’amour provençal, algo muito semelhante ao paraíso, algo muito japonês, cavalheiresco, algo que enlouqueceria Henry de Montherlant, Ernst Jünger, Stefan George, Marlaux, Chesterton, Solzhenitsyn, algo constituído de coragem, amor do paradoxo, teimosia, loucura santa e vontade de transcender a qualquer preço a miserável condição humana (…). (Diário da felicidade, trad. de Elpídio Mário Dantas Fonseca, Realizações).

Nicolae Steinhardt
Nicolae Steinhardt

O que mais me enche os olhos e aquece a alma na vida de Steinhardt é sua tentativa de articular crítica cultural e o seu processo de conversão à fé ortodoxa, tema principal de seu Diário da felicidade. As realizações dos ficcionistas e poetas de todas as épocas e nações falam do destino do homem concreto, da recordação das mais altas possibilidades humanas e da denúncia de quão baixo um homem pode chegar quando se afasta dos princípios fundamentais — ou é afastado, como no caso daquela Romênia. Steinhardt, que se batizou na cela, sempre procurou compreender os dramas temporais e as obras da imaginação à luz da Paixão de Cristo. Homero, Cervantes, Flaubert, Dostoievski, Bulgakov, T. S. Eliot e toda a literatura de seu país eram pensadas à luz da Paixão de Cristo, gerando o choque tensional entre história e eternidade que permitiu a ele conhecer aspectos novos sobre sua vida e o mundo em redor. Cultura não era um escapismo, um entorpecente, mas um aprofundamento naquela sua realidade. A criação no presente era uma atitude necessária para salvar suas circunstâncias ao mesmo tempo em que ele pensava os rumos de sua Romênia.

Minha esperança só vem de projetos afins. Não significa, é claro, que algumas reações e umas vitórias aqui e ali não possam ser festejadas, ou que se deva diminuir a força com que se hasteiam algumas bandeiras necessárias. O que há é o pé no chão, reconhecer que tudo está por fazer, exorcizar esse Dom Sebastião que, de tanto não renascer para nos salvar, gorou em nossas almas. E fico feliz ao ver que esse caminho já foi aberto em projetos semelhantes por uma nova geração, vários deles presentes aí na lista de links ao lado.

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