Invenção romanesca do mar

INVENÇÃO ROMANESCA DO MAR

O mar não era mais que uma idéia triste
enquanto não se permitia tormenta,
quando era só um mole sono de nereidas,
baloiço de barco à vela à deriva
do lento coagular-se do luar.

No fazer-se tormenta, no entanto,
o mar não se fez boa idéia, e nem
má. No furor da eclâmpsia, pariu-se,
além de todo valor que seja do bem ou do mal,
purificado que foi pelo sal
e pelas gotas sanguinosas do luar.

Domínio sublunar (como diziam os antigos
cujos cadáveres babujam nos ritos
que repetimos sonolentos, sem nos darmos
conta dO que impede a lua de cair,
dO que mantém firme o pulso do mar).

Somente quando, pelo sal, sentimos seu gosto,
quando, pelo azul, despimos seu manto,
e quando, na espuma, rompemos seu hímen
e fecundamos, com náufragos, seus campos
foi só então que enfim deixou de ser idéia

e, à nossa imagem e semelhança, fez-se mar.

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