Por que ler os clássicos

A entrevista que aparece postada aí abaixo teve publicação em O Estado do Maranhão no dia 16 de janeiro último. Seu fim: a divulgação do curso Mitologia e História em Os Lusíadas, a ser ministrada no próximo dia 3 de fevereiro, através do Instituto Valor e Verdade. Acabou por ser uma conversa sobre um pouco de minha visão a cerca da importância e benefícios da leitura dos clássicos literários.

SÃO LUÍS- Um ávido leitor e estudioso de literatura, filosofia e cultura, o pesquisador Ricardo Santos de Carvalho debruça-se atualmente sobre a obra literária mais importante da língua portuguesa – Os Lusíadas, de Camões. A partir do universo simbólico do épico português, ele ministrará no dia 20 o curso “Mitologia e História em Os Lusíadas”.

Em entrevista, Ricardo de Carvalho, que é professor de História, formado pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), comenta a importância de se ler a poesia épica nos tempos atuais. Afirma que “a poesia exige uma entrega amorosa. A leitura de um épico ajuda a reeducar sua atenção, sua capacidade de fazer conexões entre realidades diferentes, a organizar o pensamento, sendo, no fim das contas, um jeito formidável de treinar a inteligência ao mesmo tempo em que se deleita”.

O estudioso explica que a leitura das grandes obras-primas da literatura mundial pode ser suficiente para renovar a nossa capacidade de entender o mundo e a vida. Particularmente, Os Lusíadas é uma obra que diz muito de nossa essência como um povo nascido através do contato da cultura e da língua portuguesa.

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Você tem pesquisado sobre grandes obras que fundaram a história do pensamento humano, como o Épico de Gilgamesh e outras. Por que ler um clássico como Os Lusíadas nos dias de hoje?

São vários motivos, e o prazer não é o menos importante entre eles. Contudo, as grandes obras da história ocidental – cultura que tem suas raízes no Oriente, em obras como o Antigo Testamento, o Gilgamesh ou o Livro dos Mortos egípcio – trazem testemunhos poderosos sobre o modo como homens de vários tempos e etnias lidaram com desafios perenes. Que desafios são esses? Saber se portar diante da violência e da injustiça, dos humores da natureza, do mistério obscuro do sexo, do medo e do fascínio pela morte. Os grandes autores como Sófocles, Cervantes, Jane Austen e Kafka tiveram muito a dizer sobre estes e outros aspectos da vida, mas Camões nos revelou esta sabedoria a partir de nossa língua, o que acabou e acaba influenciando como nós, brasileiros e portugueses, damos expressão aos nossos sentimentos. E, como dizem os evangélicos, a palavra tem poder. Se nós não temos consciência do que queremos dizer quando nós dizemos algo, geramos um clima de confusão entre as pessoas, pois usamos o poder da palavra de modo deficiente. Voltar ao Camões tem quase o sentido de purificar a língua pública de toda linguagem de propaganda, seja ideológica, comercial ou pseudo-religiosa, com que somos bombardeados todos os dias, o que acaba por destruir nossa capacidade de falar a verdade e de denunciar a mentira.

O educador Mortimer Adler afirma que os épicos fazem sempre grandes exigências de atenção, envolvimento e imaginação. Quais são as dificuldades de compreender esta grande obra de Camões?

Além das dificuldades óbvias de contexto cultural e da distância entre as nossas épocas que, com um pouco de empenho, são superadas pelas notas que costumeiramente acompanham até mesmo as edições mais populares do épico, há um esforço de imaginação que deve ser dispensado na leitura. Lendo tanto Os Lusíadas, O Paraíso Perdido, de Milton, ou O Fausto, de Goethe, o nosso repertório cultural aumenta. O conhecimento de três ou quatro épicos da cultura ocidental enriquece a compreensão de tudo o mais que se lê, se assiste ou se ouve. Além do mais, falou-se muito durante anos do impacto da TV sobre o hábito da leitura. Hoje, o problema é bem pior, graças aos efeitos negativos que redes sociais e smartphones provocam na capacidade de atenção e compreensão das pessoas. Boa poesia, dizia o poeta anglo-americano Ezra Pound, é linguagem carregada de máximo sentido. Uma estrofe de Os Lusíadas pode falar às vezes de três coisas ao mesmo tempo. Por isso, não se pode ler boa poesia como se ouve música, com o ouvido focado apenas pela metade, dividindo atenção com outras tarefas. A poesia exige uma entrega amorosa. A leitura de um épico ajuda a reeducar sua atenção, sua capacidade de fazer conexões entre realidades diferentes, a organizar o pensamento, sendo, no fim das contas, um jeito formidável de treinar a inteligência ao mesmo tempo em que se deleita. E assim acaba por se combater os efeitos dispersivos das novas tecnologias de comunicação.

