O Jardim das Aflições e a realidade reconquistada

Saudações, amigos. Retomo este blog como parte de um projeto que será revelado nos próximos meses. Mantenho os pequenos ensaios publicados anteriormente, mas digo desde já que o que vem, embora permaneça no mesmo universo cultural, terá outro direcionamento.

Como marco desta nova fase, inicio uma coluna semanal, um híbrido de crônica, ensaio e comentário. Espero que apreciem.

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É difícil falar de forma impessoal sobre o belo documentário O Jardim das Aflições, de Josias Teófilo, apenas pontuando observações estéticas. O filme exerceu uma função apaziguadora sobre mim, e é disso que desejo falar. Deixo aos críticos de cinema a opinião sobre as qualidades de O Jardim, embora eu aponte uma ou outra escolha feliz do diretor, o suficiente, creio, para fazer jus ao seu artesanato.

Por isso que devo dizer de alguns pequenos choques naquela noite de estréia no Cine Praia Grande, conhecido reduto da esquerda cultural maranhense. Só o fato de um filme sobre o filósofo Olavo de Carvalho conseguir lotar aquela sala já era digno de algum espanto. Os outros choques foram reverberações das cenas, impressões que deram forma a memórias e idéias meio esquecidas por aqui dentro. E, do lado de fora, os choques se deram pelo contraste da música de Sibelius, que Teófilo pôs em uma das cenas e que continuou pairando na imaginação, o contraste de sua música com aquele bar pelo qual passamos, em que universitários ouviam pseudo-funk paulista.

(Um contraste tanto mais vivo desde que há pouco mais de um ano ocorrera uma festa bizonha, o I Encontro da Juventude Porra-Loka, criado para afrontar o I Encontro da Juventude Conservadora da UFMA, aquela acontecendo paralela a esta. Disse Olavo à época: “Enquanto os Carcarás discutiam a alta cultura brasileira, a esquerda da UFMA fazia uma festinha bárbara regada a álcool e drogas, que terminou em assassinato de um jovem estudante — um símbolo perfeito do conflito cultural brasileiro de hoje”.)

Não só o Sibelius, como também os recortes do filme de Eisenstein, o trecho de Ortega y Gasset recitado por Roberto Mallet, ou os takes da natureza em Virgínia, EUA, morada atual de Olavo de Carvalho. Tudo me remetia a um dos textos de Olavo que mais me impactaram: aquele sobre a apeirokalia. No artigo, Olavo denunciava o mal que a falta de uma educação do belo causa na alma de qualquer indivíduo. Porque o belo, quando é expressão do verdadeiro e forma sensível da bondade, tem o poder de nos ressituar na própria estrutura do real. A alma a que falta essa formação pode ser presa de inúmeros males, como a escravidão da consciência pelas ideologias que imperam no dia.

Os efeitos dessa escravidão nos eram mostrados depois do filme, andando pelas ruas sujas do Reviver.

E mostrados no filme também: a minha seqüência predileta é aquela em que, soando sobre uma tomada aérea acima da catedral de Brasília, a voz em off do filósofo discorre sobre o processo da modernidade em que a política vai crescendo e engolfando os outros campos de ação humana, de tal modo que esferas, como a do religioso ou do artístico, não conseguem ser concebidas pelo homem a não ser pela linguagem da política, perdendo, portanto, suas essências. Daí a sacada de mostrar o templo desenhado pelo ateu comunista Oscar Niemeyer, um prédio erguido para impedir qualquer ajuda sensível ao cristão na comunhão com o transcendente.

Pois cada elemento do projeto de Niemeyer foi pensado para esse objetivo: desde a arte profana de Di Cavalcanti nas paredes internas até as linhas externas, que iniciam um movimento ascendente para, no meio do caminho, desviar-se do ponto em que deveriam se unir, como se fossem almas desistindo de se encontrar no Céu em Deus. Uma anti-igreja, cuja arquitetura corta o elo entre o homem e os fundamentos de sua existência.

Vendo essa cena eu não pude deixar de lembrar daquele ensaio de Ortega y Gasset sobre arte, quando descreve o poder que uma obra, quando procura expressar a verdade da existência, tem sobre o indivíduo. Chega a ser engraçado o incômodo que o filósofo espanhol, ele mesmo agnóstico, teve ao entrar numa catedral gótica. Ele sentiu-se como que puxado violentamente contra a vontade para o alto, devido ao modo como as colunas foram dispostas por aqueles anônimos pedreiros de mais de mil anos atrás.

Pois a escolha da casa de Olavo nos EUA, no meio da natureza, busca fim análogo, como nos revela o filme: a necessária e constante posse da realidade, que a vida na cidade impede, ou no mínimo prejudica. A sua filosofia questiona a culpa que as idéias têm sobre essa perda de senso do real, por um lado, enquanto que por outro se aprofunda nos mistérios que, quando meditados, nos põem novamente em posse de nossa consciência.

E a conversa de Josias com Olavo dá conta destas veredas fulgurantes de sua filosofia: a morte como ponto de partida da especulação metafísica, a superioridade quantitativa e qualitativa da vida da alma sobre o conjunto da história humana, o porquê do sofrimento. O Pai-Nosso, captado pelo cineasta antes de um momento banal e cotidiano como é o almoço em família, guarda em si um sentido superior, ao ilustrar que as inquirições de Olavo nesses campos não são apartadas da vida, como ocorre entre o cultivadores das correntes filosóficas em voga na academia. Os versos do Pai-Nosso resumem num símbolo todos esses mistérios que fundam seu filosofar, ao mesmo tempo em que abrem uma conexão direta com a fonte deles. O ato de oração transfigura uma necessidade fisiológica, comum a animais, elevando-a num gesto de comunhão que é também abertura metafísica, tornando-a propriamente humana.

Por isso o apaziguamento que senti. Fui aluno do seu Curso Online de Filosofia, mas passei por um tempo de briga interna com ele, por desacordo com algumas de suas posturas. O doc pôs diante de mim tudo aquilo que ganhei por ter lhe ouvido durante tanto tempo, e vi que foi muito. E posso enfim dizer novamente, com gratidão renovada: Olavo tem razão.

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