A batalha do Deus-menino contra o espírito do tempo.

O combate conjunto dos protestantes e dos neo-ateístas ao Natal, utilizando argumentos idênticos sobre os resquícios de elementos pagãos nas festas natalinas, só tem um efeito: a destronização de Jesus, o Deus menino, em favor do culto a Mamon, o deus-dinheiro.

Do que me faz lembrar aquela cena do especial natalino do Charles Brown. É tanto um episódio anti-materialista quanto uma singela e poderosa obra de apologética cristã, e sem deixar de divertir, sua principal função. Em 1965, às vésperas do lançamento do episódio, houve temor entre os produtores da emissora de que a referência ao nascimento de Jesus provocasse a ira dos profissionais do ressentimento.  Charles Schulz, o criador da tira e redator do especial, defendeu que o desenho não provocaria essa celeuma. E o episódio foi ao ar com a cena clássica: em resposta ao apelo angustiado de Charles Brown, Quem por aqui poderia me explicar o significado do Natal?, o amigo Linus van Pelt apenas recita a narrativa evangélica da aparição do anjo aos pastores e o anúncio do nascimento do Filho de Deus, presente no livro de São Lucas. Falar de Jesus em um especial de Natal: que ofensivo, que opressor, que desrespeito! Se alguém reclamou, os resmungos foram abafados pela comoção corrida de costa à costa, pelos prêmios – entre eles o Emmy – e pelas constantes reprises nas décadas seguintes.

O desenho ainda consegue comover um mundo descristianizado como o nosso, graças à crítica à falta de sentido que há em uma vida levada somente por valores materiais. A onipresença do Papai Noel, esse porco capitalista, incomoda a muitos, ateus e agnósticos inclusive, por roubar esse sentido. Tenta-se, inutilmente, revitalizar a festa com um chamado aos valores simbolizados pela Sagrada Família: fidelidade, união, esperança, mas com o pudor asséptico de não se referir ao casal e ao bebê, aqueles que justificam esses valores. Sem a referência fundamental à Maria e a José, aos pastores e aos santos reis magos, e ao menino Deus que escapou da morte pelas mãos do Estado, a dessacralização da data também tem o fim de retirar Jesus do centro da sociedade.

Deposto Deus, quem ocupa o lugar vago? Não o homem, como queriam os iluministas e os positivistas ao criarem o calendário civil como forma de eliminar a influência cristã: quem se entroniza é o deus capital, Mamon, vestido de roupas vermelhas, barba de algodão e um saco vermelho chacoalhante de logomarcas.

Junte-se à usurpação do Papai Noel os ataques dos neo-ateístas às raízes pagãs da festa, assimilados pelos evangélicos, e o trabalho está completo. Estes, coitados, não percebem que, rejeitando a data por motivo das fontes romanas, descristianizam a experiência comunal do tempo, tornando a mensagem do Evangelho mais difícil de ser compreendida. Rejeitam tudo o que pode ser considerado como “religião”, como se o culto, o rito e a doutrina fossem sempre manifestações de farisaísmo. Eles desnudam-se de qualquer carga simbólica que possa tornar mais sensível aos homens as realidades sobrenaturais como a Graça, a Justiça e a Misericórdia divinas, a ação dos anjos e dos demônios . Tal equívoco ocorre porque, desconhecendo o que significa o que é o paganismo e o que é idolatria, já não sabem mais o que é o cristianismo.

O Verbo divino dá sentido a todas as coisas naturais e a Encarnação restitui o que no homem foi perdido com o pecado original. Por isso, todos os elementos de uma sociedade pagã são necessariamente convertidos pelo fato capital da presença de Deus entre os homens, elevados a um sentido maior que os das contendas de deuses invejosos, lascivos e incontinentes das mitologias egípcia, babilônica e greco-romana. A cristianização libertou o homem das forças da natureza simbolizadas naqueles deuses. Como diz Chesterton em seu livrinho sobre o São Francisco, comentando esse processo de despaganização que a Igreja Católica empreendeu nos primeiros treze séculos:

A purificação do paganismo finalmente se completara. Porque a própria água havia sido lavada. O próprio fogo havia sido purificado pelo fogo. A água deixara de ser aquela em que se atiravam os escravos para alimentar os peixes. O fogo não era mais aquele que servia para sacrificar crianças ao deus fenício Moloc. As flores já não tinham o cheiro das guirlandas colhidas no jardim do deus erótico Príapo; as estrelas deixaram de ser sinais de frieza distante dos deus, frios como os fogos frios. Eram, todos eles, como coisas que acabaram de ser feitas e aguardavam novos nomes daquele que viria nomeá-las. Nem o universo nem a terra conservavam agora o antigo significado sinistro do mundo. Eles esperavam uma nova reconciliação com o homem, mas podiam ser reconciliados. O homem expulsara de si o último vestígio de culto à natureza, e podia assim voltar a ela.

O positivismo, que reabilitou a idéia iluminista do calendário civil para promover o culto do homem pelo homem, iniciou esse projeto consciente de dessacralização do tempo. O ano inchou-se de motivos para criar campanhas publicitárias e monetizar o máximo possível o amor materno e o filial, a paixão dos namorados, trocando a cruz por chocolate e a missa do Galo por crédito parcelado. A moda do positivismo passou, mas Papai Noel continua mais gordo que nunca.