Os Lusíadas é uma obra cheia de simbolismos. Qual o papel da mitologia na obra-prima de Camões?

A mitologia, ou os usos que Camões faz de mitos greco-romanos para contar uma história real (a jornada inédita dos navegadores portugueses para dar a volta na África e chegar à Índia) é um dos tópicos mais discutidos em mais de quatro séculos de estudos críticos sobre o livro. Sem negar que a fantasia tinha, para os renascentistas, a função de convenção literária, isto é, era valorizada como recurso à imitação de modelos clássicos, creio em outros sentidos possíveis. A escolha do conflito entre a deusa do amor Vênus e Baco, esse a recordar muito a figura medieval do Diabo, para representar no plano divino o que ocorria no plano da História, isto é, a demanda dos cristãos portugueses para converter muçulmanos e hindus. Essa escolha fala sobre dramas ainda persistentes. Dramas não apenas políticos, mas espirituais, emotivos, culturais. Os simbolismos são como luzes, ou melhor, como chaves para ajudar a compreender esses dramas. Eles não encerram o sentido final de nada, mas são ferramentas fundamentais para um pensamento dialético que queira desvendar a realidade humana.

Quanto à nossa história como nação e povo em formação. Quais lições podemos tirar do épico de Camões?

Não digo lições, pois embora o poeta busque instruir algo a todo momento, seja sobre o labor poético, ou sobre a natureza humana, ou utilizando uma voz dramática, como a do Velho do Restelo, para vaticinar sobre as ações humanas, o aprendizado que se pode ter é em outro nível. O maior historiador das religiões no século passado, o romeno Mircea Eliade, chegou a dizer que Camões foi o primeiro ser humano a transformar a experiência do homem com o Oceano profundo (não com o mar próximo, perceba) em realidade espiritual. Aqui, espiritualidade significa criar, ou recriar, via rito ou mito, uma ligação transcendente entre o ser do homem e o ser das coisas. O que Os Lusíadas pode nos ensinar, enquanto nação, é a restaurar o sentido espiritual, hoje perdido por muitos motivos, entre o ser do indivíduo e o sentido da própria vida e da própria morte, entre o homem e a comunidade, entre a cultura, a história e a eternidade. Sem essas ligações, somos indivíduos soltos no nada, sem algo que nos ligue ao próximo ou à própria vida. Somos alienados de tudo o que nos fundamenta o existir. Por isso, vemos por aí tanto ódio, egoísmo e depressão. Porque nos foi roubado o sentido transcendente do que nos orienta a viver, seja como pessoas, seja como povo.

O curso que você ministrará será um momento pedagógico raro em São Luís. Há outros cursos que você planeja desenvolver?

Pelo Instituto Valor e Verdade, pretendemos seguir pelas obras de nomes basilares do pensamento luso-brasileiro, sempre nesse objetivo de unir cultura e formação humana. Penso em algo sobre Ariano Suassuna, por seu empreendimento por tentar erguer, no solo da cultura regional, uma obra que dialogue com valores universais. Ou continuar um trabalho já iniciado no ano anterior, no Encontro Conservador da UFMA, de divulgar a crítica civilizacional feita pelo filósofo Mario Ferreira dos Santos, tão urgente por ser posta em discussão. Além do mais, volto logo com a série escrita, que tenho postado em meu blog e no site do Instituto Valor e Verdade, sobre os grandes livros. Como dizia o Didi Mocó, aguarde e confie.

MAIS

O curso, promovido pelo Instituto Valor e Verdade (IVV), ocorrerá na sede do Instituto de Estudos Superiores do Maranhão (IESMA), que fica na Rua do Rancho, Centro, das 8h às 12h. As inscrições estão abertas e podem ser feitas pela internet. Mais informações podem ser encontradas no site http://institutovaloreverdade.org ou para (98) 98138-0717.

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