À medida que se foi perdendo o senso sagrado dos domingos das missas, da quaresma e outras datas católicas, o mundo foi-se repaganizando, agora pelo culto do dinheiro, do mercado e do consumismo com suas modas que retiram do homem a sua auto-identificação pelos valores perenes, construindo em seu lugar identidade por modas ocas e superficiais que duram uma estação apenas.

quatro animais

Por revoltar-se contra os ritos, em outro equívoco de assimilação do discurso ateísta contra a religião, crêem ter o Cristo autêntico em uma presença apenas subjetiva, reforçando o coro anticristão de que o culto devido a Deus é assunto de foro íntimo, e não uma mensagem a ser vivida em comunidade. É a confusão entre fé, uma virtude sobrenatural, e crença, uma adesão subjetiva a um universo de idéias. Mas os poderes do mundo estão aí, e a função que a Igreja tem de combater os senhores do mundo, que é purificando de seus deuses e elevando a experiência sacralizada para um sentido maior que o das forças da natureza, libertando o homem de seu jugo, não é exercido. E, uma vez que se expulsa Cristo da vida, são os vendilhões que tomam seu lugar. Os esforços dos evangélicos concorrem, portanto, não só para uma descatolicização do mundo, mas para a completa capitalização dos sentimentos humanos. Expulsando-se o transcendente da cultura e da polícia, resta a pura vontade de poder, que em nosso tempo é o poder econômico.

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*E por falar em moda, lembro da moda do ateísmo, que já possui a sua indústria própria, como as séries de divulgação cientificista do History Channel. É estranho que hoje os jovens expliquem sua conversão ao ateísmo graças ao conhecimento das semelhanças entre as mitologias antigas e os Evangelhos, como se provassem que o catolicismo fosse uma empresa plagiária e tão falsa quanto a descida de Orfeu ao Hades, a busca de Gilgamesh pela imortalidade ou o resgate de Prometeu por Hércules. Em um movimento contrário, um C. S. Lewis pôde converter-se ao cristianismo depois de estudar mitologia e religião comparada e conhecer essas relações mais profundamente que os neo-ateístas que bradam escandalosamente as semelhanças como se fossem evidências da inexistência histórica de Jesus. Essas semelhanças já eram notadas nos primeiros séculos do cristianismo, e notadas principalmente pelos próprios padres e apologetas. Ao contrário destes, os ateístas de hoje não compreendem que toda a Criação e a cultura humana ansiavam pela Encarnação de Deus para restaurá-las, e esse anseio é onipresente nos mitos universais: a Mãe virgem, a árvore sagrada, a era de ouro antes da queda dos homens, o dilúvio. Seria estranho, isso sim, que essa espera não estivesse traduzida nos símbolos das diversas nações, aparecendo aqui e ali nos quatro cantos do mundo de forma incompleta, como sementes do Logos, para serem reveladas plenamente na Vida e Paixão de Cristo.

E o mais estranho ainda é que os evangélicos mais judaizantes não se incomodem com os elementos egípcios, babilônicos e persas no Antigo Testamento. Tenho um certo fascínio pelo simbolismo dos quatro animais da visão do primeiro capítulo do livro de Ezequiel: o boi, o homem, a águia e o leão, que reaparecem no Apocalipse como anjos do Senhor. Dante Alighieri, seguindo a Tradição, põe no Paradiso um ser com as quatro cabeças. A tradição católica irá interpretar os quatro animais como símbolos dos quatro evangelistas, tornando-os presença iconográfica até hoje em vários templos. Na visão de Ezequiel,  profeta que vivera no contexto do domínio da Babilônia sobre Israel, acima dos quatro animais apareceu um homem sentado em um trono – o Messias judaico que agora era anunciado para todas as nações, e não apenas para os judeus. Acontece que, no século XIX, foi encontrada nas ruínas da Babilônia uma estela¹ em que se figuravam quatro deuses assírios: Marduc, Nabu, Nergal e Ninurta. Os quatro tinham, respectivamente, as formas de um touro, um ser humano, um leão, e uma águia, os três primeiros igualmente alados como a ave, e cada um dirigia-se para um ponto cardeal diferente – um símbolo de imanência, de domínio da presença divina sobre todas as direções espaciais. Assim, a visão de Ezequiel, em que o verdadeiro Deus estava por sobre as quatro divindades, assinalando a submissão dos poderes imperiais e naturais pagãos sob o Messias, reaparece no Apocalipse, purificados, é também um símbolo de transcendência: o verdadeiro Deus existia para além das manifestações espaço-temporais das divindades das nações – e esse conhecimento de que Deus está para além de todo ser foi uma das grandes conquistas metafísicas da humanidade.  O significado pagão dos animais ficou oculto durante estes séculos todos, mas um judeu contemporâneo de Ezequiel, vivendo sob o jugo babilônico, poderia compreender perfeitamente o alcance do simbolismo, rodeado que estava por imagens destes deuses.

¹CERAM, C. W. Deuses, túmulos e sábios, o romance da arqueologia. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1955, p. 222.

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